Guia da Semana

Corações de Poe

O que chama a atenção na obra é a comunicação corporal dos atores, vigorosa e emotiva

Foto: Denis Cintra


Livremente inspirado nos contos de Edgar Allan Poe, um dos maiores autores do gênero terror, a peça Corações de Poe fica em cartaz até 8 de maio no Teatro Macunaíma. Os contos foram escolhidos criteriosamente pelo estreante diretor Ed Fuster e encenados pelos integrantes do Núcleo Teatral Pimenta no Sal Grosso.

Antes de assisti-la, ficava imaginando como O Poço e o Pêndulo, Berenice, Gato Preto, Eleonora, O Retrato Oval, Barril de Amontilado, O Corvo e Coração Denunciador seriam representados juntos em uma peça - um desafio e tanto para os atores que resolveram adotar uma linguagem corporal e simbólica. Outro desafio, este por conta do diretor, eram as passagens de um conto para outro, solucionados de forma sutil, porém evidentes.

Poe surpreende, ilude e aterroriza em seus contos, e o diretor toca as pessoas do mundo moderno. "Arrumar seus erros só são possíveis enquanto há vida dentro de nós. Após a morte, o que resta são os vestígios dos dias", define Fuster. Outra preocupação do núcleo é o teatro como ferramenta de transformação humana e social.

Emocionante mesmo foi a interpretação dos atores: uma espécie de rio de personagens correndo em suas veias, um tornado de vivência. Mesmo com a disposição do teatro italiano (plateia frontal ao palco), sentíamos a energia dos atores, certa proximidade, talvez alguns deles tiveram que se redescobrir nesta peça para representar a confusão das pessoas em relação ao amor.

Para instalar o mistério e suspense do início ao fim da peça, foram utilizadas referências do cinema nos filmes de terror, drama, gays e lésbicas. Esteticamente, havia uma plástica de encher os olhos, em cenas que formavam lindas imagens.

O cenário remetia a um cemitério, representando a falta de vida, com árvores secas e mortas. As páginas abertas de livros velhos dão a impressão de que o livro morre também. As personagens começam a reviver seus erros nascendo do cemitério de páginas, saindo diretamente dos contos do livro. Simples e belo.

Não há protagonista. O destaque fica por conta do trabalho corporal dos atores, há contos inteiros sem fala. O recurso do teatro de sombra também foi utilizado, deixando quem assistisse muito curioso, interligando a leitura da história com a construção de personagens por meio do movimento das silhuetas com manipulação de luzes, uma técnica que sempre encanta.

A cena mais chocante é a do início da peça, quando os atores saem dos livros e iniciam com O Poço e o Pêndulo. A inquisição é representada por um coro, torturando um homem que come vorazmente um pedaço de carne antes de morrer.

As máscaras e a trilha sonora dão o tom de mistério, talvez inspirado no longa-metragem De olhos bem fechados, estrelado por Tom Cruise e Nicole Kidman - algumas delas foram inseridas nas cenas de suspense. A iluminação criada por Alexandra Deitos contribuiu na dramatização e nas mudanças de ambiente.

O grupo conseguiu seguir Poe mas sem segui-lo: fizeram sua própria versão. É uma pena não ter visto a divulgação do espetáculo em nenhum veículo de comunicação. Espero que na próxima temporada de agosto, a ser  apresentadas nos Teatros Zanoni Ferrite e João Caetano, seja inserido na mídia, pois Corações de Poe foi impressionante.

Leia  as colunas anteriores de Mônica Quiquinato:

Buda

A Bomba e o Beijo

A ética no teatro

Quem é a colunista: Mônica Quiquinato.

O que faz: Mãe, jornalista e especialista em Comunicação Jornalística. Atualmente estuda teatro no Macunaíma.

Pecado gastronômico: Churrasco.

Melhor lugar do mundo: Minha casa.

O que está ouvindo no carro, iPod, mp3: Titãs, Legião Urbana, Led Zeppelin, Aerosmith, Metallica, Rush, David Bowie, entre outros.

Para falar com ela: monica_quiquinato@yahoo.com.br.



Atualizado em 10 Abr 2012.

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