Guia da Semana

A bela e imperfeita arte

Quem disse que padrão estético se aplica às artes? Quem define tais padrões? Nosso cérebro é o melhor juiz que há, ou seja: seis bilhões dele no mundo todo

Foto: Getty Images


Outro dia recebi um material de divulgação de uma nova guitarra da marca Gibson, conhecida mundialmente como uma das melhores fabricantes do mundo. O tema do material era a Gibson Robot, modelo que se afina, como se já viesse com o "contra-regras" embutido. As tarrachas se movem sozinhas e colocam as cordas no tom certo. Já a vi em ação e, sinceramente, pensei: "Essa guitarra é do demônio".

Longe de mim ser purista e defender aquela ideia de que a tecnologia acaba com o músico, que não há mais espaço para o talento. Bobagem. Isso apenas me faz refletir sobre como os bons músicos, hoje, precisam de cada vez mais criatividade e técnica para criar algo novo, diferente.

Você conhece o Duofel? Não? É um duo, composto pelos talentosíssimos violonistas Fernando Melo e Luiz Bueno. Em uma das apresentações que tive o prazer de assistir, presenciei uma cena que eu jamais imaginava ver: um dos dois, no meio da execução, desafina bruscamente a sexta corda (mais grave) do violão até tons muito graves e, com uma técnica de tapping (batendo com os dedos sobre o braço), torna a afiná-la suavemente até o ponto necessário, criando um único, contraditório e afinadíssimo efeito de desafinação.

Ok, o que tem o Duofel a ver com a "Gibson do demônio"? Tudo! A Robot surgiu da necessidade de estar com o instrumento sempre afinado, enquanto que o Duofel criou um número que mostra justamente o oposto. E o padrão estético entra aonde? A música não esta isenta de defeitos ou erros. A perfeição não leva a nada, especialmente em algo sensível como uma manifestação artística. Afinal, Wassily Kandinsky não se tornou o mestre dos rabiscos e sombreados, mas sim do abstracionismo. Onde entra o padrão de perfeição aí?

Seja na música, seja na pintura, a criatividade humana sempre pode influenciar positivamente. Pode ser criando um sol negro em óleo sobre tela, desafinando seu violão até um ponto irreconhecivelmente grave no meio da canção ou da forma que sua sensibilidade julgar adequado. Quem precisa de padrão estético quando se tem a psique humana e a criatividade?

A estética serve para qualificar, sistematizar e arquivar nossa história cultural. Mas jamais para dizer o que é bom, ruim, melhor ou pior. Pinte seu sol negro, desafine sua guitarra. Ou compre uma que tenha o "contra-regras" embutido, tanto faz. No entanto, faça um favor a si mesmo: ouça Duofel e quebre um pouco do preconceito contra música instrumental. E viva a desafinação!

Quem é o colunista: Countryboy louco por Michael Jackson. Umroqueiro apaixonado por Big Bands. Um bluesman que ouve Haydn eStrauss para dormir.

O que faz: Jornalista do Guia da Semana, compositor, violonista e cantor.

Pecado gastronômico: Chocolates, churrasco (feito por mim) e molhode alho caseiro da vó!

Melhor lugar do Brasil: Qualquer um que comporte a equação praia +violão + amigos.

O que ele ouve no carro, em casa e no IPod: Darius Hucker, Fito yFitipaldis, Django Reinhardt.

Fale com ele: rafagt@hotmail.com acesse o site da sua banda!

Atualizado em 6 Set 2011.

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