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Arte Futebol Clube

Colunista fala sobre a falta de "torcida" para a divulgação da arte

Foto: Photocase

O esporte costumeiramente é utilizado com fins políticos, o que teve seu principal exemplo na Olimpíada de Berlim, em 1936, em que Adolf Hitler tentou comprovar a superioridade da raça ariana e encontrou pela frente um tal de Jesse Owens.

Apesar dessa tendência e de sua espetacularização pela mídia que buscou destacar a cobertura, tendo como pano de fundo a utilização de um sentimento de brasilidade, os Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro e mostraram mais uma vez o poder de um evento esportivo como agregador de uma comunidade.

Há muito tempo o futebol desperta paixões nos brasileiros e em diversos outros países, uma paixão que muitas vezes esbarra na violência. O voleibol vem sendo cada vez mais disseminado e, sempre que surge um "brasileiro que dá certo", a modalidade que ele representa vivencia uma espécie de boom de praticantes ou aficionados, algo parecido com o tênis, com Gustavo Kuerten e do automobilismo, com Fittipaldi, Piquet, Senna e agora Felipe Massa.

A receita fundamental do esporte é a competição com o objetivo da vitória. Essa noção de um indivíduo se sobrepor ao outro traz o sentimento primitivo e essencial do ser humano: a conquista. Por meio da conquista alheia acontece a sensação de estar representado naquele que ganha, como se aquela vitória fosse a nossa.

Esse espelho que encontramos no outro criou a necessidade de os meios de comunicação destacarem a cobertura da área: há grande espaço para o esporte na maioria dos veículos, assim como os dedicados exclusivamente ao assunto, como emissoras de TV, jornais, rádios e revistas.

Obviamente, em um mundo objetivo, a subjetividade da arte não encontra idêntico respaldo ao do esporte na sociedade. Na arte não há competição e, portanto, não há vitória. Não havendo vitória, não há como julgar a superioridade de um em relação ao outro, o que acaba eliminando a possibilidade de uma "torcida" para a arte, elemento singular que vive da paixão e da necessidade de alimentá-la.

Como não se trata de uma competição, o sentimento em relação à arte é um tanto desconexo. Não é movido pela paixão, mas sim pelo efeito que determinados acontecimentos causam em nós. O que quero dizer com isso é que, enquanto no esporte vemos grupos organizados querendo, desejando e muitas vezes se matando para que seu time seja vitorioso, vença e conquiste, na arte não há sentimento semelhante. Ninguém torce por ninguém, mesmo porque seria no mínimo estranho imaginar um mundo em que, em um festival de teatro transmitido pela televisão, os telespectadores estivessem de prontidão, assistindo às apresentações e berrando furiosos quando algo desse errado. Por exemplo, o ator errou um texto em determinada hora e a "torcida" adversária vaia.

De qualquer forma, apesar de a receita para a arte chegar ao público ser muito menos apreciada do que a receita do esporte, ainda percebo a necessidade de os meios de comunicação começarem a dedicar a ela um espaço semelhante ao destinado para o esporte.

A meu ver, uma investida fundamental seria a criação de uma rede televisiva que seja via cabo, nos moldes dos canais esportivos. Essa rede cobriria apresentações teatrais, espetáculos de dança, exposições, shows, produções de documentários, arte comunitária, arte-educação etc. Além disso, haveria as tradicionais mesas-redondas, entrevistas, agenda da semana e outros.

Claro que quando falo sobre isso não estou me referindo aos shows do Babado Novo ou apresentações da nova comédia de Miguel Falabella e companhia, pois estes já possuem seus espaços nas televisões abertas. Refiro-me a uma cultura mais alternativa, não a grandes eventos. Também não estou me referindo à cultura regional envelopada para os grandes centros urbanos.

Uma rede como essa teria o poder de colocar a cultura mais próxima do cidadão, colaborando para a disseminação da arte entre a população. O efeito disso seria a multiplicação dos agentes culturais e o aprimoramento da consciência de mundo, afinal a matéria bruta da arte é a indagação. Por outro lado, haveria ainda a capacidade de revelar ao Brasil visões que o próprio país desconhece, tanto de produções estrangeiras quanto do que ocorre na atualidade em regiões fora do eixo Rio-São Paulo.

Somos obrigados a saber que o David Beckham foi negociado por um grande valor em dólares para o clube Fraldinhas da Lapa e que a nova namorada do Zuleiko Fenômeno "bate um bolão". Então, por que não apresentar um olhar mais apurado sobre a cultura e seu cotidiano?

Leia as colunas anteriores de Cesar Ribeiro:

? Noventa minutos para o fim

? Os progressistas não ouvem bossa nova

? Um axé bem cuidado ainda é um axé

? Alguém viu as orelhas de Van Gogh?

? Como vender um peixe amanhecido

? Uma fábrica de Alemães

Quem é o colunista: Cesar Ribeiro.

O que faz: diretor da Cia. de Orquestração Cênica.

Pecado gastronômico: comidas gordurosas & óleos adjacentes.

Melhor lugar do Brasil: metrópoles com multidão, sirenes & fumaças.

Fale com ele: acesse o blog do autor

Atualizado em 6 Set 2011.

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