Guia da Semana

A linha evolutiva do Hurtmold

Com quase doze anos de banda, o sexteto paulistano agrega referências e instrumentos variados para compor o seu laboratório de experimento musical


Foto: Diego Dacax

Em um espaço com cerca de vinte metros quadrados, seis caras tomam cerveja, comem amendoim japonês e falam de coisas diversas até a música passar a predominar no assunto. Daí a coisa fica mais séria, as opiniões começam a vir à tona e as vozes a se sobreporem. Desde as dimensões do cenário descrito até o tom do papo em si, tudo é parecido com um boteco. Mas não se trata disso. O local em questão é o camarim do MIS (Museu da Imagem e Som) de São Paulo e os caras, os integrantes do Hurtmold, que tocariam por lá cerca de uma hora depois.

Sem um líder, porta-voz ou qualquer outra figura do tipo, o grupo paulistano se espreme no backstage para falar um pouco de sua história e de coisas que dizem respeito à música que fazem. Assim como no palco, na hora da entrevista não há um frontman, todos falam. E esse comportamento também está presente na hora da criação. As composições do Hurtmold são coletivas. "Não tem um cara que chega com um som e fala 'essa música é pra ser assim'. A gente constrói tudo junto", explica o guitarrista Mario Cappi.

Ainda no ensino médio, que à época era colegial, ele conheceu Guilherme Granado (teclado, vibrafone e eletrônicos) e Marcos Gerez (baixo). Os três resolveram montar uma banda e foram atrás de um estúdio para os ensaios. Durante a busca, se depararam com o El Rocha, do pai do baterista e trompetista Maurício Takara. Foi lá que eles se conheceram. "Vimos que os caras estavam na mesma pegada que a gente, fazendo um som que tinha a ver com o que a gente buscava", lembra Mario. Pode-se dizer que o Hurtmold é um desdobramento desse encontro. À exceção de Roger Martins, que entrou na banda em 2003, Guilherme, Marcos, Maurício e os irmãos Mario e Fernando Cappi estão juntos desde 1998.

O Som

Nessa época, punk e hardcore estavam entre os sons mais escutados por eles. Fugazi é uma banda que sempre foi referência para os caras. E isso fica mais evidente nos primeiros álbuns. Em 3 am: A Fonte Secou..., lançado em 1999 apenas em fita K7, e E.T. Cetera, que saiu um ano depois em CD, essas influências ficam mais explícitas. Nessa segunda obra, no entanto, o baixo e a bateria já se destacavam mais, sinalizando de certa forma o que viria pela frente.


Foto: Diego Dacax

Para quem escuta um desses álbuns e pula direto para o Mestro (2004) ou para o disco homônimo lançado em 2007, que, ao contrário dos anteriores, quase não têm vocais, pode ficar a impressão de que houve uma mudança radical. Uma audição mais atenta, porém, revela um caminho evolutivo constante e coerente. Não há uma mudança tão brusca quanto pode parecer num primeiro momento. É como se cada disco fosse prenunciado pelo seu antecessor.

As composições do grupo vêm se complexificando e dando mais destaque aos instrumentos percussivos, que, paradoxalmente, remetem aos sons mais primitivos e aparentemente mais simples da história da música. "Pode não parecer, mas os instrumentos de percussão são altamente sofisticados", pondera Guilherme Granado. "Essas mudanças no som da banda são reflexos das mudanças nas nossas vidas. A gente vai crescendo e é natural que nos tornemos mais complexos", reflete.

As transformações na sonoridade do Hurtmold também têm a ver com a entrada de Roger na banda. Com ele, as possibilidades se ampliaram. "A gente sempre quis incluir instrumentos de famílias diferentes no nosso som. O Roger entrou pra tocar clarinete e como ele também tocava percussão, esses elementos foram sendo agregados à banda naturalmente", conta Maurício.

A cada álbum fica mais difícil definir o som do Hurtmold e estabelecer parâmetros comparativos para tanto. É impossível enquadrá-lo em um gênero musical pronto. O avant-gard jazz é uma das referências que transparecem em suas composições mais recentes. Mas o sexteto não faz jazz. Pode-se dizer que o Hurtmold é uma banda que parte de uma base rock para experimentar outras possibilidades musicais. Pós-rock é um rótulo muitas vezes utilizado para classificar artistas que, como o grupo, fazem música instrumental tendo como base guitarra, baixo e bateria - elementos típicos do rock. Essa classificação, no entanto, não os agrada. "Ela não quer dizer nada, é muito genérica, vazia. Ainda mais se a gente levar em conta que ela serve para enquadrar da mesma forma bandas como Mogwai e Tortoise, que fazem um som totalmente diferente", critica Guilherme.

O Tempo

Esse processo evolutivo, que vem tornando a banda mais complexa, também é impulsionado pelas pesquisas e pelos projetos paralelos de cada integrante. Os mais conhecidos são o São Paulo Underground, do qual Guilherme e Maurício participam, e o m. Takara, projeto solo deste último. Além deles, Fernando Cappi responde pelo Chankaz, Guilherme toca o Bodes & Elefantes e Mario o MDM, que em breve lançará o seu primeiro álbum.


Foto: Diego Dacax

Em 2008, o sexteto foi convidado por Marcelo Camelo (Los Hermanos) para gravar algumas faixas e ser sua banda de apoio nas apresentações de Sou, seu trabalho solo. Com isso, fizeram turnês pelo Brasil e por Portugal e ficaram conhecidos por um público diferente. Os reflexos dessa parceria podem ser vistos no aumento do número de acessos ao My Space da banda.

Nesses quase doze anos de estrada, o Hurtmold já tocou em alguns países mundo afora e dividiu o palco com artistas que lhe são referência. Entre eles, nomes como Paulo Santos, do UAKTI, o músico suíço Thomas Rohrer e o estadunidense Rob Mazurek - tido como um divisor de águas na história da banda.

Atualmente, o grupo está trabalhando em cima de seu novo álbum, que ainda não tem previsão de lançamento. "Hoje em dia, a gente demora bem mais para compor. Não que seja mais lento, é o nosso tempo", avalia Maurício. "O filtro para não se repetir vai ficando mais complexo com os anos de banda e isso também vai deixando o processo mais devagar", revela Mario.

O cuidado com a preparação de um álbum, com tudo o que esse conceito implica, é algo que vem da forma como os músicos do sexteto começaram a ouvir música. Para eles, um disco vai muito além de suas faixas - a ficha técnica e os agradecimentos dos encartes, por exemplo, serviam como referência para que conhecessem novos artistas. A banda prefere o LP ao MP3. "Se pudesse, a gente lançaria toda a nossa discografia em vinil, mas isso é muito difícil hoje em dia", lamenta Guilherme.

Sem pressão externa, o sexteto tem liberdade total para gravar e produzir de acordo com o seu ritmo e os seus pressupostos. No show do MIS, três músicas novas foram apresentadas ao público. Elas não deixam dúvidas: o Hurtmold é um dos grupos mais consistentes e autênticos em atividade por estas bandas. E seu filtro antirrepetição está em perfeito estado.

Atualizado em 6 Set 2011.

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