Guia da Semana

A indústria do Technobrega

Aliados ao comércio informal, músicos paraenses fazem a vida com hits criados no fundo do quintal

Discos do Technobrega invadem os camelôs do Pará e chegam
até Suriname
Foto: www.bregapop.com

"Não brinque mais com os meus sentimentos. Meu coração sofre de amor. Dia e noite eu penso em você. Mas você não está nem aí". Tais versos, que mais parecem trechos retirados de um ingênuo diário adolescente ou mesmo de um livro de poesias baratas, chegam a enlouquecer, em apenas um show, mais de 10 mil pessoas, e servem, principalmente, como fonte de sustento para alguns músicos do norte do país. Essas frases que integram o hit Sofro de Amor, do grupo AR-15, causam burburinho no Pará, Amapá, Maranhão e até na Guiana Francesa. Representante do Technobrega, a famosa melodia prova que o tal estilo criado em Belém está diretamente aliado à pirataria, alheio às estratégias tradicionais utilizadas pelas grandes gravadoras e encontra nos camelôs o ponto de maior disseminação.

Uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas, entre agosto e novembro de 2006, prova que ao contrário da indústria fonográfica, o Technobrega não encara a pirataria como inimiga, e sim como parceira. Dos artistas do ritmo paraense, 88% nunca tiveram contato com gravadoras. E 59% avaliam que o trabalho dos ambulantes tem influência positiva em suas carreiras.

Banda AR-15 é uma das protagonistas do Technobrega
Foto: Divulgação

Parecido com as batidas do grupo baiano Olodum, misturadas ao som do Calypso e da música eletrônica, o Tecnobrega é a ritmo mais ouvido no Pará. Em Belém, esse mercado é formado por mais de 70 bandas; 273 aparelhagens (equipes de som que realizam as festas de tecnobrega); e 259 vendedores de CDs e DVDs que trabalham nas ruas da cidade.

Harrisson Lemos, vocalista e empresário da banda AR-15, uma das mais famosas da região, revela que a produção de todo o material é independente. As bandas gravam de um a quatro hits em estúdio, normalmente caseiro. Em seguida, mandam as melodias para rádios locais e aparelhagens. Os camelôs reúnem as músicas de maior sucesso em um CD e vendem nas ruas. O disco é comercializado por R$ 3,00 ou R$ 4,00. "Este é mais ou menos o esquema para produzir os nossos sucessos", declara o músico. Mas, os discípulos de Harrisson faturam mesmo com os shows. "Este processo de venda informal ajuda na nossa divulgação", diz o integrante.

O negócio de Lemos deu certo. Criada em outubro de 2006, a AR-15 (foto abaixo) foi recentemente contratada para fazer shows no Amapá, no Maranhão e no Suriname. "Recebemos também propostas para tocar em São Paulo", solta o empresário. O conjunto - formado ainda por Rebeca (vocal), Luiz Cláudio (DJ), Evandro (teclado), Lennon Lemos (guitarra) e mais quatro bailarinos - tem apenas um CD ( AR-15 Disparando o sucesso Volume 1) e um DVD lançados, mas já prepara o segundo. "Em breve ele estará nas banquinhas", promete o artista. (Ouça aqui alguns hits do grupo)

Foto: Divulgação

O Tecnobrega apareceu em 2002, quando alguns artistas adicionaram batidas eletrônicas ao brega, gênero musical popular no Pará. "O ritmo é uma evolução das melodias do Calypso", explica José Roberto Costa, responsável pelo site Brega Pop ( www.bregapop.com). O endereço disponibiliza os maiores destaques do estilo, além de contar um pouco da história do movimento. "Criei esta página por passatempo e acabou dando certo. Hoje, recebo uma grana com anunciantes e algumas bandas pagam mensalidade por estarem lá", detalha o microempresário.

Para muitos especialistas, a origem do novo estilo paraense é remota e tem forte influência da Jovem Guarda, programa musical liderado por Roberto Carlos nas décadas de 60 e 70. O novato gênero também se inspira no brega que floresceu primeiro em Goiás com Amado Batista, depois foi para Pernambuco com Reginaldo Rossi, e acabou no Pará. Atualmente, em Belém, são lançados a cada ano mais de dois mil discos.

Foto: Divulgação

Apesar do pouco tempo de vida, o ritmo já tem até algumas ramificações. "Uma delas é a chamada Melody, com características do technobrega só que mais lenta, para dançar a dois", conta José Roberto Costa. Além da AR-15 (acima), os grupos Tecno Show, Tupinambá, Companhia do Tecno e o DJ Maluquinho são outros destaques.

O tal movimento de Belém do Pará mostra a vitalidade de uma economia paralela brasileira, uma nova indústria alternativa, feita por pessoas de baixa renda. Para se ter uma idéia até mesmo as roupas que os dançarinos usam são compradas em camelôs que se abastecem em feiras nordestinas. Um negócio arriscado, mas que para aquele povo parece ser lucrativo. É o jeitinho brasileiro em ação.

Brega paraense e sua ramificações
? Brega: ritmo paraense originário do calipso americano, identificado com a dança, também chamada de brega.

? Calipso: versão regionalizada da música americana com a liberação das guitarras e influência do som do Caribe.

? Brega Rasgado: É o brega das batidas mais fortes.

? Brega Pop: ritmo de batidas mais suaves, um brega mais romântico.

? Brega Dance: estilo baseado nas músicas dance dos anos 80.

? Brega Sarro: brega feito com humor.

? Melody: É o brega com a batida romântica, pra se dançar mais agarrado.

? Tecnno Reggae: É o reggae com batidas do Brega.

? Brega Hard Core: mistura de surf music, com guitarra distorcida mais contrabaixo de brega.

(*) Fonte site www.bregapop.com

Atualizado em 6 Set 2011.

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