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No meio das terapias convencionais em grupo, há uma nova técnica sendo difundida. A Constelação promete resultados imediatos para problemas específicos

Por Carolina Tavares



Foto: Getty Images
A garota tem depressão e as marcas no braço esquerdo denunciam as várias tentativas de suicídio. "Estou me sentindo mais leve e melhor", diz a menina de 21 anos, após experimentar a terapia. Mas não é apenas ela que se sente assim. Outros 12 "constelados" ficam da mesma forma. Constelação é o nome dado à terapia sistêmica familiar em grupo que busca ajudar pessoas a entenderem melhor seus problemas e destinos. No início, a terapeuta Theresa Spyra ouve a apresentação de cada participante, onde, de forma rápida, eles dizem o nome e o problema que possuem. Depressão, traição, tristeza e saudades são algumas das questões tratadas no local.

O que é terapia sistêmica?

Ela demonstra que o homem, desde que nasceu, está predisposto a apresentar determinadas características de personalidade. Elas determinam também como ele vai agir no decorrer de sua vida. Primeiro, ele sente as emoções, em seguida, racionaliza, e, por fim, age. O que importa não é saber o porquê de determinada emoção, e sim atuar nesses sentimentos de forma vivencial e prática, ativando conteúdos inconscientes e trazendo equilíbrio. Equilibrando o sistema, o indivíduo pode ir atrás de melhorias pessoais.



Foto: Carolina Tavares
Num segundo momento, Theresa escolhe o participante que ela sente estar mais preparado. Sentado ao lado da especialista, ele começa a relatar sua vida para o grupo. É importante que o paciente não julgue os fatos de sua história, relatando apenas questões concretas, como segredos, separações e mortes. Ele deve tratar a questão pessoal e não falar de terceiros. Manter o foco no objetivo que se quer alcançar é outra regra. Esse objetivo deve ser dito claramente e nunca a pessoa pode afirmar o que não quer, mas somente o que ela quer para a vida.

Feito isso, são escolhidos integrantes do grupo para realizarem uma espécie de encenação da história que foi contada e desenvolvê-la conforme aquilo que forem sentindo. A terapeuta guia a representação. De pé, cada selecionado faz um papel, como a mãe do paciente, o pai, os irmãos e até pessoas que já se foram. Assim, o representante recebe a energia da pessoa que não está ali e passa a sentir as emoções do outro (insights), como se ele fosse a própria pessoa.

O cliente vai observando toda a história de sua vida, sem dizer nada. No centro da sala, as pessoas riem, choram, pedem desculpas e desfazem intrigas, como uma novela. A terapeuta conduz o momento fazendo os personagens repetirem frases como "eu sou sua mãe e você é meu filho" ou "este é meu destino e eu devo assumir". Dessa forma, a pessoa compreende que cada coisa na vida dela tem um lugar certo e determinado, como um sistema.

Foto: Carolina Tavares


Com as mãos estendidas e agachamento das costas, o personagem reverencia as pessoas que representam a história ou o destino. Após tudo esclarecido, o paciente assume seu próprio papel na interpretação, passando a compreender medos e falhas. Assim, fecha-se o ciclo e cada participante dá um passo largo para sair da representação e voltar à sua vida. O grupo fica aberto a comentários, desde que não sejam julgamentos, mas o silêncio permanece algumas vezes, pois a história fala por si só, com começo, meio e um final feliz. Por ser apenas representante da pessoa real, não há riscos do participante ficar com as energias ruins do personagem. O que pode ocorrer é que ele tenha algum problema parecido e isso mexa internamente, mas jamais ele vai levar o sentimento do outro para casa.

Foto: Photocase.de
A comerciante Lourdes Ferreira, 45 anos, afirma que o processo ajuda. Ela já participou de outra terapia em grupo, onde cada pessoa escrevia no papel tudo o que estava sentindo e entregava à psicóloga. A diferença que ela aponta é o imediatismo da resposta na Constelação. "Fui atrás disso por causa do meu filho, que tinha umas atitudes que me incomodavam, e fiz três sessões. A diferença foi gritante em menos de um mês, mesmo sem ele saber que eu fui à sessão. Ele era muito tímido e retraído, mas, de repente, arrumou namorada e emprego. A outra terapia não era tão específica e, para pessoas ansiosas, a Constelação funciona muito bem porque tem objetivos claros", diz.

No mesmo grupo, encontra-se a psicanalista Dora Lickunas, 49 anos. Ela conheceu o procedimento em 2001 e acredita que, apesar da psicanálise ser um bom tratamento emocional, em alguns pontos da vida os pacientes recebem interferência da carga energética de outras pessoas. São esses aspectos mais profundos que a Constelação procura tratar.

Entenda a Constelação

História: os atuais trabalhos sobre constelação sistêmica estão sendo divulgados pelo psicoterapeuta alemão Bert Hellinger. O desenvolvimento da técnica recebeu influências de outras linhas terápicas como psicodrama (Jacob Moreno), escultura familiar (Virginia Satir) e gestalt-terapia (Fritz Pearls). O procedimento começou a ser aplicado em 1970, definindo suas características em meados dos anos 80. "Na Europa, ela é usada para trabalhar problemas empresariais, profissionais, de liderança, metas, relacionamento entre departamentos, nas escolas... Existem experiências realizadas na rede pública de ensino na Alemanha, com resultados animadores. Por isso, o meu foco não se limita ao trabalho terapêutico, mas também no desenvolvimento da constelação como consultoria", conta Theresa.

Como funciona: o cliente se sente confortável em determinados sentimentos e emoções. Os casos resolvidos não são verdades absolutas, mas, quando essas conclusões são experimentadas, aliviam e curam. Não há inspiração religiosa ou filosófica, o paciente apenas assume uma postura que harmoniza as emoções em conflito. Dentro da terapia familiar, por exemplo, busca-se incluir de volta alguém que foi esquecido dentro da família, como um ente falecido. Quando isso acontece, o amor volta a reger e as coisas melhoram. As sessões são bastante espaçadas, por haver efeito imediato.

Valor: existem duas formas de estar presente: pela participação e pela constelação. Quem participa, apenas ajuda nas representações e ouve as histórias, pagando cerca de R$30,00 por sessão. Já quem vai "constelar" e resolver seu problema específico paga, em média, R$150,00.



Outras terapias
Foto: Photocase.de


As terapias em grupo variam de acordo com o lugar e o problema que se quer trabalhar. A psicóloga e psicoterapeuta Olga Inês Tessari explica que, em geral, a pessoa opta pelo tratamento por causa do custo mais acessível em relação à terapia individual, custando, em média, R$100,00 para quatro sessões mensais. A pessoa chega a uma entrevista individual onde será definido o problema, de que forma seguirá o tratamento e as condições para se encaixar em determinado grupo. O paciente pode participar de grupos mistos, com dificuldades diferentes ou alguma específica, como pais que discutem a educação dos filhos, casais que falam sobre o relacionamento, ansiosos, depressivos, pessoas com medo de dirigir, baixa auto-estima, timidez e outros.

As terapias convencionais costumam acontecer uma vez por semana, para que haja um tempo onde possa ser "digerido" o que foi dito na sessão. O objetivo é mostrar para a pessoa que ela não é a única a ter aquele problema. Além disso, a troca de experiências entre os membros do grupo ajuda a superar as questões. Olga explica que é tão eficaz quanto a consulta individual e que o tempo de resolução pode ser menor por conta da interatividade e aprendizagem acelerada.

"Em muitos casos, é até melhor do que a terapia individual. Por ser em grupo, as pessoas têm a falsa idéia de que não serão ouvidas ou não terão espaço para poderem falar. Nos meus grupos, se não falam, é porque não querem ou aprenderam ouvindo o relato dos demais. A terapia proporciona a elevação da auto-estima, confiança e segurança, assim como a diminuição dos níveis de ansiedade. Afinal, os problemas emocionais costumam surgir a partir da baixa auto-estima", ressalta.

Colaboraram:
Grupo Nokomando
Olga Inês Tessari


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