Guia da Semana

Além da embalagem

Colunista comenta um pouco mais sobre o mundo do jazz


Foto: sxc.hu


Pode parecer bastante simplista, mas para o produtor de cultura, a classificação das artes, sobretudo a música, se divide em duas apenas: erudita e popular. Essa classificação é tão importante quanto reducionista. Em teoria, a música popular tem apelo de mercado e, portanto pode sustentar-se como atividade comercial, enquanto a erudita pressupõe um estudo - uma erudição - e não se encontra facilmente por aí boas bilheterias.

Seria música erudita apenas aquilo que se ouve feito por grandes orquestras? Ou apenas aquilo que se convencionou chamar de música clássica (Mozart, Brahms, Chopin, Bach)? Só de pensar que existem milhares de compositores de música erudita ativos até hoje, a definição por terra.

Da mesma forma, o tempo do jazz movimentar bilheterias já se foi há tempos, e pode-se entender que para se apreciar e produzir jazz, alguma erudição é necessária. Sinto-me péssimo em escrever uma frase que estabeleça um postulado tão feio e duvidoso como este, mas é difícil pensar que o jazz não seja para os "iniciados", ou ao menos os que estejam com a mente muito aberta. Existem sim, apreciadores do gênero que não entendem patavina de música, mas o jazz, antes popular, está se transformando em algo erudito sim.

A arte como um todo existe independente de uma função atribuída a ela. Ela existe por existir, como uma manifestação do ser humano. Ela carrega, no entanto, algumas funções sociais sim: estética, discussão, reflexão, divulgação de uma opinião ou simples contestação. Durante a ditadura militar no Brasil, alguns artistas, inclusive, assumiram a função de heróis do povo, batalhando pela liberdade do indivíduo. A única arma: a arte.

Ainda assim, goste de estabelecer uma função bastante generosa e descompromissada para a arte: mexer com as emoções das pessoas. Essa função, razoavelmente primitiva, depende da capacidade de comunicação e essa comunicação depende de falar-se a mesma língua, ou, ao menos, ensinar-se essa nova língua.

Eu poderia encerrar esse artigo aqui criticando a baixa educação de nosso país e dizer que por isso o jazz torna-se todos os dias, mais e mais erudito e este parece ser o rumo que o blues, a MPB e até o rock podem vir a tomar. Com esse argumento eu não estaria mentindo; não correria o risco de ganhar o prêmio Pulitzer, verdade, mas seria correto. A verdade é que eu também estaria desperdiçando o seu tempo, pois não estaria acrescentando nenhuma novidade.

Aqui está a novidade.

O jazz é um reverenciado (e eficaz) objeto de estudo. As harmonias, melodias e ritmos são complexos e permitem ao artista se expressar desenvolver, e as possibilidades de improviso são gigantes. O problema da erudização do jazz reside justamente no aprofundamento desse estudo. Em tal nível que a música acaba se tornando uma livre demonstração de técnicas Ed instrumento e resultados da pesquisa. Fundamentalmente, é chato pacas.

Também existe uma atividade bastante espontânea de artistas que é tocar toda apresentação a partir de improviso. Não são feitos ensaios e, com algumas convenções musicais, é possível estabelecer umas poucas regras e fazer uma música acontecer sem grandes recursos. Existem músicos com competência mais do que suficiente para fazer isso acontecer. São músicos com notada competência e talento sobrando, mas o resultado simplesmente não é o mesmo.

Existem sim, jazzistas buscando pela beleza da coisa e tentando inovar no que se propõe. Nesse aspecto, a comunicação com o lado emocional das pessoas é imediato. Ainda bem que não é necessário ser erudito em emoções para ouvir uma boa música e curtir o clima. Se algo lhe chamar a atenção, pode acreditar, há um bom motivo emocional para isso. Você provavelmente estará ouvindo uma composição descompromissada com técnicas e estudos e criada para ser ouvida, o que é muito interessante. Se você ouvir uma enxurrada de notas aparentemente desconexas, é provável que os únicos que estão se divertindo ali são os próprios músicos. É bom lembrar que, antes de julgar se o que estamos ouvindo é música de verdade ou apenas lição de casa, é necessário prestar atenção com cuidado.

No mais, confie nos seus instintos.

Leia as colunas anteriores de Felipe Tazzo:

? Cultura e mercado. Cultura é um mercado?


? Diversão e/ou arte


? Emoções embaladas para viagem


? Razões pelas quais o CD não vai desaparecer


? Brigando por uma fatia do bolo


? Carteirinha pra cá, carteirinha pra lá...


Quem é o colunista: Um tal de Felipe Tazzo.

O que faz:Publicitário, produtor cultural e da meia noite às seis, escritor. Autor de O Livro Das Coisas Que Acontecem Por Aí

Pecado gastronômico: Tudo o que for picante.


Melhor lugar do Brasil: Os butequinhos sujos do interiorrrrrrrr.

Fale com ele: acesse o blog do autor

Atualizado em 6 Set 2011.

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