Guia da Semana

Apenas um ser humano

Colunista fala sobre seu trabalho com Hebert de Souza, o Betinho

Foto: Photocase.de

Quando comecei a trabalhar com Betinho, em 1993, já o conhecia pessoalmente, mas mantinha com ele aquela relação típica entre fonte e jornalista. Embora já o tivesse entrevistado ou conversado profissionalmente com ele, foi no encontro em que ele decidiria se me contrataria para a função de sua assessora de imprensa, pois um dos traços que marcava sua personalidade eram o humor e auto-ironia.

- Olá, Betinho, tudo bem?

Era um pergunta inocente, a minha, destas que você faz quando chega para uma entrevista de emprego e quer ser amigável e simpática com seu interlocutor.

A resposta veio curta:

- Estou bem, estou vivo, né?

Não era, definitivamente, um diálogo comum. Infectado pelo vírus HIV desde 1985, tendo perdido os dois irmãs caçulas em 1988, Betinho considerava todos os dias uma espécie de milagre da existência, embora jurasse não acreditar mais em Deus desde o final dos anos 1960, quando trocou a militância católica pelo maoísmo.

Embora, nos três anos em que trabalhei com ele, tenha passado por histórias como essa, quando comecei a pesquisar para escrever o livro, em 2003, percebi rapidamente que a vida de um personagem tão rico, que viveu seus quase 62 anos de vida tão intensamente, não poderia se limitar ao que eu tinha experimentado na convivência cotidiana com ele.

Pesquisei, fiz mais de 250 horas de entrevistas, consultei mais de 100 livros, fui a sete cidades, tudo para que Betinho - sertanejo, mineiro, brasileiro fosse a síntese da visão das muitas pessoas que conviveram com ele.

Desde que chegou ao Brasil, anistiado, em 1979, Betinho havia se tornado mais do que o irmão do Henfil da música de João Bosco e Aldir Blanc. Sua figura pública, embora muito conhecida, era a de um mito que trabalhava em nome do bem comum. Se fosse apenas para contar a história desta figura pública, o livro não se tornaria uma obra interessante, na medida em que suas campanhas e sua atuação política havia sido amplamente noticiada pela imprensa nos 17 anos em que trabalhou pela redemocratização do país.

O que pretendi fazer em Betinho - sertanejo, mineiro, brasileiro. foi contar a história da figura pública por trás do mito. O que o livro mais valoriza na história de vida de Betinho são os acasos, os equívocos, as contradições, que são dele e de todos nós. Betinho tinha ambigüidade em relação à fé, à generosidade, à necessidade de sobrevivência, ao desejo de superação das suas próprias limitações. Foi um personagem absolutamente atravessado pelo acaso. A primeira ambigüidade, descobri logo na primeira tentativa de traçar uma cronologia de sua vida. Embora tenha morrido cedo, antes de completar 62 anos, vangloriava-se de ter vivido muito porque sabia que desde cedo não estava previsto que sobrevivesse. Busquei escrever a história desta curta vida com a humildade de quem sabe que não é possível dar coerência a uma trajetória que é tão rica justamente porque se reconhece incoerente, casual, errante.

O Betinho que surge no livro é um mosaico que pode, talvez, ir na contramão da expectativa de leitores, que esperam buscar por fatos que expliquem como e por que alguém viveu desta ou daquela maneira. No meu trabalho, procurei valorizar o oposto disso e me voltar, não para a linearidade, mas para os equívocos e contradições que valorizei como indicação de humanidade deste personagem que, do meu ponto vista, sai enriquecido do livro porque se sente mais humano.

Foto: Renata Ludwig

Quem é a colunista: Carla Rodrigues.

O que faz: jornalista há 22 anos, professora da PUC-RIO e faz pós-graduação em Filosofia.

Pecado gastronômico: espagheti com molho pesto feito pelo meu marido.


Melhor lugar do Brasil: Búzios.


Fale com ela: www.carlarodrigues.com.br

Atualizado em 6 Set 2011.

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