Guia da Semana

A vida pela dança

O Guia da Semana entrevista a bailarina e coreógrafa Deborah Colker, a primeira mulher a dirigir um espetáculo do Cirque de Soleil

Foto: Flávio Colker
A bailarina, coreógrafa e diretora Deborah Colker
Filha caçula de três irmãos, o primeiro contato de Deborah Colker com a dança foi através da mãe. "Eu sou a única mulher depois de dois homens. Lógico que a minha mãe me matriculou no balé. Estudei dos 7 aos 11 anos, depois parei. Na época era muito moleca, só queria saber de jogar vôlei e queimada", brinca a coreógrafa. Aos 15 voltou a praticar balé clássico e dança contemporânea e percebeu a verdadeira vocação para as artes corporais, porém teve que enfrentar o preconceito de quem antes a incentivava.

"Não era viável para uma mãe pensar na filha vivendo de arte. Por isso decidi fazer psicologia, mas nunca parei de dançar. Depois de formada tive ainda mais certeza do meu amor pelo balé, mas minha mãe continuava insistindo que não daria certo, tentou me convencer, já que eu não ia ser psicóloga, a pelo menos trabalhar com dança de salão ou jazz, estilos que nunca gostei, mas que estavam no auge no começo dos anos 80", relembra. Porém, Deborah não cedeu e em 84, aos 23 anos de idade, iniciou a carreira como diretora de movimento e trabalhos corporais.

Hoje com 47, fundou uma das companhias de dança mais famosas do mundo e será a primeira brasileira a dirigir um espetáculo do tradicional Cirque de Soleil. Deborah conta ao Guia da Semana detalhes da sua trajetória, e como anda a ponte área entre Brasil e Canadá.

Guia da Semana: Como foi o começo de carreira?
Deborah Colker: Como qualquer outra profissão, tive que batalhar para ter visibilidade no meio artístico. Dei aulas durante oito anos no grupo Coringa, sob a direção de Graciela Figueroa. Também fazia coreografias para teatro, cinema e publicidade. Trabalhei com a Fernanda Abreu, Kid Abelha, Legião Urbana, entre muitos outros. Gostava de descobrir os movimentos com os atores, atrizes e cantores. Nesse período eu fiz mais de 50 coreografias.

GDS: Como surgiu a companhia?
DC: Nos final dos anos 80 era comum mostras de dança. Juntava um grupo de jovens bailarinos e se apresentavam em diversos locais. Em 94, quando recebi o convite para participar do Carlton Dance Festival, a Monique Gardemberg assistiu a performance com os meus alunos, depois disso surgiu a idéia da companhia, eu cai de cabeça. Já sentia essa vontade de trabalhar com bailarinos.

GDS: E como foi a consagração?
DC: Assim que a gente montou a Companhia Deborah Colker de Dança começamos a produzir. Passamos nove meses ensaiando o espetáculo Vulcão e estreamos no Theatro Municipal do Rio de Janeiro junto com o Momix (companhia norte-americana), que na época era o grande nome de dança contemporânea. Depois disso fomos fazer uma turnê pelo Brasil. Em São Paulo foi um sucesso, mas quando chegamos em Belo Horizonte, onde teriam três apresentações, tivemos uma surpresa. No primeiro dia tinham nove pessoas na platéia, no segundo 10 e no terceiro 11. Era muito estranho, no palco eram 13 pessoas se apresentando, número maior que o público. Mesmo assim não desisti. Fomos para o Nordeste, onde eu tinha que dar workshop para comprar banana para os bailarinos comerem e para conseguir pagar o aluguel do ônibus.

GDS: E mesmo assim você não desistiu?
DC: Aquilo que não mata fortalece. Em 95 estreamos o Velox e foi um grande sucesso. João Elias, que na época era o meu marido e hoje um grande parceiro de trabalho, conseguiu uma apresentação exclusiva no festival Globo e Movimento, assim a gente saberia do resultado sem estar vinculado com o Momix. Foi um sucesso absoluto. Depois disso, em 96 foi a vez do Mix que era a junção do Vulcão com o Velox, também um sucesso. Em 97 veio o Rota, que ficou nove semanas em cartaz no Japão. Começamos a ganhar o mundo e não paramos mais. A companhia sempre trabalha com três espetáculos simultaneamente

Flávio Colker
Cena do espetáculo Cruel
GDS: Cruel, que estréia em São Paulo dia 12 de setembro, é o primeiro espetáculo que você não dança, só dirige. Qual a sensação?
DC: Cruel (risos). Mas acho que valeu a pena. Nunca dirigi tão bem. Tive mais foco, pude me dedicar muito mais, prestar mais atenção nos detalhes, no cenário, na trilha sonora... Em tudo. Mesmo com o coração partido, sei que valeu a pena.

GDS: Quanto ao Cirque de Soleil?
DC: É um namoro antigo. Sempre ouvia comentários que tinham pessoas do Cirque de Soleil acompanhando o meu trabalho, assistindo aos espetáculos, mas eles nunca falavam nada. Até que um dia, em 2006, quando estava em Londres apresentando o Rota recebi o convite oficial para fazer a direção. Fiquei eufórica. O espetáculo estréia em abril de 2009, mas os ensaios começam em outubro. Nesse período vou ter que mudar para o Canadá. Ter que abandonar os meus filhos, minha mãe e meus quatro cachorros. Mas é uma honra, sei que no final vai valer a pena, afinal vou ser a primeira mulher a dirigir um espetáculo deles.

GDS: Pode falar o nome do espetáculo?
DC: Por enquanto não. O que eu posso antecipar é que será sobre a natureza e os insetos.

GDS: Tem previsão de vir para o Brasil?
DC: Ainda não. Sei que vai ficar durante um ano no Canadá. Depois vai para os Estados Unidos e depois para Ásia. Mas para o Brasil... até agora nada.

GDS: Se pudesse resumir a sua carreira em uma frase, qual seria?
DC: Faria tudo de novo!

Atualizado em 6 Set 2011.

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