Guia da Semana

A metamorfose de Otto

Depois de anos em produção e com três álbuns no currículo, o cantor pernambucano entra para o cenário independente e comenta como enxerga hoje sua carreira

O palco se abre após uma homenagem feita ao bispo Don Hélder Câmara e logo as luzes coloridas se embaralham. Um único holofote ressalta o sujeito barbudo de cabelos claros e encaracolados que arrisca passos desconexos e abre sua apresentação com uma frase marcante: "aqui é festa amor, e há tristeza em minha vida". Dessa forma, Otto sobe pela primeira vez no palco do Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, para apresentar o show de seu mais recente trabalho Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos.

Após três anos de produção do seu 4º álbum, recheado de letras profundas e sentimentos subentendidos em frases de efeito, o cantor contou com participações especiais, como a cantora Céu, a mexicana Julieta Venegas e o ex-vocalista do Cordel do Fogo Encantado, Lirinha. Depois de uma fase conturbada em sua vida, o músico surge como das cinzas para o cenário popular, dessa vez na linha independente e vê hoje o resultado de seu trabalho no coro do público em seus shows.

Em um bate papo, o polêmico Otto comenta sobre a produção de seu último CD, de onde tira inspiração para compor suas letras e dá sua opinião sobre o cenário atual da música brasileira. Confira!

Guia da Semana: Como sente a aceitação do público com seu novo álbum?
Otto: Eu e o público temos uma relação muito forte com as minhas músicas. A minha reação é de muito orgulho. Ser um cara que eles gostam e que devem discutir muito em mesa de bar. Eu recebo muita coisa pela música. E isso só cresce. Mas levou um tempo de trabalho, 4 discos e esse último teve uma aceitação muito boa. As pessoas estão muito comovidas com ele e esse era o objetivo, ser entendido e espelhar alguma coisa.

Guia da Semana: O que trouxe de novo para seu som nesse novo nesse trabalho?
Otto: Um sempre puxa o outro. O que faz com que eu viva e trabalhe é meu público e minha banda. Não coloquei nada de novo, o principal mesmo é o som, o mundo, minha consciência, preciso dessas coisas. Nunca mudei muito. Por eu não ser uma pessoa totalmente explorada, por não ter levado meu peso, minha música a grandes públicos, tenho uma coisa de sempre ser novo. O trabalho, o tempo, maturam e eu venho maturando muito.

Guia da Semana: E o que isso mudou na sua carreira?
Otto: Sou independente, mas ao mesmo tempo se eu andar no Leblon sou fotografado. É muito louco isso (risos). Sempre soube que eu tenho um caminho, uma música. Sei me levantar, correr. Me acho hoje mais interessante que antes. Por isso também fiquei no independente. E com a repercussão que estou tendo nem parece independente. Mas a internet ajuda muito nessa hora. É uma velocidade absurda. Não tenho Orkut, MySpace, nada disso e o disco foi indo.

Foto: Diego Dacax



Guia da Semana: É possível perceber que as letras desse álbum estão muito fortes e expressam grandes doses de sentimento. Elas têm a ver com uma nova fase da sua vida?
Otto: Tem a ver com a minha necessidade profunda de renovação, mudança. Onde eu estava não poderia ficar. Fui largando e só me restou a música e o sentimento. Elas vieram pintando do nada. É um disco psicodélico.Não há artista que não precise agir e eu mexi com todos os sentimentos. Era um período em que não tinha o que fazer, para onde ir, só tinha meu trabalho. Tive uma motivação de gigante, olhei para frente e quis ir até o fim. E por ser independente, às vezes, deixava o disco parado e viajava depois retomava.

Guia da Semana: Como mixar música eletrônica em ritmos tão nacionais, como o maracatu e o samba?
Otto: Eu deixo as coisas fluírem muito livres. Quando vejo uma coisa, surge uma letra eu já começo a cantarolar. Quando chego ao estúdio já faço a batida. O processo mais rápido que eu faço é uma música. Já chego com ela montada e eles - a banda - me completam. Nunca disse um não para meus músicos; existem coisas que ajudam a encontrar o caminho melhor. Ser pai me ajudou nisso também. É um caminho muito sem volta, a poesia vem daí. Muda seu conceito de mundo.   

Guia da Semana: Como foi a escolha das participações especiais de Julieta venegas, Céu e Lirinha?
Otto: Conheci a Julieta Venegas enquanto fazia uma trilha de cinema. Pedi para ela cantar Saudade do meu CD e ela disse que ia dormir e compor alguma coisa, eu concordei. No outro dia veio com uma poesia maravilhosa, que gravamos e em seguida cantou comigo Lágrimas Negras, em português. A Céu, cheguei à casa de um amigo em comum para gravar O Leite e ela estava lá. Estava afobado porque havia marcado o estúdio, atrasei e chamei ela para cantar. Ficou demais, ela é sensacional e tem uma colocação musical muito boa. Já o Lirinha é um conterrâneo, poeta nascido no berço da cultura nordestina. Ele trouxe uma poesia, pedimos para ele sussurrar sobre uma batida eletrônica e ficou bem legal na música Meu Mundo.

Guia da Semana: Pretende gravar um DVD disso tudo?
Otto: Quero muito. Estou burilando umas coisas bem espaciais. Mas eu sou meio desleixado para isso. A vontade que eu tenho é de mostrar como tudo foi feito, a preparação, como as coisas acontecem.

Foto: Diego Dacax


Guia da Semana: Como estão os preparativos para a nova turnê?
Otto: Comecei a rodar há pouco tempo com esse show. Passei pelo Circo Voador lotado, toquei no Carnaval do Recife e agora encarei o Ibirapuera em São Paulo. Ele sempre esteve na minha mente, sempre quis passar por lá e já sabia que existia uma galera grande para ver, fiquei muito feliz. Eu moro no Rio, mas São Paulo talvez seja meu bloco, são onde estão as pessoas que mais prestaram atenção em mim, do meu começo até hoje. Fico muito honrado disso. Eu preciso mostrar meu disco e vou indo. Quero levar para o Brasil todo.

Guia da Semana: Como você avalia a questão das músicas serem veiculadas na internet antes do CD ser laçando? Acha que isso prejudica o artista?
Otto: Sempre falei que Deus é digital, só pode. Acredito que tudo que acompanhe muita gente, tipo religião, futebol, tem Deus no meio. Não existe um parâmetro, a internet é uma coisa que todos precisam lidar. Primeiramente aceitando as pessoas se expressarem e fazer o mesmo. Hoje em dia as crianças são outras, nós estamos atrasados. Essa entrevista, por exemplo, pode correr para qualquer lugar do mundo e eu encontro a hora que eu quiser e esse poder é muito importante. Não vejo a internet como venda, vejo como uma coisa livre, grátis que é a minha salvação.

Guia da Semana: Acha que de certa forma a internet pode prejudicar?
Otto: Ninguém estoura por acaso. Mallu Magalhães, por exemplo, é uma coisa assim. Ela vai ter de provar muito no palco o carisma que ela tem e aproveitar bem. Aí estão as escolhas da vida. Se ela souber aproveitar bem o público, vai se dar bem. Ela se juntou bem pelo menos, está com um cara legal, maduro, o Marcelo Camello, então se for depender disso ela vai se dar bem.

Confira o restante da entrevista com Otto!

Atualizado em 6 Set 2011.

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