Guia da Semana

As rainhas do batuque

Formado por oito garotas, o grupo Samba de Rainha tem conquistado platéias dentro e fora do país

Na palma da mãe: grupo acaba de lançar seu segundo álbum, Vivendo Samba


Nos vocais, solitárias, as mulheres sempre mantiveram o alto nível do samba, ritmo que abrigou em seus generosos braços intérpretes do calibre de Clara Nunes, Jovelina Pérola Negra e Dona Ivone Lara. Reunidas no mesmo palco, compartilhando microfones e demais instrumentos, elas ainda não haviam alcançado o mesmo prestígio e frenesi que toma conta da trajetória ascendente do grupo Samba de Rainha.

Formado por cinco percussionistas, duas instrumentistas e uma vocalista, o conjunto despontou no cenário oferecendo não apenas uma alternativa às pencas de grupos de samba compostos apenas por integrantes do sexo masculino, sejam eles veteranos ou garotos inclinados ao tal pagode universitário, como também um trabalho despojado, rico em referências melódicas e comprometido com a tradição do samba.

Das rodas de samba casuais a apresentações em Londres e Portugal, o Samba de Rainha foi angariando fãs enquanto tocava em bares de São Paulo e abria shows para artistas consagrados como Marcelo D2 e Leci Brandão. Com dois álbuns na bagagem e público consolidado, o octeto viu suas apresentações ganharem palcos mais robustos - como o Auditório Ibirapuera e o Sesc Pompéia, na capital paulista - e ingressos esgotados com antecedência.

Confira a conversa que o Guia da Semana teve com o grupo que acaba de lançar seu segundo álbum, Vivendo Samba, e que experimenta até uma versão batucada de Satisfaction, dos Rolling Stones, durantes os shows.

Guia da Semana: Como foi trabalhar no palco com convidados tão diferentes, partindo de baluartes da Velha Guarda da Portela, passando pela cantora Isabela Taviani e chegando à Preta Gil?

Samba de Rainha:Temos um público bem variado, que vai do tradicional ao moderno, assim como nossos convidados. Adoramos as três. Foi um prazer enorme dividirmos o palco com elas. A tia Surica da Portela já havia participado conosco no show no teatro Rival no Rio. Adoramos ela! A Isabella já havia dado uma canja em um de nossos shows em São Paulo e foi super bacana, alto astral. E a Preta - chiquérrima! - nos conheceu através de amigos em comum, aceitou o convite, veio e nos encantou!

De tantas grandes intérpretes de samba, como Clara Nunes, Jovelina Pérola Negra e Beth Carvalho, quais são as influências que mais marcaram o grupo?

Clara Nunes sem dúvida é a preferida de todas. A maioria do grupo curte muito o seu trabalho e também a Clementina, Beth, a Marrom... Enfim, o samba bom em geral.

De onde surgiu a idéia da releitura hard samba de Satisfaction, dos Rolling Stones? Vocês têm um pé no rock também?

A idéia surgiu em um de nossos ensaios. A Naná começou a tocar o riff de Satisfaction e a gente começou a batucar em cima, de primeira, nasceu assim, como quase tudo que acontece com a gente. O pé no rock é claro que temos! E em outros ritmos também. Somos oito pessoas com gostos diferentes e isso é ótimo! Dance, rock, forro, axé, pagode, eletro, house...(risos).

Vocês se apresentaram em Portugal e na Inglaterra. Como foi a reação do público europeu, mais acostumado a assimilar o samba com as mulatas, ao ver um grupo formado apenas por garotas?

A reação nos surpreendeu, foi ótimo! Sabíamos que eles gostavam de música brasileira, especialmente em Portugal, então foi muito bacana, superou nossas expectativas, inclusive em Londres.

Em Portugal as pessoas curtem o som do Zeca Pagodinho, ouvindo nos carros no último volume, como se fosse dance music! E agora tem muita gente ouvindo Samba de Rainha por lá! Para que as pessoas também possam curtir nossa música em dance music, eu (Sandra Gamon) criei um remix para Au Revoir - música da Aidée e Núbia - e coloquei no nosso Myspace. Já tem um monte de gente fazendo o download, inclusive de Londres e Portugal.



Como foi a transição das rodas de samba e festas particulares aos palcos e à gravação do primeiro álbum? E a escolha do repertório dos dois álbuns?

O primeiro álbum nasceu da vontade de fazermos um CD para registrarmos as composições internas. A Aidée já estava com suas primeiras composições prontas junto com a Pati Cavaquinho e a Núbia, e eram bacanas, todas as integrantes já gostavam de cantá-las. A escolha do repertório é aberta. Apresentam-se as composições, a gente ouve, canta, sente e vota, escolhendo o que mais agrada à banda.

O primeiro álbum do Samba de Rainha é composto apenas por canções autorais. Por que optaram por acrescentar de outros autores no trabalho novo?

No segundo álbum já éramos mais conhecidas no meio, então naturalmente fomos recebendo várias músicas que gostávamos e adotamos o mesmo critério de escolha do repertório do primeiro: ouvimos, batucamos e então votamos.

Mesmo abrindo shows para gente como Marcelo D2, Leci Brandão e Mart´Nália, vocês sentiram algum tipo de resistência pelo fato de participarem de um grupo de samba formado exclusivamente por mulheres?

Não, sempre fomos muito bem recebidas. Como sempre dissemos, o respeito vem através do amor que dedicamos ao nosso trabalho.

Qual é o diferencial que o público pode notar logo de cara entre um grupo de samba feminino e uma formação masculina?

Achamos que não existem diferenças entre uma banda feminina ou masculina. O importante é tocar a música com amor e garra. Esse é o diferencial que faz uma banda transmitir tanta energia boa, contagiar o público ou não.

Vocês esperam abrir portas para que não apenas novas sambistas ingressem no cenário musical, mas para que se formem mais grupos compostos por garotas? Afinal, não é fácil identificar muitas mulheres em uma roda de samba popular, não é verdade?

Se nosso trabalho puder abrir portas, ótimo! Mas é preciso lembrar que, como em qualquer trabalho ou profissão, é preciso muita dedicação, estudo e, acima de tudo, força de vontade para atingir os objetivos. A porta se abre algumas vezes, mas é preciso trabalhar muito ou ela se fecha.

As instrumentistas Núbia Maciel (conga), Thais Musachi (cavaco), Nana Spogis (violão), Aidée Cristina (ganzá e surdo), Carina Iglecias (reco-reco, agogô, caixa e timbal), Sandra Gamon (tamborim e repinique), Érica Japa (rebolo), Gadi Pavezi (pandeiro) formam o Samba de Rainha


Atualizado em 6 Set 2011.

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