Guia da Semana

Bienal da guinada

Depois de um período de crises, a mostra internacional retoma o prestígio e discute a relação entre arte e política por meio de mais de 600 obras de 159 participantes

"Mas, para que o amor e a política funcionem, é preciso ser valente". Esta frase do artista argentino Roberto Jacoby ilustra uma das chamativas instalações da 29ª Bienal de São Paulo, que abriu suas portas ao público em 25 de setembro, com o intuito de estabelecer uma relação entre arte e política. Jacoby é um dos 159 artistas que mostram mais de 600 trabalhos até 12 de dezembro, no Pavilhão do Ibirapuera.

Foto: Nathalia Clark/APH

Instalação "Bandeira Branca", de Nuno Ramos, que trás três urubus soltos

Para afirmar esse conceito, a mostra traz como título um excerto do poema A Invenção de Orfeu, do alagoano Jorge de Lima, que sugere que dimensão utópica da representação artística está contida nela mesma, e não no externo: "Há sempre um copo de mar para um homem navegar". Assim, artistas de diversas nacionalidades se organizam para discutir, por meio de suas obras, o tempo e o espaço em que estão inseridos.

Com um forte caráter labiríntico e percurso intrincado, o projeto expográfico do evento tem assinatura da arquiteta Marta Bogeá. A curadoria-geral da mostra ficou a cargo de Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias, que contaram com a consultoria dos co-curadores Fernando Alvim, Rina Carvajal, Yuko Hasegawa, Sarat Maharaj e Chus Martinez. Entre os destaques da mostra, estão trabalhos de nomes como Lygia Pape, Gil Vicente, Anna Maria Maiolino, Carlos Bunga e Cildo Meireles.

Foto: Nathalia Clark/APH

Terreiro Longe Daqui, Aqui Mesmo, projetado por Marilá Dardot e Fábio Morais

Outro diferencial desta edição é a presença de seis espaços de convívio, chamados de terreiros, que serão usados para atividades diversas, como falas, projeções, performances e leituras, modificando o formato tradicional de conferências e seminários. Neste ano, vídeos e fotografias prometem chamar atenção do público, como acontecem nas mostras internacionais do gênero.

O evento chega ao público com um ar de retomada e recuperação, já que passou por um período de muitas crises. Esta edição é resultado de uma série de ações voltadas para reestruturação da mostra, encabeçadas por Heitor Martins, presidente da Fundação Bienal de São Paulo desde maio do ano passado. Em 2008, a exposição foi apelidada de "Bienal do Vazio", já que semanas antes da abertura sofreu um grande corte no orçamento e ficou com o segundo andar do prédio totalmente desocupado.

A seguir, o curador Moacir dos Anjos fala sobre os destaques e a proposta da 29ª Bienal de São Paulo. Confira.

Guia da Semana: Como você explica o título desta edição: "Há sempre um copo de mar para um homem navegar"?
Moacir dos Anjos: Nós tomamos o verso como tema da exposição por dois motivos. Primeiro, porque, vindo da literatura e não de outra área, nós interessa afirmar a política a partir da arte. Não a arte representando ou repercutindo ideias gestadas fora dela, mas a representação artística como uma forma de afirmar uma visão de mundo. Além disso, esse verso funciona como uma metáfora para reforçar a mostra e a potência da arte em mudar o entendimento do mundo. Mesmo diante das adversidades, é possível navegar. Nesse sentido, o significado reflete a possibilidade quase infinita de invenção da arte. Esse poder utópico que essa expressão tem de reinventar o mundo.

Guia da Semana: Quais são os principais diferenciais da 29ª Bienal de São Paulo em relação à última, que gerou uma série de polêmicas? O que ela traz de diferente?
Moacir: Em primeiro lugar, nós vivemos em um mundo cheio de conflitos e situações de disputa. Acredito que a arte tem que se posicionar diante desse mundo. Em segundo, nós achamos que aquilo que a arte tem de mais potente em relação a essas situações é repercutir posições que todos temos sobre esses conflitos. Não é fazer propaganda, mas abrir fendas e espaços novos de entendimentos dessas questões. Muitas vezes, arte não tematiza esses conflitos, mas afeta nosso modo de estar no mundo através do efeito que tem sobre nossos sentidos, e nos leva a relativizar o modo como nos posicionamos no espaço e como enxergamos determinadas coisas. A arte é capaz de subverter os consensos que organizam nossa presença no mundo, mesmo quando não tem como tema questões de conflito. Nesse sentido, o que esta Bienal traz de mais forte é a crença nesse poder transformador da arte.

Foto: Nathalia Clark/APH

Língua Apunhalada, back-light de 1968, de Lygia Pape

Guia da Semana: Como serão esses espaços de convívio da mostra, os chamados terreiros? O que eles simbolizam?
Moacir: Os terreiros têm duas grandes funções. Considerando que a Bienal de São Paulo é realizada em um prédio de 30 mil m², ou seja, é extensíssima, é necessário que haja momentos de pausa, de reflexão e de absorção daquilo que foi visto até então. Esses espaços funcionam como marcos, dando certo ritmo à experiência de caminhar pela exposição. Por outro lado, servem também como locais de realizações de eventos, como debates, performances, projeções de vídeo, recitais, conversas, workshops. No nosso entendimento, uma mostra que pretende discutir arte e política não pode ser simplesmente contemplativa. É necessário abrir fendas para interação com as ideias que vão ser exibidas ao longo da exposição.

Guia da Semana: Nesta edição, há também a presença da pichação. Qual é a relação entre essa manifestação urbana e as obras expostas?
Moacir: A pichação entra porque entendemos que é uma manifestação visual forte na cidade de São Paulo e tem uma conotação política clara, no sentido de que é feita por um extrato social que buscar afirmar sua diferença e sua identidade num espaço urbano que não reconhece esse grupo e que não legitima e nem absorve sua presença social. Nós não poderíamos ignorar essa manifestação. Por outro lado, não nos interessa oferecer respostas sobre se isso arte ou não, e se isso deve ser legitimado. Estamos muito mais interessados em colocar questões abertas para o visitante. Vamos expor a pichação através de fotografias, vídeos feitos pelos próprios pichadores e de assinaturas que eles fazem em folhas de papel e trocam entre eles, mostrando assim a diversidade e a riqueza dessa manifestação visual paulistana. Basicamente, através da documentação da pichação, queremos levantar algumas questões que achamos pertinentes no âmbito dessa discussão entre arte e política.

Guia da Semana: A 29ª Bienal de São Paulo também não contará com o formato tradicional de seminários e mesas. Como será introduzida a prática discursiva?
Moacir: Ao invés de existirem aqueles seminários tradicionais de dois a três dias, nós optamos por ter essa presença constante da prática discursiva por meio de ações realizadas nos terreiros. Todo dia, acontecerá um debate, uma mesa redonda ou um recital em um dos terreiros.

Guia da Semana: O que determinou a escolha dos artistas participantes da mostra? Como foi esse processo?
Moacir: Toda escolha tem uma certa subjetividade. Se fossem outros curadores, seriam outras questões discutidas e outros artistas selecionados. Cada um curador desta Bienal tem uma experiência diferente. As escolhas finais saem do confronto dessas opiniões divergentes e da exaustiva discussão sobre os diversos pontos de vista, de modo que escolhemos um grupo de artistas que não só sejam interessantes para alguns, mas que, principalmente, façam sentido estarem juntos. É uma discussão coletiva, em que é preciso estabelecer relações entre poéticas diferentes. É necessário tecer uma malha poética, para que algumas questões sejam enfatizadas a partir da relação entre as obras. Não há nenhuma métrica possível de ser aplicada à produção de todos os artistas. O que nós fazemos é trazer as nossas experiências individuais e, através da conversa, chegamos a um denominador comum acerca de quais serão os mais adequados para a exposição.

Atualizado em 10 Abr 2012.

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