Guia da Semana

A sombra do Joy Division

Como a banda de Ian Curtis descolou-se do punk e mudou a face do rock nas últimas três décadas, influenciando de The Cure a Franz Ferdinand

Em outubro de 2003, o cantor Elliott Smith foi encontrado morto no banheiro de seu apartamento, em Los Angeles. Quase duas décadas e meia antes, em Manchester, cidade industrial no noroeste da Inglaterra, o corpo de Ian Kevin Curtis foi achado na cozinha de sua casa. Ambos compartilhavam de uma percepção musical e artística fora do comum, Smith com sua levada folk introspectiva, e Curtis, à frente do Joy Division, ícone do pós-punk e uma das bandas mais importantes das últimas três décadas. Nenhum dos dois, entretanto, conseguiu superar uma existência cingida por medos e desilusões, condição que não tardou em lhes oferecer o suicídio como única saída.

De Elliott Smith a Nick Drake, de Kurt Cobain a Michael Hutchence, a trajetória de artistas que colocaram fim à própria vida costuma ser dissecada em uma leva inesgotável de biografias, documentários e reportagens. Com Ian Curtis não poderia ser diferente, ainda mais quando se dimensiona a importância de seu legado para a música pop rock contemporânea. Coube ao fotógrafo holandês Anton Corbijn tirar o véu que envolvia o mítico vocalista do Joy Division e revelar suas diferentes facetas em Control, seu primeiro longa-metragem, em cartaz no Brasil desde 23 de maio.

O ator Sam Riley como o vocalista do Joy Division, Ian Curtis, em Control


Conhecido pelos retratos de grandes nomes da música, como Miles Davis, David Bowie, U2 e Elvis Costello, Corbijn já havia clicado o Joy Division nos derradeiros anos do grupo, mas foi a partir do livro de memórias Touching From A Distance, escrito por Deborah Curtis, viúva de Ian, que o fotógrafo engendrou seu filme. Com uma atuação convincente de Sam Riley no papel do cantor, Control traça um perfil cru do líder do Joy Division, retratado como um artista genioso, que experimentava intensamente suas paixões, mas que também podia ser um marido mesquinho, possessivo e infiel - Curtis nutriu um caso com a jornalista belga Annik Honoré.

A curta e preciosa saga do Joy Division

Após abrir algumas apresentações para os Buzzcocks, o Joy Division, que ainda atendia pelo nome de Warsaw, deixou de lado a veia punk e abriu caminho para Curtis compor um dos repertórios mais melancólicos da história do rock. Apoiados no tripé fundamental do pós-punk - baixo proeminente, texturas sombrias de teclados e sintetizadores e vocais claustrofóbicos -, o quarteto passou a nortear um movimento que oferecia uma alternativa tanto à farra da new wave como à proposta contestadora de bandas como The Clash e Sex Pistols.

Ícone do pós-punk, Ian Curtis se enforcou aos 23 anos


Em pouco menos de quatro anos, de 1976 a 1980, as apresentações catárticas do Joy Division, que contavam com os já famosos ataques epilépticos de Curtis em pleno palco, inspiraram uma geração de artistas a lançar um olhar cético para as impossibilidades comuns à natureza humana. Não apenas os dois álbuns do quarteto, Unknown Pleasures (1979) e Closer (1980), serviram de referência para bandas como Echo & The Bunnymen, The Cure, Gang Of Four e The Jesus & Mary Chain, como realçaram o lado letrista de Curtis.

A corda em volta do pescoço de Curtis decretou o fim do grupo em 18 de maio de 1980, mas o legado do quarteto já se fazia ouvir em distintas frentes. O próprio New Order, banda criada pelos remanescentes do Joy Division, embora apelasse para batidas mais dançantes, carregava camadas lúgubres em suas canções. Outros pesos pesados do pop rock, como o U2, que até 1983, quando lançou o álbum War, bebia generosamente do pós-punk, Stone Roses, The Smiths e Depeche Mode sofreram uma forte ascendência da música de Ian Curtis. Hoje, em meio à festa da new rave comandada por Hot Chip, Klaxons e CSS, nomes como Interpol, British Sea Power e Franz Ferdinand continuam a ecoar a herança do Joy Division.

Para entender mais:

Substance (1988): Compilação de algumas das canções mais conhecidas da banda, traz hits como Transmission, She´s Lost Control e a clássica Love Will Tear Us Apart. Ideal para os ouvintes de primeira viagem.

Unknown Pleasures (1979): embora seja reconhecível um leve acento punk, o disco de estréia do grupo já mostra o distanciamento do Joy Division da chamada "fase Warsaw". Enquanto Wilderness evidencia o poderoso baixo de Peter Hook, Shadowplay dá mais liberdade aos solos e riffs de Bernard Sumner.

Closer (1980): lançado como álbum póstumo, o trabalho mergulha de cabeça no universo cinzento de Ian Curtis. Letras desesperadas e vocais pungentes fazem de faixas como Heart And Soul e Isolation os pontos mais dramáticos do disco.

Atmosphere: um dos clipes mais emblemáticos da banda, conta com a direção de Anton Corbijn, que também assina Control. O vídeo entrega um punhado de personagens trajando túnicas e longos capuzes cônicos em meio a paisagens desérticas. O clima fantasmagórico é realçado pela fotografia em preto-e-branco.

Cenas de Atmosphere, clipe dirigido por Anton Corbijn


Atualizado em 6 Set 2011.

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