Guia da Semana

Cultura e mercado. Cultura é um mercado?

O colunista reflete: é possível mensurar o valor de um produto cultural? Os incentivos privados e federais cumprem sua função de popularizar a arte?


Foto: Getty Images

Às vezes pode ser muito difícil colocar em termos práticos e valores reais uma obra de arte ou um evento cultural. Do couvert artístico de R$ 5 para os músicos em qualquer barzinho até as pornográficas quantias de dinheiro pelas quais se avalia uma pintura dos grandes mestres, a questão passa por uma série de valores bastante estranhos.

Pode ser que seja realmente um chute estabelecer o quanto vale um produto cultural. Provavelmente não seja sequer justo estabelecer um valor para o fruto do trabalho do artista.

Em geral, o mercado capitalista tem regras para isso: soma-se o custo das matérias primas mais o lucro do patrão e divide-se o valor entre os compradores potenciais. Muito logicamente, essa fórmula não chega nem perto do que se estabelece como valor para a arte. Enquanto esse cálculo colocaria uma pintura ali na casa dos R$ 20,00, faria com que algumas peças de teatro tivessem um custo astronômico.

Uma peça de teatro pode ser apresentada durante meses e meses com casa cheia e ainda assim a conta não bate. Infelizmente, ainda não é possível colocar alguns milhares de pessoas em pé em um estádio como se faz com a música mais popular. E mesmo se fosse, convenhamos, a proposta do teatro não é essa.

Entra em cena, portanto, o patrocínio, privado e federal. Com o patrocínio, determinar capitalisticamente o valor de uma obra de arte fica impossível. O governo possui alguns programas que injetam dinheiro diretamente em manifestações artísticas e ainda programas de incentivo para empresas. A famosa Lei Rouanet é um exemplo desse segundo caso, onde uma empresa pode dedicar parte de seu imposto de renda para uma obra de arte.

Esses dois programas já permitem alguns importantes acontecimentos culturais que normalmente não seriam nem pensados. É o caso da vinda para o Brasil do Cirque du Soleil ou do Ballet Bolshoi. Neste aspecto, a lei funciona perfeitamente. Também foi a Lei Rouanet, junto com a Lei do Áudio Visual (de funcionamento semelhante) que permitiu que o cinema brasileiro também agradasse ao grande público e voltasse a disputar o Oscar e o Leão de Ouro.

E é aí que mora o perigo. Quem se arriscou a sondar a possibilidade de ir ver o Cirque du Soleil descobriu que o ingresso custava cerca de R$ 250. Frente a esse valor, o público começa a pesar que o Cirque du Soleil não volta para o Brasil tão cedo, que não existe um espetáculo semelhante no mundo, que a produção é muito boa e etc. Ainda assim, soa injusto que mesmo com duas mega operadoras de crédito como patrocinadoras (Bradesco e Visa), o ingresso seja esse absurdo todo.

A lei é injusta? Não. Da mesma forma que esse espetáculo teve valor exagerado, a mesma lei permitiu que muitos outros objetos de arte tivessem valores reduzidos ou pudessem ser apresentados gratuitamente. Ironicamente, essas apresentações gratuitas também não contribuem para que se estabeleça um valor adequado para o consumo de arte, de forma que o público pagante se sinta confortável e o artista seja remunerado adequadamente.

Idealisticamente, seria maravilhoso que essas manifestações todas fossem acessíveis ao grande público eternamente, porém as leis e programas de incentivo culturais não durarão para sempre. A arte precisa ter seu valor de consumo estabelecido mercadologicamente por um motivo bastante simples: onde houver a possibilidade de uma atividade econômica rentável, haverá um número maior de atores.

Não se trata de pensar na ganância dos produtores, mas sim envolver um número maior de pessoas na produção cultural, gerar empregos, pagar impostos e contribuir para o crescimento da sociedade, tanto educacionalmente quanto economicamente.

Por enquanto, a única voz ativa desta filosofia é, pasmem, o ministro Gilberto Gil. É claro que seu discurso é ainda puramente teórico, mas é a demonstração de uma vontade política muito interessante e nova: que a arte e a cultura sejam um vetor econômico. E se for, incentivo governamental ou não, haverá mais produção, mais espaços culturais, mais atenção da mídia, mais público e mais patrocínio. É o melhor dos mundos.

Talvez haja algum efeito colateral nesse processo todo. Possivelmente, com a maior abundância de produção cultural, coisas não tão boas surgirão. Então a próxima vez que você sair do teatro rasgando o canhoto do ingresso com os dentes e xingando o artista, acalme-se: é apenas um sinal de que a cultura está se ampliando. Boas peças ruins!

Leia as colunas anteriores de Felipe Tazzo:

? Emoções embaladas para viagem


? Razões pelas quais o CD não vai desaparecer


? Diversão e/ou arte


? Brigando por uma fatia do bolo


? Carteirinha pra cá, carteirinha pra lá...


Quem é o colunista: Um tal de Felipe Tazzo.

O que faz:Publicitário, produtor cultural e da meia noite às seis, escritor. Autor de O Livro Das Coisas Que Acontecem Por Aí

Pecado gastronômico: Tudo o que for picante.


Melhor lugar do Brasil: Os butequinhos sujos do interiorrrrrrrr.

Fale com ele: acesse o blog do autor

Atualizado em 6 Set 2011.

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