Guia da Semana

A grande cilada anunciada!

Ao invés de um Diálogo, foi um Monólogo Cultural...é possível?

Foto: Sxc.hu

Em novembro, recebi o convite de uma amiga produtora, que foi chamada pelo Ministério da Cultura, para um "Diálogo Cultural". Inicialmente, achei tudo ótimo e topei logo de cara. Cancelei todos os compromissos que tinha e me encontrei com duas produtoras, para irmos.

Até entrar no carro, eu não sabia que se tratava de um encontro da classe artística de São Paulo com o Senhor Juca Ferreira, Ministro da Cultura. Pareceu-me um pouco chato a partir daí, mas não tinha como fugir. Pensei, então, que poderia ser interessante ir ao encontro do Ministro afinal, sou ator e produtor e me sinto na obrigação de estar interado no que está rolando no meio artístico e cultural.

No caminho, as meninas, me colocaram a par do que seria a discussão: "Reforma da Lei Rouanet".

Não tem um som bom?

Leiam em alto e bom som: Reforma da Lei Rouanet.

Chegamos ao Teatro da Universidade Católica de São Paulo, o TUCA. Produtores e rostos conhecidos da mídia estavam presentes. Tinha um grupinho de gente bonita, com umas caras de "Perda Total". Dava pra perceber que eram contratados para aplaudir qualquer coisa que tivesse em um discurso político populista.

Uma espécie de recepção foi preparada antes da entrada para o teatro, onde pessoas de preto nos esperavam. Você dava o seu nome (podia ser qualquer nome - se quisesse me chamar Hebe, poderia) e o pessoal de "luto" te dava um livro, cujo nome era Plano Nacional de Cultura. Ainda não aprendi a ler um livro de cem páginas em menos de 20 minutos. Livro de capa dura, impressão colorida, linguagem unicamente política e muitos gráficos. Papel reciclado, porque imaginam que seja mais cult e não ecologicamente correto.

Para quem não conhece a lei Rouanet, vou explicar na linguagem do dia-a-dia mesmo. Funciona da seguinte forma: uma empresa que paga imposto, ao invés de dar para Imposto de Renda, passa parte do dinheiro para uma produção cultural. Uso da logomarca da empresa que patrocinou, ingressos entre outras coisas em contrapartida. Tudo isso, depois que um produtor montou um projeto, dentro da lei, que passa por umas 50 mãos no Ministério da Cultura (MinC) e demora no mínimo seis meses para ser aprovado.

As propostas para a Reforma da Lei Rouanet, que durou das 15h às 18h (com dois telões no palco, passando fotos bonitas, escrito "Diálogo Cultural"), são:

- Reorganização do Fundo Nacional de Cultura. (os empresários passam o dinheiro para o governo administrar para ter uma melhor distribuição).

- O atual governo acha injusto as regiões Sudeste e Sul gerarem e receberem maior incentivo cultural do que as regiões Norte e Nordeste.Um detalhe importante: no mapa do Ministério não existe a região Centro-Oeste. Em nenhum momento essa região foi citada.

- Criação do "Vale-Cultura": lembra um pouco o "Bolsa-Família", apesar de achar ótima a idéia da popularização cultural, desde que não deixem o trabalhador sem comer, para comprar um livro, ir ao teatro ou coisa do tipo.

- Valorização da diversidade cultural. O senhor Juca Ferreira exemplificou: ele esteve em um sítio arqueológico no interior do Piauí, mas o trabalho estava parado, não tendo apoio de nenhuma empresa. Sítio arqueológico é da competência do estudo histórico, é um braço do Ministério da Educação que já conhecemos.

- Criação de uma Loteria Cultural. Algo curioso, é que uma amiga me disse que o prêmio de qualquer loteria é apenas 5% do valor arrecadado. A Loteria Cultural foi uma coisa que o Estado de São Paulo já tentou fazer na gestão de Geraldo Alckmin, mas o governo Federal sumiu com ela. Aliás, por que não reabrem os Bingos do Brasil em prol a Cultura? Porque loteria federal e bingo, para mim, é praticamente a mesma coisa. Afinal, jogo é jogo.

Entre outros pontos, porque estava cochilando e não me lembro.

Outra coisa, que me incomodou ao longo discurso, é que foi dito "dinheiro público", como se fosse dele (ministro). O que o nosso governo ainda não entendeu é que esse dinheiro é do povo. É meu, é teu, é da faxineira, do pedreiro etc. O Estado apenas teria que administrar bem e prestar contas para todos. Por exemplo, alguém aqui lembra do famoso CPMF? Na teoria era para ser um imposto revertido para a saúde, administrado pelo Estado. Olhem a situação dos hospitais públicos. Onde é que foi colocado o nosso dinheiro?

Voltando à entrada do teatro: muitos sorrisos para os jornalistas que faziam perguntas ao ministro. Quando percebo, minha amiga estava se atirando no meio dos jornalistas e bombardeando o ministro com perguntas. Confesso que só ouvi a última e acompanhei a resposta:

Produtora: "Sr. Juca, nós produtores de São Paulo talvez estejamos receosos apenas em como este dinheiro irá para um fundo, será administrado e repassado. É um conselho? Quem serão os responsáveis? Este é o nosso receio, sr Juca".

Ele deu uma olhada meio que fulminante (se olhar batesse, minha amiga estaria de olhos roxos) e respondeu: "Isso é fantasioso. Por exemplo, meu filho só dorme de luz acesa. Apenas depois que ele dorme é que se pode apagar a luz".

Nesse momento sai para não gargalhar. Entramos e fomos para a platéia. Sei que não se pode apenas destituir uma Lei, então reformamos.

Uma coisa: quando me convidaram para um diálogo, eu também tenho o direto de falar. Não me consultaram se podiam comprar cafezinho e bolachinha, nem fazer um livro colorido de cem páginas, contratar seguranças e motoristas, com o meu dinheiro. Perguntaram para vocês? Também não me questionaram se estou de acordo com as mudanças, porque foi, na verdade, um "Monólogo Cultural".

Me poupem, meus caros engravatados, a coisa toda está pronta tem muito tempo.

Minha Mansão

Gostaria de falar da MANSÃO onde vivo. Há uns seis anos, mudamos o Mordomo, uma pessoa muito humilde e que tinha uma visão de vida única. Por costume, de quatro em quatro anos, mudamos esse Mordomo, mas dessa vez vai ficar oito anos. (graças a Deus só faltam dois).

Nessa mansão, há um quarto central, muito escuro e perigoso, cheio de gente que aceita propina, com dólar na cueca, entre outras coisas. Mas o Mordomo - mesmo ficando nesse quarto central escuro - nunca sabe de nada. Hoje, viaja muito para o exterior e adora coisas da Broadway.

Eu fico em um dos quartos da ala sudeste, claro e arejado. Lugar rico, bonito e que produz muitas coisas. Digamos que, no meu quarto, tudo anda sozinho. Ouço falar do quarto central escuro e tenho medo dele, porque é fato que as pessoas que habitam ali não são confiáveis. Estou falando de caráter, de personalidade. Onde vivo, somos solidários e, há tempo, ajudamos os moradores dos quartos de outras alas. Um dia, anunciaram uma visita ao quarto sudeste, de um dos arautos do Mordomo. Ele chega e de cara fecha as cortinas, de uma forma "republicana" e "democrata". Nos convida a ouví-lo, mas não quer saber a nossa opinião. Pensei que isso seria uma cilada! Então, mesmo com muito medo do escuro e antes mesmo que ele o faça, gritei:

"Senhor arauto do Mordomo, por favor, NÃO APAGA ESSA LUZ!"

Leia a coluna anterior de Fredericco Baggio:

? Ser artista em Sampa Crise



Quem é o colunista: Fredericco Baggio.

O que faz: Ator e Produtor

Pecado gastronômico: Tudo que tenha café.

Melhor lugar do Brasil: São Paulo e suas noites sempre perfeitas.

Fale com ele: fredericco.baggio@gmail.com


Atualizado em 6 Set 2011.

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