Guia da Semana

Foto: Marcia Ramalho

Bruno Garcia e Maria Padilha vivem na peça José Fachada e Rosália

A fofoca toma conta do Teatro Raul Cortez, em São Paulo. Cercado de falcatruas, armações, jogos de interesse e, claro, muita falação da vida alheia, o texto clássico do dramaturgo irlandês Richard Sheridan (1751-1815), A Escola do Escândalo, chega a capital paulista após uma bem-sucedida temporada no Rio de Janeiro, e ganha ares brazucas nas mãos do ator e diretor Miguel Falabella.

Entre os vestidos bufantes, perucas e toda a pompa da corte do século 18 a primeira montagem nacional do espetáculo mescla a crítica a uma sociedade que se alimenta de notícias pecaminosas a uma sátira que arranca risos da plateia e reúne no palco nomes conhecidos como Tonico Pereira, Bruno Garcia e Maria Padilha, além das participações de Cristina Mutarelli e Jacqueline Laurence.

Diz que me diz

A adaptação reduz para três os cinco atos do original e condensa em dez atores - a montagem original abriga 23 profissionais. A peça não abre mão, porém, de prólogo e epílogo, momentos no qual os atores falam diretamente a plateia. O enredo gira em torno da tradicional família Fachada e o comendador Pedro Atiça (Tonico Pereira), casado com a ex-camponesa Rosália (Maria Padilha). Encantada com a futilidade da alta sociedade, ela se envolve com um dos irmãos da tradicional linhagem Fachada, o conquistador José (Bruno Garcia), também interessado na sobrinha do comendador, Maria (Bianca Comparato), que vive uma relação com o outro irmão Carlos Fachada (Armando Babaioff).

Com o auxílio de Benferina (Rita Elmôr) e Benjamin Mordessopra (Marcelo Escorel), José se empenha em arruinar a reputação do irmão e conta com a língua afiada da fofoqueira Dona Cândida (Jacqueline Laurence). Em meio a diversas reviravoltas, a história ganha novos rumos com a chegada de Dona Olívia (Cristina Mutarelli), tia que sustenta os sobrinhos fanfarrões.

Foto: Marcia Ramalho

Tonico Pereira é o comendador Pedro Atiça e substitui Ney Latorraca, que interpretou o papel na temporada carioca

Atemporal

Inspirada nas comédias da fase áurea do teatro inglês, a obra foi escrita em 1777 e leva ao tablado a hipocrisia de uma sociedade movida pelas aparências. Diante de notícias falsas, que em pouco tempo ganhavam o boca a boca da cidade e estampavam as capas dos famosos tablóides sensacionalistas da corte, qualquer semelhança com o presente é mera coincidência.

De acordo com Maria Padilha, o texto é completamente moderno, mesmo tendo sido escrito a mais de 200 anos. "Estamos vivendo um período de culto às celebridades, revistas de fofocas, as pessoas expõem as suas vidas na Internet. Isso faz da peça algo muito atual. Os personagens têm muito dessa coisa do fútil, do vazio", afirma.

Na opinião de outro protagonista, o ator Tonico Pereira, a essência da comédia é a crítica. "Você ri porque critica, porque viu uma sacanagem. Isso vai ao encontro do politicamente correto, que é tão falado hoje em dia. Se isso for seguido ninguém faz mais comédia. Hoje em dia não se pode brincar com nada e a brincadeira é o bom da vida", complementa.

Parceria certa

Em apenas dois meses de ensaio, já que Falabella comandou os ensaios paralelamente às apresentações da peça A Gaiola das Loucas, também em São Paulo, segundo Maria Padilha, o enredo já fazia parte do cotidiano de todos presentes da produção e isso facilitou o processo de criação. "Os ensaios foram divertidos. O Miguel é sério, focado, mas há muita descontração. Nós nos deparávamos fazendo um pouco do que é a peça. Sempre falamos dos outros. E percebemos que o texto não é tão distante da gente", comenta.

Foto: Marcia Ramalho

O texto é um comédia em forma de crítica e ressalta o interesse do ser humano em saber sobre a vida alheia

O interesse de Maria Padilha diante do texto partiu também da vontade de trabalhar ao lado de Miguel Falabella no teatro. A atriz confessa que não ensaiou muito para dar vida a Rosália e que buscou dentro de si a personagem. "O Miguel fala desse texto desde que nos conhecemos. Há cerca de dois anos procuramos algo para fazermos juntos. Ele já havia traduzido e tinha tudo pronto. A adaptação dele é uma coisa muito brasileira. Não soa como clássico. Ele foi fiel ao texto com amor e não academicamente. Acho maravilhoso e queria muito fazer uma peça com ele", comenta.

Tonico Pereira foi convidado por Miguel para viver o comendador Pedro Atiça no lugar de Ney Latorraca, que deu vida ao personagem na temporada carioca. Sem ter tido contato com o texto anteriormente, Tonico afirma que viu o espetáculo com Ney, mas que seu personagem é completamente diferente. "A preparação ainda está em execução. Peguei o personagem há 15 dias e não ensaiei o suficiente".

Segundo ele, a peça é totalmente direcionada à plateia e ele faz questão de aproximar o espectador do palco. "Incrementei alguma piadas e nem sei se o Miguel vai gostar. Ele tem uma visão popular de um patamar de cima. Eu tenho uma visão popular de baixo. Socialmente falando, meu andar antropológico é mais simples. O Miguel é um lorde (risos) e o meu lado é outro. Mas a gente se encontra em algum lugar nesse caminho", brinca.

Serviço:
Local: Teatro Raul Cortez
Preço: R$ 80,00.
Data: Até 18 de setembro de 2011.
Horário: Sexta, 21h30; sábado, 21h; domingo, 18h.

Atualizado em 12 Set 2011.