| Foto: Getty Images |
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Já era de praxe: terminava um namoro e corria para os braços do Zé. Este era um daqueles sujeitos baixinhos, quase gordinhos, do tipo simpático e popular, mas que era visto muito raramente com alguém.
Amigos de longa data, dos tempos do colégio, quando se reuniam em casa pra fazer trabalhos de história. Zé sabia a vida inteira dela. Acompanhara de perto os seus romances e desilusões.
Certa vez leu, numa dessas revistas com mulheres lindas na capa, uma reportagem que questionava a amizade entre homem e mulher e dizia que "antigamente lugar de mulher era em casa e dos homens na rua, no trabalho e assim a única maneira deles se relacionarem seria através de um romance". Ela nunca pensou assim e, pelo contrário, adorava a possibilidade de ter amigos homens. Não tem concorrência, dizia.
Sempre ouviu piadinhas e insinuações da paixão platônica do Zé. Nunca chegaram a conversar a respeito e, ainda sim, mesmo sem ter a certeza, adorava saber, quase que como uma satisfação cruel, que tinha alguém que nutria um amor por ela. Ainda que fosse o Zé.
Ela já estava chegando aos trinta e ainda sim era A Mulher Gostosa Bem Sucedida Que Atraia A Atenção Por Onde Quer Que Andasse.
Sempre namorou homens lindos. Aliás, desde sempre, nunca era escolhida, se dava ao luxo de escolher quem ela quisesse.
Pois diga-se ainda que, apesar de ser rodeada de amigas que acompanhavam suas saídas noturnas e faziam companhia ao banheiro para apontar os alvos da balada ou irem juntas ao shopping verificar os novos lançamentos, era só aparecer algum pretendente novo que ela imediatamente ligava para o Zé para saber sua opinião.
Zé era bancário, saía muito pouco. Tinha uma risada contagiante. Nas festas de família só dava ele. Dono de um carisma ímpar, era o queridinho das mães das amigas. Não diferente da dela. Dançava até suar com todas as tias solteiras e sempre a levava pra casa segurando-a de lado e carregando seus sapatos de saltos altíssimos postos de lado no final da noite.
De repente, o Zé sumiu. Mandava mensagem e ele não respondia, não ligava e o pior e mais preocupante: cancelou a sua conta no Orkut.
Foi então, num desses bares bem frequentados por gente bonita, que avistou de longe o Zé sentado numa mesa distante.
Desviou de copos, garçons e gente espremida para cumprimentá-lo. E assim que chegou viu o Zé aos beijos com uma morena, dessas que pintam os pêlos do braço de loiro, marca de biquíni na cintura e tem as unhas grandes com estilo francesinha nas pontas.
Vulgar! Suspirou por um segundo. Ficou indignada com a falta de atenção do Zé. Este a olhou de canto enquanto beijava a morena e levantou a mão esquerda com um breve aceno. Só!
Sem graça, fingiu atender o celular e voltou pra sua mesa, não desgrudando os olhos da mesa do Zé até o final da noite.
Não parou de pensar no Zé nos dias seguintes. Revia fotos, lia e-mails antigos e se pegava pensando nele toda hora que ouvia músicas antigas. Chegou a desenterrar fitas cassetes que o Zé gravava com temas de novela pra ela.
Acordava e dormia pensando nele. Chegava a ter raiva quando algum sujeito dava em cima dela, ainda que fosse o cara mais bonito do lugar.
Era quase inverno, estava quase chovendo e já era quase noite, quando ela resolveu sair assim mesmo com aqueles ventos fortes levantando folhas e arrastando a poeira das ruas. Foi até a casa do Zé e, paciente, esperou ele chegar do trabalho. Sentada na sala, ela guardava no meio das pernas uma caixa.
Quem é o colunista: Guilherme Gonzalez.
O que faz: ator e produtor, um dos fundadores da Cia Teatro de Janela.
Pecado gastronômico: Comida de mãe.
Melhor lugar do Brasil: Ilha do Marajó.
O que está ouvindo: Marina de la Riva.
Fale com ele: gonzalezguilherme@hotmail.com