Guia da Semana

A vida através do vidro

Espetáculo de Sérgio Roveri retrata o cotidiano solitário de dois limpadores de vidro de uma grande cidade

Por Flávia Faccini

Divulgação
Mario e Claudionor: "seres invisíveis" das grandes metrópoles

Você se lembra quem foi o garçom que trouxe o seu prato hoje? E como era a caixa do banco onde você foi pagar aquela conta? Em 1984, essas "pessoas invisíveis" foram homenageadas por Chico Buarque na canção Brejo da Cruz, que alertava: Mas há milhões desses seres/Que se disfarçam tão bem/Que ninguém pergunta/De onde essa gente vem... O tema volta a ser retratado na peça Andaime, de Sérgio Roveri, em cartaz no Teatro Vivo.

Na trama, os atores Cássio Scapin e Claudio Fontana vivem os limpadores de janela Claudionor e Mário, que dividem o mesmo andaime. Enquanto executam suas funções, os dois filosofam sobre a vida e discutem temas tão inusitados como a vida no Japão e o medo de serem substituídos por robôs.

Oitava peça de Roveri, que concorre ao prêmio Shell de melhor autor de 2006 com Abre as Asas Sobre Nós, a montagem marca a chegada do dramaturgo ao teatro mainstream. Jornalista com diversos anos de atuação em mídia impressa, foi baseado em conceitos básicos da profissão, como a concisão e o coloquialismo, que Roveri concebeu a comédia. O resultado é um texto enxuto, primeiro lugar no Prêmio Funarte de Dramaturgia.

Caio Guatelli
Roveri: texto premiado

A inspiração veio de uma imagem mental que perseguia o autor. "Queria escrever um texto em que o convívio não passasse pelo terreno da família e nem pelo sentimental, o que já eliminou uma série de possibilidades. Aí me veio a imagem de dois atores que não estivessem com o pé no chão e ficou óbvio que seriam dois limpadores de janelas", conta.

Dirigida por Elias Andreato, a peça apresenta uma desafio aos atores: confinados em um espaço mínimo, sem possibilidade de utilizar a movimentação pelo espaço do palco para dar impulso às emoções, Scapin e Fontana tem a árdua tarefa de tornar o cotidiano em algo interessante aos espectadores. "A peça trata de um dia comum na vida dos dois: não há uma carta que vai chegar, um telefone que vai tocar e nenhum dos dois sai de cena", complementa o autor.

Para conhecer a realidade destes profissionais, o elenco conversou com o chefe da equipe de limpadores de um hotel de São Paulo. Uma visita - de elevador - ao topo de um alto edifício da cidade complementou o laboratório. A experiência prática, porém, acabou não se concretizando, para alívio de Fontana que, pasmem, morre de medo de altura.

Divulgação
Todo dia eles fazem tudo sempre igual: solidão e cotidiano

Por trás dos inusitados e por vezes hilariantes diálogos dos rapazes, Roveri deixa transparecer a solidão sentida por eles, agravada pelo confinamento diário de cerca de 8 horas e pela impossibilidade de alguns momentos de distração - que podem ser fatais. "Quem está dentro do escritório raramente pára o que está fazendo para conversar, e sem perceber a gente acaba agindo assim com todos esses prestadores de serviços, como garçons, caixas de banco, porteiros" , comenta Fontana.

O maior - mas certamente não o único - mérito do texto de Andaime talvez seja justamente provocar no espectador uma reflexão sobre a vida de pessoas simples, que estão muito próximas no dia-a-dia, mas ao mesmo tempo separadas por um abismo social quase intransponível. "É só uma película de vidro, mas que traz uma carga de exclusão, de pessoas que têm um universo muito interessante", lembra Scapin.

Retratar as pequenas tragédias e comédias que acontecem o tempo inteiro na vida de todos nós é sem dúvida o grande trunfo da montagem, que, a exemplo do que acontece em espetáculos que valem o valor pago pelo espectador, diverte e faz refletir.

Atualizado em 6 Set 2011.

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