Guia da Semana

Contos de Caio Fernando Abreu

O Guia da Semana consultou especialistas na área e selecionou dez contos marcantes do escritor gaúcho, confira trechos de cada um deles!

1 - Garopaba, mon amour (In: Pedras de Calcutá)
Foram os primeiros a chegar. Durante a noite, o vento sacudindo alona da barraca, podiam ouvir os gritos dos outros, as estacas de metalviolando a terra. O chão amanheceu juncado de latas de cerveja coposde plástico papéis amassados pontas de cigarro seringas manchadas desangue latas de conserva ampolas vazias vidros de óleo de bronzearbagas bolsas de couro fotonovelas tamancos ortopédicos. Pela manhãsentaram sobre a rocha mais alta, cruzaram as pernas, respiraram setevezes, profundamente, e pediram nada para o mar batendo na areia.
(...)

2 - Pela noite (In: Triângulo das águas)
(...)
Talvez seja este o problema. Uma vida sem manhãs. Estranho é que não escolhi. Não consigo precisar o momento em que escolhi. Nem isso, nem qualquer outra coisa, nem nada. Foram me arrastando. Não houve aquele momento em que você pode decidir se vai em frente, se volta atrás, se vira à esquerda ou à direita. Se houve, eu não lembro. Tenho a impressão de que a vida, as coisas foram me levando. Levando em frente, levando embora, levando aos trancos, de qualquer jeito.
(...)

3 - O rapaz mais triste do mundo (In: Os dragões não conhecem o paraíso)
UM AQUÁRIO de águas sujas, a noite e a névoa da noite ondeeles navegam sem me ver, peixes cegos ignorantes de seu caminhoinevitável em direção um ao outro e a mim. Pleno inverno gelado, agostoe madrugada na esquina da loja funerária eles navegam entre punks,mendigos, neons, prostitutas e gemidos de sintetizador eletrônico -sons, algas, águas - soltos no espaço que separa o bar maldito dastrevas do par que na cidade que não é nem será mais a de um deles.
(...)

4 - Morangos Mofados (In: Morangos Mofados)
No entanto (até no-entanto dizia agora) estava ali e era assim quese movia. Era dentro disso que precisava mover-se sob o risco de. Nãosobreviver, por exemplo - e queria? Enumerava frases como é-assimque-as-coisas-são ou que-se-há-de-fazer-qye-se-há-de-fazer ou apenasmas-afinal-que-importa. E a cada dia ampliava-se na boca aquele gostode morangos mofando, verde doentio guardado no fundo escuro dealguma gaveta.
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5 - Os sapatinhos Vermelhos (In: Os dragões não conhecem o paraíso)
TINHA terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro dagente, sempre sabe exatamente quando termina - ela repetiu olhando-sebem nos olhos, em frente ao espelho. Ou quando começa: certo sustona boca do estômago. Como o carrinho da montanha-russa, naquelemomento lá no alto, justo antes de despencar em direção. Em direção aquê?
(...)

6 - Linda, uma história horrível (In: Os dragões não conhecem o paraíso)
SÓ depois de apertar muitas vezes a campainha foi que escutouo rumor de passos descendo a escada. E reviu o tapete gasto,antigamente púrpura, depois apenas vermelho, mais tarde rosa cadavez mais claro - agora, que cor? - e ouviu o latido desafinado de um cão,uma tosse noturna, ruídos secos, - então sentiu a luz acesa do interiorda casa filtrada pelo vidro cair sobre sua cara de barba por fazer, trêsdias.
(...)

7  - London, London ou ajáx, brush and rubbish  (In: Pedras de Calcutá)
Meu coração está perdido, mas tenho um mapa de Babylon Cityentre as mãos. Primeiro dia de fog autêntico. Há um fantasma em cadaesquina de Hammersmith, W14. Vou navegando nas waves de meupróprio assobio até a porta escura da casa vitoriana.
(...)

8 - Oásis (In: O ovo apunhalado)
A brincadeira não era difícil: bastava que nos concentrássemos osuficiente para conseguirmos transformar tudo que havia em volta. Etreinados como estávamos nas imaginações mais delirantes, erarelativamente fácil avistar um deserto na rua comprida e um oásis noarco branco do portão do quartel, lá no fundo. Algumas vezes tentamosiniciar um ou outro guri da nossa idade, mas eles não conseguiamnunca chegar até o fim.
(...)

9 - Corujas (In: Inventário do ir-remediável)
Tinham um olhar dentro, de quem olha fixo e sacode a cabeça,acenando como se numa penetração entrassem fundo demais,concordando, refletidas. Olhavam fixo, pupilas perdidas na extensãoamarelada das órbitas, e concordavam mudas. A sabedoria humilhantede quem percebe coisas apenas suspeitas pelos outros.
(...)

10 - Terça-feira gorda (In: Morangos mofados)
De repente ele começou a sambar bonito e veio vindo para mim.Me olhava nos olhos quase sorrindo, uma ruga tensa entre assobrancelhas, pedindo confirmação. Confirmei, quase sorrindo também,a boca gosmenta de tanta cerveja morna, vodca com coca-cola, uísquenacional, gostos que eu nem identificava mais, passando de mão emmão dentro dos copos de plástico.
(...)




Pedras de Calcutá
Editora: Companhia das Letras
Ano de Publicação: 1996 (relançamento)
Número de páginas: 130







Triângulo das águas
Editora: Agir
Ano de publicação: 2008 (relançamento)
Número de páginas: 224







Os dragões não conhecem o paraíso
Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 1988 (3ª edição)
Número de páginas: 157







Morangos Mofados
Editora: Agir 
Ano de publicação: 2005 (relançamento)
Número de páginas: 160







O ovo apunhalado
Editora: Agir
Ano de publicação: 2008 (relançamento)
Número de páginas: 176








Inventário do Ir-remediavel
Editora: Sulina
Ano de publicação: 1995 (2ª edição)
Número de páginas: 161



Atualizado em 10 Abr 2012.

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