Guia da Semana

Brigando por uma fatia do bolo

Não bastasse o pouco investimento em cultura, os recursos da Lei Rouanet ainda são ameaçados por outros setores. Veja o que pensa o colunista


Foto: Stock.xcng

Eu peço desculpas pela burocracia contida na minha coluna, mas é necessário. Claro que a delícia de trabalhar com cultura é estar sentindo o frio na barriga nas coxias no espetáculo nosso de cada dia ou ainda colher comentários do público após o show. Mas, infelizmente, para a mágica acontecer, existe um caminho longo e o trecho maior desta labuta é a captação de patrocínio.

Eu acho uma atitude linda de uma empresa ligar sua marca à cultura, e, ao contrário do que pensam os céticos, o marketing cultural faz milagres para a empresa.

Então investir em cultura não vale a pena? Vejamos: o volume de dinheiro investido é grande e os teatros são pequenos, mesmo que lotados de pessoas das classes A e B . Patrocinar um evento cultural, no entanto, é uma atitude aplaudida pelos clientes. É o que se chama agregar valor a marca.

Talvez valha mais a pena argumentarmos que a empresa que investe está se diferenciando daquela que não investe. Diferenciar-se do concorrente é fundamental no mercado e esse é um excelente caminho. Está melhorando, não está?

Por fim, o melhor argumento que eu já ouvi de empresas que investem em cultura é o que derruba por fim a revolta dos céticos: é importante investir porque precisa ser feito. Sim, existem corporações e pessoas que pensam assim, que entendem sua responsabilidade para com a sociedade. Só por este argumento, eu já acho que vale a pena o investimento.

Infelizmente, mesmo com tantos argumentos, o caminho até o patrocínio não é simples. E a maioria das empresas não investiria um centavo se não fosse a famosa Lei Rouanet, que estabelece que uma empresa pode investir em cultura e abater o valor do Imposto de Renda devido.

Ah, com isenção fiscal aí sim é que fica fácil. Não fica. Existe investimento sim, mas é pouco. Se fosse uma enxurrada de dinheiro, existiram toneladas de produtoras culturais por aí, espetáculos pipocariam em cada esquina, infindáveis CDs e DVDs seriam gravados e, por fim, ninguém nunca ouviria um artista falar que a vida é dura. Alguém aí já ouviu artistas reclamarem que a vida é dura?

Mesmo não sendo grande, o investimento em cultura tem crescido a cada ano, e o uso da Lei Rouanet acabou se tornando o maior financiador de cultura. É aí que mora o perigo.

A fragilidade desse sistema todo é que ele se apóia em uma lei que sofre reformas e emendas a torto e a direito (bem como qualquer lei no Brasil). Ano passado criou-se um incentivo para o esporte que disputaria a mesma verba das empresas patrocinadoras. A discussão foi grande e a verba da cultura foi resguardada. O esporte terá seu patrocínio também do imposto de renda, mas sem interferir na cultura.

Este ano a briga voltou, só que desta vez, quem está querendo meter a mão no bolo é a religião. O ilustríssimo senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) propõe que a construção e reforma de templos religiosos também seja patrocinada com a Lei Rouanet. Se você está pensando que essa mudança na lei só podia ser coisa do filho do Edir Macedo, que fique muito claro que Crivella não é filho do Edir Macedo. É sobrinho.

A polêmica já está aí e a classe artística e produtora de arte já está se movimentando de todas as formas para inibir essa alteração. Faço votos e tenho fé que a lei não será aprovada.

A inserção do esporte e recentemente da religião no âmbito da Lei Rouanet só provam o quanto o incentivo à cultura é frágil e ainda não existe outra fonte ou mecanismo semelhante. Sim, a cultura está na mão de poucos e poderosos e com duas canetadas na calada da noite pode sofrer um sério retrocesso.

Estamos trabalhando e estamos de olho. Mas ao invés de brigar para proteger esse pequeno território conquistado que é a Lei Rouanet, seria muito melhor se existissem mais formas de financiamento, mais espaços, mais divulgação e com isso, mais público.

Leia as colunas anteriores de Felipe Tazzo:

? Cultura e mercado. Cultura é um mercado?


? Carteirinha pra cá, carteirinha pra lá...


Quem é o colunista: Um tal de Felipe Tazzo.

O que faz:Publicitário, produtor cultural e da meia noite às seis, escritor. Autor de O Livro Das Coisas Que Acontecem Por Aí

Pecado gastronômico: Tudo o que for picante.


Melhor lugar do Brasil: Os butequinhos sujos do interiorrrrrrrr.

Fale com ele: acesse o blog do autor

Atualizado em 6 Set 2011.

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