Guia da Semana

Cat Power: catarse e soul

Em duas noites, Chan Marshall fez o público do Tim Festival esquecer quem eram Björk, The Killers e Arctic Monkyes



Chan Marshall, verdadeiro nome de Cat Power, poderia ser mais uma das vozes que reverberam apenas no meio descolado, indie, alternativo ou qualquer denominação do gênero. Talvez até seja, seus discos não estão entre os mais vendidos; pelo contrário, são difíceis de achar, não custam barato e suas canções passam longe das rádios.

Em pouco mais de dez anos de carreira, Chan já tocou com gente como Eddie Vedder, Dave Grohl e Wayne Coyne. Veio ao Brasil para divulgar You Are Free tempos atrás, passando despercebida pela mídia, ainda que tenha reunido um séqüito de fãs em uma livraria da capital paulista.

Quando foi anunciada como atração do último TIM Festival, muitos deram de ombros. Afinal, nomes como Björk, The Killers e Arctic Monkeys eram as grandes apostas da organização, que as reuniu em apenas um dia, em São Paulo. Acompanhar as duas apresentações de Cat Power, ao lado da The Dirty Delta Blues, não foi apenas uma oportunidade rara, um concerto ou evento, foi uma catarse desde o primeiro momento.

Na primeira noite, Chan se mostrou ligeiramente mais tímida, embora tenha entrado no palco sem nenhum embaraço, arrancando aplausos da platéia ao dublar o locutor do evento, Zuza Homem de Mello. A cantora começou a ganhar platéia pelo humor fino e meigo. Platéia que ansiava pelas faixas de The Greatest, trabalho lançado em 2006, mas que mal passou pelo repertório da cantora. O que poderia ser uma retumbante decepção para os fãs, logo se tornou uma viagem vibrante pelo universo da soul music, permeada por sucessos autorias como Lived In Bars e The Moon. No final, Cat Power agradeceu as palmas, mas disse não merece-las.

Se a noite de quinta-feira já havia justificado os ingressos esgotados em poucas horas, a notícia de que Cat Power voltaria aos palcos no sábado, 27, substituindo a cantora Feist, foi mais do que um alento para quem, como eu, esperava fervorosamente a performance da canadense. Chan regressou ao Auditório Ibirapuera mais leve, esboçando uma apresentação mais informal. Vestida de maneira casual, com uma simpática gravata preta sobre uma blusa verde-musgo, a americana era o contraponto da imagem pomposa cultivada por boa parte do público. Alguns lugares vazios, mais próximos à banda, eram preenchidos sorrateiramente pelos fãs, que mal puderam acreditar quando foram convidados pelos músicos a colarem no palco, a poucos centímetros de Chan e sua Dirty Delta Blues.

Ao lado da The Dirty Delta Blues, Chan só não fez chover no Auditório


Todos em pé, embevecidos, comprovaram por que Cat Power é um dos nomes mais aclamados da cena musical contemporânea. Absoluta, Chan flutuou pelo palco, fazendo gracejos com a platéia: distribuiu beijos aos mais felizardos, teve um cigarro acendido por um fã, cantarolou Edith Piaf lembrando um esquete imapagável de cabaré.

Em um clima descontraído, como se estivesse se apresentando há mais de uma década, em um dos pequenos bares de Nova York onde despontou, a cantora lavou a alma, dialogando com clássicos do cancioneiro norte-americano e standards da soul music e do folk. Os arranjos de suas composições mais queridas eram descaracterizados, novas roupagens lhes deixavam mais próximos ao clima do concerto, assim, nem o fã mais ortodoxo sentia falta das velhas canções. Alguns mais insistentes, porém, exigiam que Chan interpretasse velhos sucessos, o que foi refutado polidamente pela cantora, que se justificou explicando que o período em que compôs tais faixas havia sido um tanto quanto dolorido.

No final, após uma interpretação fabulosa de Lived In Bars, Cat Power se despediu de uma platéia em êxtase, muitos derramavam lágrimas contidas - não de histerismo, como se costuma contar aos litros em shows adolescentes, mas de uma emoção tocante. Ovacionada, Chan retribuiu o carinho do público distribuindo entre os fãs alguns objetos do palco. Em The Greatest, canção título de seu último álbum, Cat Power canta "Uma vez eu quis ser a melhor, nenhum vento ou queda d´água poderia me parar". Naquele sábado, nada poderia detê-la.

Fotos: Bruno Lofreta
Quem é o colunista: Bruno Lofreta
O que faz: jornalista
Pecado gastronômico: comida mexicana e cerveja irlandesa
Melhor lugar do Brasil: Aeroporto Internacional de Guarulhos (Cumbica)
Fale com ele: sr.lofreta@hotmail.com



Atualizado em 6 Set 2011.

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