Guia da Semana

Buda

Uma das coisas que mais chamam a atenção do público é o uso do palco: os atores aparecem ou somem de todas as entradas e saídas

Foto: Gustavo Guerra


A peça Buda foi extraída da narrativa do livro homônimo do escritor indiano Deepak Chopra e também de Sidarta, escrita por Hermann Hesse. Idealizada pelo Grupo Ethos Teatral, que reúne 14 atores e explora uma linguagem simbólica e impressionista, o espetáculo ficará em cartaz até 29 de maio, aos domingos, na Praça Roosevelt.

Com direção de Lúcia de Léllis, a peça mostra a trajetória de Buda, desde quando era um jovem príncipe buscando seu verdadeiro destino até alcançar a iluminação, mudando o mundo para sempre com seus ensinamentos. Quando Sidarta (Pablo Calazans) nasce, os astrólogos preveem que ele dominará os quatro cantos do mundo. Mas, na verdade, ele pode cumprir a profecia de duas maneiras: tornando-se um grande rei ou aprendendo a governar sua própria alma.

Mesmo depois de casado, o príncipe descobre que vive numa prisão, um reino de fantasia criado por seu pai Suddodhanna (Rogério Santos), para que ele nunca tivesse contato com a dor e a miséria e, assim, não desejasse acabar com o sofrimento humano, mas é Channa (Betto Pitta), seu melhor amigo, quem mostra o verdadeiro mundo. O príncipe decide então abandonar o luxo do palácio, enfrentando provações de Mara, o oposto de Buda, representado por um coro, formado por quatro atrizes, entre elas, Camila Aires.

O Grupo Ethos tem como foco trabalhar com teatro experimental. Suas montagens têm forte influência na linha de pesquisa mítica, explorando os aspectos de autotransformação do ser humano e a busca da individuação. Buda segue essa linha, trazendo uma visão bastante peculiar do Grupo, que leva o espectador a refletir sobre a importância do olhar interior.

A adaptação de Buda tem elementos simbólicos e as vivências do grupo levam os estudos da diretora e a linguagem mítica como instrumentos para a construção do personagem, o que cria uma atmosfera para explorar o que há de melhor nos atores. De acordo com Lúcia de Léllis, cada um tem a reflexão sobre o espetáculo com seus olhos. "É preciso conduzir o ator para enxergar elementos da imaginação do diretor, mostrar caminhos por meio de experimentações, sem impor", disse a diretora, enfatizando a livre adaptação da peça por todos do grupo.

Dessa forma, o processo de criação e adaptação foi feito por relatos da vivência dos integrantes do grupo até chegar à conclusão do roteiro da peça, método usado por Constantin Stanislavski, que deixou seus relatos e experiências como ator e diretor para podermos aprender a fazer uma análise ativa das ações físicas propostas pelos atores. Por experiência própria, pela leitura dos relatos depois do processo é possível avaliar o crescimento como artista e pessoa.

A caracterização dos personagens é baseada na cultura indiana e traz uma carga de sentimentos complexos, conflituosos, principalmente entre Buda e seu pai, que não admite derrotas. Os deuses Shiva (Vanessa Correa) e Krishna (Cris Bortoletto) mostram toda a simbologia da cultura oriental, por meio das expressões corporais.

Um dos recursos cênicos foi aproveitar as possibilidades do palco: os atores surgem e somem de todas as entradas e saídas. Isso dá um ritmo ao espetáculo e permite aguçar a imaginação da plateia com a pergunta que todos fazemos: "como é feito isso?", principalmente quando entra o Balseiro (Dawton Abranches) para aconselhar Sidarta. Uma das cenas mais comoventes da peça é quando Dedadatta (Sandro Santos), primo invejoso de Sidarta, estupra e mata Sujata (Olivia Niculitcheff), por pura maldade. Nesta cena, a atriz usa toda sua expressividade corporal, enquanto o ator come uma maçã de forma voraz, simbolizando a morte de Sujata. Aproveito para registrar nesse espaço a necessidade de uma reforma na sala "Sátyros II", na Praça Roosevelt. Não sei quem, nem como poderia acontecer, mas não precisa ser especialista pra ver o que vi.

Leia  as colunas anteriores de Mônica Quiquinato:

A Bomba e o Beijo

A ética no teatro

A emoção em atuar

Quem é a colunista: Mônica Quiquinato.

O que faz: Mãe, jornalista e especialista em Comunicação Jornalística. Atualmente estuda teatro no Macunaíma.

Pecado gastronômico: Churrasco.

Melhor lugar do mundo: Minha casa.

O que está ouvindo no carro, iPod, mp3: Titãs, Legião Urbana, Led Zeppelin, Aerosmith, Metallica, Rush, David Bowie, entre outros.

Para falar com ela: monica_quiquinato@yahoo.com.br.


Atualizado em 10 Abr 2012.

Compartilhe

Comentários

Outras notícias recomendadas

5 hotéis ao redor do mundo que são verdadeiras obras de arte

Confira locais com acomodações incríveis, mas que têm obras como protagonistas

Evolução dos emojis ganha instalação no Museu de Arte Moderna de NY

Os primeiros emoctions, criados em 1999, também entram para a coleção MoMA

6 motivos para visitar a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano em SP (e nem perceber que está na capital)

Local une arte, cultura, lazer, arquitetura e natureza, fazendo com que o visitante esqueça que está em SP

13 grafites em SP que todo mundo que ama arte deveria ver pessoalmente

Confira obras espalhadas pela cidade que merecem sua atenção

Na Semana da Criança, uma selfie vale um passaporte nos museus de SP; entenda

Para participar, é só postar foto com uma criança no Facebook com a hashtag #MuseusSP e apresentar na bilheteria da Pinacoteca, Casa das Rosas ou do Museu da Imigração

Unibes Cultural oferece programação especial e gratuita para o mês das crianças

Evento acontece até dia 31 de outubro e comemora o Mês das Crianças