Guia da Semana

Caminho inverso

Depois de despontar na Internet o jovem Filipe Cotta grava seu EP Saga e chega ao cenário musical com atitude

Foto: Divulgação


Ao ouvi-lo a imagem de um forte nome da MPB salta a mente. Contrário ao que se imagina, a comparação com Ney Matogrosso e a pouca idade não intimidam o cantor e compositor Filipe Catto, 22 anos. Cheio de sonhos e com os pés no chão, o jovem é fã de Elis Regina, Chico Buarque, Clara Nunes e ostenta uma bagagem de gente grande.

Nascido em berço musical e descoberto em 2005, ao fazer parte de um projeto musical de Porto Alegre, Filipe divulgava seu som na Internet e encabeçou algumas bandas, mas foi na carreira solo que encontrou seu rumo. Hoje, chama atenção da crítica com sua atitude e uma característica única: a voz.
 
Depois de morar no exterior e viver na pele influências musicais de todo o mundo, voltou ao Brasil, criou seus shows intimistas formados de voz, violão,  palmas e uma interpretação peculiar. Autor de todas as letras de seu projeto intitulado Saga, o jovem levanta a bandeira a favor dos downloads e disponibiliza o conteúdo de seu primeiro álbum em seu site oficial. Confira o bate papo que o Guia da Semana levou com o gaúcho que promete ser umas das novas promessas da música popular brasileira.

Guia da Semana: Como surgiu sua vocação para música?
Filipe Cotta: Minha ligação com música veio desde sempre porque meu pai é músico. Sempre tive contato com instrumentos. Sempre cantei e não foi nenhuma surpresa na família que eu tenha seguido a carreira. Toco violão e um pouco de piano, mas nada que eu arrisque tanto nos palcos. Uso mesmo para compor. Meu pai me dava umas dicas e eu aprendi meio que na marra como tocar, porque eu gostava muito.

Guia da Semana: Você participou de algumas bandas. Porque decidiu seguir carreira solo?
Filipe: A música para mim sempre foi uma coisa solitária. Mesmo com as bandas quem compunha e cuidava da concepção toda era eu. Eu já tocava solo antes delas. Na adolescência, antes de ter uma imagem, eu fazia som em bares e restaurante. E nas bandas eu assinava a maioria das composições, mas comecei a me apresentar solo porque minha banda se diluiu. 

Guia da Semana: Com tão pouca idade, alguns comparam o timbre da sua voz a de Ney Matogrosso. Como encara isso?
Filipe: (Risos). É bem perigoso isso. É natural, afinal as pessoas não têm um parâmetro sobre mim ainda. Antes mesmo de lançar o disco eu já sabia que isso era possível. Acho ótimo porque estou sendo comparado a um puta cantor. Mas eu não gostaria que as pessoas pensassem que eu sou qualquer coisa de imitação do Ney. Afinal a história toda não tem nada a ver. Eu sou compositor, não interprete. Tanto o Ney quanto eu temos um registro de voz raro e é difícil achar alguém com registro vocal de contra tenor. Não desmerecendo, longe de mim. Acho ele incrível. Aquele tipo de artista tão bom que eu escuto pouco para não me influenciar demais.

Guia da Semana: Tem receio de ficar tachado como sósia de Ney?
Filipe: Não receio. É uma questão de tempo até conhecerem melhor meu trabalho. E comparar com o Ney seria, por exemplo, comparar Ana Carolina com a Cássia Eller. Elas seguem um estilo, mas são completamente diferentes. Parte de um registro que vem do mesmo, mas está longe.

Guia da Semana: Você compõe suas letras. De onde tira inspiração?
Filipe: Isso tem fluxos e fases. Tudo que um artista faz é autobiográfico. Mesmo vindo de uma outra fonte. Eu tento não falar as coisas muito preto no branco. Tenho muita influência da literatura, gosto muito de ler poesia. Pego histórias e dou uma maquiada nelas. Falo muito de mim e o que vivo nas minhas letras.

Foto: Divulgação


Guia da Semana: Como foi o processo de escolha das canções para seu primeiro CD Saga?
Filipe: Tínhamos a ideia de fazer um EP - extended play - e não um álbum. Optamos por uma coisa um pouco menor mesmo, mas com músicas mais longas. Então escolhi canções que se comunicassem umas com as outras. Que respondessem ao universo que queremos promover com o disco. Algo que fosse tenso, vibrante, triste pra caramba, mas que não fosse algo melancólico e sim uma coisa dilacerante, viva, rubra. Então escolhemos as músicas quentes que falam de amores, respostas que damos a ele, a relação que as pessoas têm com ele. É uma coisa que gosto de fazer nos meus trabalhos. Falar de algo que é tão pessoal e inconfessável que se torna universal. E a música é uma das formas de falar dessa coisa tão obscura que as pessoas têm e não falam. Afinal é tudo muito parecido para todo mundo. 

Guia da Semana: Porque decidiu se mudar para fora do Brasil?
Filipe: Sempre quis viver lá, era uma vontade minha mesmo. Sempre estudei línguas e queria uma experiência fora. Antes de morar no exterior eu era um pouco mais indie. Engraçado que deveria ser ao contrário. Afinal, Nova Iorque tem muitas bandas nesse estilo. Mas pelo contrário, tive contato com bandas e estilos do mundo inteiro. Bandas mexicanas, coisas africanas, rock. E tive muita saudade da música brasileira, tanto que comprei um CD de samba assim que cheguei lá.

Guia da Semana: Como foi a montagem do seu primeiro show?
Filipe: O show antecedeu o EP Saga. Foi uma coisa bem despojada. Me encontrei com um diretor de teatro que é meu amigo e decidimos montar uma apresentação. Eu já havia me apresentado, mas levar um show meu para um teatro, estrutura, era bem inédito para mim. Então, peguei meu violão e fui até a casa dele. Toquei meu setlist todo e montamos o show. Tem uma ligação com a música Teresinha de Chico Buarque, que é dividido em três partes. Cantava Carmem Miranda, algumas coisas da Bethânia, etc.

Guia da Semana: Em suas apresentações, você costuma interpretar as músicas. De onde tirou esse estilo?
Filipe: É tudo bem espontâneo. Eu não gosto de direção nenhuma na hora do show. Acho que é importante um foco, com marcações, e ando trabalhando isso. Tenho a direção do setlist para sentir o clima das músicas, mas na hora essa coisa de levanta o braço, olha pra tal lugar, não rola. Não sei descrever ao certo o que acontece comigo nos palcos. Eu tento abrir os canais e deixar a coisa me tomar até não poder mais.

Guia da Semana: Quais suas maiores influências musicais?
Filipe: Tenho influências demais da Elis Regina, Chico Buarque, Clara Nunes, gosto demais. Mas a artista que eu mais admiro e me espelho é PJ Harvey. A questão do conceito de cada trabalho ser completamente diferente um dos outros. Tenho escutado também muito Caetano Veloso, Maria Bethânia. E também o disco Jukebox da Cat Power, adoro esse disco.

Foto: Divulgação


Guia da Semana: Você faz parte de uma nova geração e levanta a bandeira do uso de downloads. Acha que isso não prejudica?
Filipe: De forma nenhuma. Hoje em dia a venda de discos não rende dinheiro. A não ser, claro, que tu venda milhões de CDs, mas é muito difícil. Seria uma burrice qualquer artista jovem bater a cabeça na história na venda de álbuns. Está mais que óbvio que a função da Internet é divulgar. Afinal, seu eu não colocar o disco para download no meu site, de alguma forma vai parar em algum blog mais tarde. A melhor coisa é colaborar com o público e deixar tudo alí, que vai me render contatos, irão entrar no site, deixar um recado, o feedback é incrível. É muito mais rico do que essa forçação de barra de gravadora. Se nem a Marisa Monte vende hoje um milhão de discos, quem sou eu para querer fazer isso?

Guia da Semana: Acha que de certa forma, as pessoas deixando de comprar CDs ajuda a lotar mais os shows?
Filipe: Claro. Eu quero mais é que as pessoas baixem meu disco de graça e mandem para todos os amigos e que vá todo mundo me assistir. É isso que faz a roda girar. O CD é uma ferramenta de divulgação, o trabalho em si é muito mais que isso. É uma concepção de show, uma turnê. É isso que hoje em dia bota comida na mesa.

Guia da Semana: Com quem gostaria de dividir os palcos?
Filipe: Bah, tem tanta gente boa. De cabeça assim, eu gostaria muito de dividir o palco com a Fabiana Cozza. Acho ela incrível. Uma das vozes mais incríveis que eu ouvi nos últimos anos. Vendo alguns vídeos dela achei impressionante. 

Guia da Semana: Como se imagina daqui 30 anos?
Filipe: Não sei. Espero daqui a 30 anos fazer o que faço hoje. Admiro demais artistas no estilo do Ney, Bethânia, Caetano. Eles têm esse frescor e paixão. Essa coisa de não serem apenas um mero reflexo do que foram há 30 anos atrás. Eles continuam fazendo músicas, CD e shows incríveis, sendo artistas fantásticos e produtivos. Não quero daqui a 30 anos estar cantando músicas antigas. Quero a cada dia fazer canções e discos cada vez melhores. 

Confira um trecho do show de Filipe Catto:



Atualizado em 6 Set 2011.

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