Guia da Semana

50 anos da morte de Hemingway

Ernest Hemingway permanece uma celebridade no meio literário e fora dele mesmo meio século depois de morto

Foto: AFP

Ernest Hemingway com uma de suas esposas, Mary Welsh

No círculo literário, existe uma piada sobre escritores do século 20 que os divide em dois grupos: aqueles tentando escrever como Ernest Hemingway e aqueles tentando não escrever como ele. O comentário dá dimensão da representatividade do autor. Neste 2 de julho, completam-se 50 anos que "Papa Hemingway" tirou a própria vida com um tiro de fuzil de caça, aos 61 anos, deprimido por enfrentar problemas de hipertensão, diabetes e perda de memória que o impediam de continuar escrevendo.


Hemingway foi o primeiro escritor norte-americano a se tornar uma celebridade e, na época de sua morte, era popular tanto por sua persona quanto por seus livros. Muita coisa mudou, na literatura e no mundo, nesse período de meio século, mas seu estrelato continua inabalado.

Duvida? Então cite algum outro escritor que possua uma sociedade em sua homenagem (a Ernest Hemingway Foundation, que organiza conferências bienais para discutir seu legado), que seja tema de três filmes em produção (Hemingway & Gellhorn, filme para TV da HBO; Hemingway & Fuentes, com Anthony Hopkins no papel principal; e The World of Hemingway, uma produção italiana) e que ganhe, todo ano, um festival temático (o Hemingway Days), com direito até a um concurso de sósia que, em 2011, comemora a 31ª edição.


A obsessão pelo escritor extrapola as fronteiras dos Estados Unidos. Sua presença é especialmente forte em Havana, onde viveu por 21 anos. Hoje, a cidade cubana abriga um museu na casa em que ele morava, além de, apropriadamente, ter transformado seus bares favoritos em verdadeiros santuários de fotos e drinques. Já Paris, cidade que o tornou famoso, oferece passeios turísticos que são praticamente uma peregrinação por locais representativos de sua vida e obra, como o Marché Mouffetard, mercado de rua descrito no começo do livro Paris É Uma Festa, ou o apartamento em que morou com sua esposa Hadley, na rue du Cardinal-Lemoine.  


E por que todo esse culto em um mundo em que o que não faltam são celebridades? Porque Hemingway é seu principal e mais multifacetado personagem, cercado por lendas e mitos que lhe dão um apelo irresistível. O autor de textos lapidares era também um apaixonado por boxe e touradas, um pescador inveterado, um conquistador incorrigível, um militante desiludido e um polemista por natureza, que não fazia muita questão de separar vida e obra literária. Seu principal biógrafo, Carlos Baker, define o autor como um "mentiroso romântico para quem a linha entre fato e ficção era mais fina que um fio de cabelo, que inventava histórias como meio de vida e não via motivos para desligar o mecanismo quando escrevia cartas ou conversava com amigos e conhecidos".


Todas essas características são traduzidas em seus textos em linguagem simples, com precisão vocabular austera e descrições rigorosas. A composição final é uma leitura acessível, mas permeada de significado nos silêncios das entrelinhas, cuja profundidade está naquilo que não é propriamente dito. Com isso, Hemingway não apenas capturou o espírito do homem em crise com sua própria época, crise essa que se originou no início do século 20 e perdura até hoje, como também se tornou uma personificação dele.


Nessa mistura entre vida e literatura, a experiência lutando na Guerra Civil Espanhola ganhou as páginas de Por Quem Os Sinos Dobram; os anos em Cuba deram origem a O Velho e o Mar, e a vida em Paris com a chamada "geração perdida" de escritores foi contada no já mencionado Paris É Uma Festa. Isso para não citar os contos, onde ele se sai ainda melhor do que nos romances - seu poder de síntese era tão espetacular que, por conta de uma aposta, ele escreveu numa mesa de bar um conto em seis palavras: "À venda: sapatos de bebê, nunca usados" (no original: For sale: baby shoes, never used).


No discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Literatura em 1954, por sua "maestria na arte da narrativa (...) e pela influência que exerceu no estilo contemporâneo", Hemingway declarou que "um escritor deve escrever o que tem a dizer em vez de falar". Ele abraçou esse lema com tanta convicção que seus textos tornaram-se uma espécie de manifesto, refletindo e universalizando o espírito de seu tempo para além de seu contexto, em uma narrativa que se equilibra sem pestanejar entre crueza e delicadeza com irrevogável autenticidade. E isso explica por que muitas gerações de escritores irão continuar a encarar o dilema de ser ou não ser Ernest Hemingway.


Quem é a colunista: Tatiana Napoli.

O que faz: Jornalista, estudante de Letras e matadora de zumbis.

Pecado gastronômico: Pão, de todos os tipos, especialmente quando acaba de sair do forno.

Melhor lugar do mundo: Fica em um cantinho de Perdizes.

O que está ouvindo no carro, iPod, mp3: Varia de acordo com o humor e com o dia, mas geralmente Franz Ferdinand, Beatles, Elvis Presley, Dave Brubeck, Foo Fighters, Duke Ellington, Tiê e David Bowie.

Para falar com ela: tatiananapoli@gmail.com ou siga seu Facebook. 




 

Atualizado em 6 Set 2011.

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