Guia da Semana

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Apresentação da Voadora no Circo Voador

Pegue um bumbo, cornetas, clarinetas, caixas, pratos e trambone e dê os instrumentos para seus respectivos músicos. Se você colocá-los tocando em frente a uma loja, vai se lembrar daqueles vovozinhos tentando animar inauguração de farmácias. Se colocá-los todos enfardados, logo vai imaginar a parada de Sete de Setembro. Mas se eles tocarem um eclético repertório - do maxixe ao jazz, passando por afrobeats - e adicionar doses humor e jogos circenses, tem-se um arrastão em pleno carnaval carioca, como o que aconteceu em março deste ano, com mais de 25 mil pessoas curtindo a folia no Aterro do Flamengo. Esse foi o feito da Orquestra Voadora, que faz show no Estudio Emme, em São Paulo na sexta-feira 15, e no Clube Bola Preta, no Rio, no dia 22, e mostra a renovação da música instrumental.

O mar de pessoas no Aterro do Flamengo foi seguindo o grupo de 15 músicos, que conta com quatro trompetes, quatro trombones, duas caixas, duas alfaias, um sax barítono, uma tuba e um surdo. Estavam todos fantasiados e interagindo com palhaços, malabaristas e pernas-de-pau que reforçam a turma nas apresentações. Era carnaval, mas a sonoridade foi muito além das marchinhas. A multidão se esbaldou mesmo com as versões de Aquarius, do musical Hair; Expensive Shit, do africano Fela Kuti, e até Thriller, de Michael Jackson.



"Quando acabou o carnaval de 2008, a gente se virou e falou 'vamos continuar fazendo um som?'. Todos toparam, só que ninguém aguentava mais só executar marchinhas. Naturalmente, começamos a tocar funk, jazz ou qualquer outra música que saísse bem tocando juntos", comenta o trompetista Daniel Paiva.

Apenas um dos instrumentistas da Voadora conhecia e já havia tocado em bandas de fanfarras no exterior. Paiva completa: "Lá é um estilo que faz sucesso, tanto que os franceses da Octopus Jazz Band, que vão tocar com a gente no Rio, já rodaram o mundo".

"A razão da continuidade da Voadora para além dos dias de Momo é justamente porque entra de tudo, num repertório rumo ao infinito", brinca o percussionista Pedro Araújo. Mas, antes de sair para as ruas, as músicas são testadas em estúdio e os arranjos passam por um processo de intervenção coletiva. " Assim, as versões que caem no gosto dos músicos vão sendo naturalmente incorporadas".

O 'caos sonoro' traz também outro objetivo: o de quebrar concepções sobre a música instrumental. "Aqui no Brasil, o imaginário popular associa fanfarra estritamente a bandas marciais e conjuntos tradicionais, bem como a música instrumental é vista como 'difícil', excessivamente intelectual e algo que não dá para dançar. Creio que conseguimos ser palatáveis à maioria do público que não tem o hábito de ouvir musica instrumental justamente pela postura irreverente e positivamente caótica, além do ecletismo musical", define Araújo.

Atualizando a fanfarra

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Apresentação da Fama na Copa do Mundo de 2010

Concert band, brass band, fanfarra, marching band show - nomes variados para uma proposta só: dar evidência aos instrumentos de sopro acompanhados de uma forte base percussiva. "Numa orquestra, quem manda são as cordas, com total destaque para violinos, violas e violoncelos. Já na formação de uma banda sinfônica, o predomínio é das madeiras, como oboé, fagote e clarinete, acompanhados dos metais, - trompetes, tubas e cornetas. Juntos, esses instrumentos seguram a linha melódica e, devido a mobilidade, permitem que as bandas se apresentem e marchem por qualquer lugar, enquanto uma orquestra exige um recinto fechado", explica o maestro Rogério Brito, responsável pela Fama - Fanfarra Municipal de Atibaia -, reconhecidamente um das melhores bandas de fanfarra do mundo. O grupo principal desse município do interior de São Paulo abiscoitou o terceiro lugar na Copa do Mundo das fanfarras, realizada em 2010, na Holanda.

"Inicialmente, o termo fanfarra referia-se apenas ao grupo das cornetas dentro das bandas sinfônicas. Aqui e na Alemanha essa parte foi separada das bandas em geral, dando mais essa conformação de marcha militar, largamente difundido no período da ditadura", comenta Brito. Para ele, as fanfarras são a grande escola para a formação de músicos de orquestras. "Só na Osep (a Orquestra Sinfônica de São Paulo), quatro dos seis trompetistas iniciaram-se na música tocando em fanfarras escolares. Quem passa por essa experiência leva essa formação para o futuro, e entende que é possível sim viver de música", detalha o maestro.

Soldadinhos de chumbo

Muito antes de a Voadora arrastar multidões, um grupo de músicos paulistanos já arriscava esses passos. "Começamos em 1991, numa brincadeira feita no ônibus de excursão da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo. Os músicos gostaram do som que saiu e assim surgimos, uma formação paralela à Banda Sinfônica, ficando o nome de Banda Paralela", conta o flautista Alexandre Daloia.

Com quase 20 anos de estrada, a Paralela já passou por várias formações. "No início, dependíamos muito disponibilidade dos músicos, mas sempre buscamos sons variados e inusitados, com o sax barítono fazendo a linha do baixo, o sax alto dando a melodia da viola", explica Daloia. A atual formação tem sete instrumentistas: os dois saxes, trombone de vara, trompete, caixa com prato acoplado, bumbo e flautim. Nesse mês, eles se apresentarão em dois eventos gratuitos na grande São Paulo.

O repertório apresenta um leque de referências, de jazzs eternizados por Louis Armstrong, chorinhos de Pixinguinha, versões de temas de desenhos como Flinkstones e Josie e as Gatinhas, a hits da dance music. Com dois CDs gravados, a intenção é lançar o terceiro álbum, só compositores nacionais, ainda este ano.



Enquanto a anarquia é marca dos cariocas da Voadora, os paulistanos da Paralela investem no humor, trajando fardas idênticas a de bonequinhos de chumbo e de soldados franceses. "Nossa vestimenta é uma homenagem a essa história das fanfarras, mas com cada um vestido de um jeito, pois o objetivo é lúdico", reforça o flautista.

Eles alcançam facilmente esse resultado, e o maior indício é a fascinação dos pequenos nos shows, que ficam vidrados e acompanham as apresentações colados à boca de cena. "É muito legal esssa atração das crianças, pois elas interagem, como se fosse uma grande brincadeira. Claro que isso exige adaptações no nosso humor, mais sacana e escrachado quando em shows pagos e apresentações contratadas para o público adulto. Mas achamos essa troca com as crianças ótima, pois eles percebem justamente a inocência que se encontra nas bandinhas de interior e a força da música instrumental que procuramos realizar", completa Daloia, que concorda com o maestro Rogério Brito sobre o fascínio dessas sonoridades que independem da voz. "Qualquer que seja a formação, proposta ou estilo, a música instrumental te eleva, ela deixa você viajar. Essas formações ecléticas vão ao gosto do público e, quando se tem bons arranjos, esteja no coreto ou na casa de shows, o público vêm junto".

Em São Paulo
Orquestra Voadora e Os Opalas
Data: 15 de julho
Preço: De R$ 20 a R$ 33
Horário: Às 22h
Local: Estúdio Emme

Banda Paralela
Data: 24 de julho
Preço: Grátis
Horário: Às 15h
Endereço: Coreto Maestro Bilo, na Praça de Santana de Parnaíba - São Paulo

Data: 26 de julho, dentro da Semana da Arte de Mairiporã
Preço: Grátis
Endereço: Avenida Tabelião Passarella, 850 - Centro, Mairiporã - São Paulo

No Rio de Janeiro
Orquestra Voadora e Octopus Brass Band
Data: 22 de julho
Preço: R$ 20
Horário: Às 22h
Local: Bola Preta

Atualizado em 6 Set 2011.

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