Guia da Semana

Democratização da arte

Visando incluir pessoas através da cultura, Thiago Cóstackz expõe famosos em obras clássicas e sustentáveis, com estilo contemporâneo e pitadas de brasilidade

Unir celebridades para participar de uma exposição manifesto em prol do futuro Museu de Arte Contemporânea, que terá como endereço a região Nordeste, é possível?

Para o artista plástico e ativista Thiago Cóstackz, sim. Pregando o respeito ao planeta, o potiguar montou um acervo fotográfico com 11 personalidades, vestiu-as com tecidos ecológicos e criou uma releitura de obras clássicas para expor em um espaço adaptado no Shopping Center 3, aberto ao público desde o dia 1º de setembro.


Carolina Dieckmann, Fernanda Tavares, Paulo Zulu, Dalton Vigh, Carlos Casagrande, Isabela Fiorentino, Mariana Weickert, Jaqueline Dalabona, a princesa Paola d'Orleans e Bragança, Laura Wie, a Miss Brasil Larissa Costa e Nany People não cobraram cachê e abraçaram a causa da mostra Mitos & Ícones. O resultado? Mais de 30 mil visitas em apenas duas semanas. O Guia da Semana conversou com o artista plástico para conhecer melhor o projeto que atraiu grandes personalidades em torno da inclusão social.

Guia da Semana: Quando surgiu a ideia de montar uma exposição com celebridades no papel de obras clássicas e, junto a isso, abordar o tema sustentabilidade?
Thiago Cóstackz:
A mostra manifesto recebeu algumas críticas das pessoas por usar celebridades e não apenas ícones da arte. Mas pergunto para as pessoas como fazer para fundar um museu no Norte e Nordeste, onde existem os piores índices de desenvolvimento humano no país, falando de Picasso e Renoir, elementos que são tão distantes do povo. Como não teria êxito algum, preferi chamar a loirinha da novela das oito, a top model, o galã, e transformei a obra de arte da antiguidade em uma releitura contemporânea, onde inseri o meu trabalho de maneira ativista.

Guia da Semana: Qual o propósito dos organizadores?
Thiago:
As pessoas que estão envolvidas no projeto acreditam que não há desenvolvimento humano, futuro, sem pensar na qualidade da água e no respeito a todos os seres do planeta. A exposição não reflete só isso. Quando você vê a liberdade guiando o povo da Revolução Francesa (no quatro de Delacroix) sendo representado pela Nany People, percebe que não poderíamos falar da preservação dos animais sem falar de direitos humanos. Nada melhor do que ter uma transexual retratando os homossexuais em plena sociedade contemporânea, um dos temas mais discutidos hoje nos países desenvolvidos. É interessante imaginar que 10 mil pessoas visitaram a exposição na primeira semana. Só isso fez valer a pena todo o trabalho.

Guia da Semana: Quais foram os materiais utilizados na exposição?
Thiago:
Tornou-se um trabalho ativista de body-art (pintura corporal). Os vestidos e as perucas são todos de material reciclado, feito de garrafa pet, como os vestidos de Maria Antonieta e da Rainha Elisabeth I que não têm costuras, feitos à base de cola acrílica. Os cenários são todos executados a partir de restos de demolição, onde uma geléia especial reaproveita 100% a água e  não usa eletricidade em seu processo artesanal, secando ao sol e sem necessidade de ir ao forno.  A tinta, à base de água, não polui os mananciais. Inseri elementos ameaçados. Aqueles animais não são fotomontagens, são emprestados pelo Ibama e que foram apreendidos em cativeiros ilegais. Tudo que fiz foi provar que a moda pode sim ser ecológica.



Thiago Cóstackz na abertura da exposição em São Paulo

Guia da Semana: Quais as dificuldades que você teve para fazer esse trabalho e trazer essas pessoas?
Thiago:
Tive muitas negativas, porque as pessoas não acreditam que a arte tenha um poder transformador. Muitos artistas falaram: "Mas como a minha imagem vai ajudar a fundar um museu? Isso é coisa para o governo!". Eu ficava bravo e respondia: "É uma atitude muito covarde de sua parte isentar-se de qualquer responsabilidade social. O povo deveria saber como você pensa!". Outros falaram que sem cachê não fariam nada.
Em compensação, cheguei a um grupo muito responsável, que se propôs a entregar sua imagem corajosamente nas minhas mãos para que eu pudesse realizar essa interferência. Acabamos por formar um time que é conhecido do agricultor a madame rica e dessa forma o projeto consegue chegar e se democratizar em todos os meios.

Guia da Semana: A mostra faz parte do projeto para o primeiro museu de arte contemporânea e sustentável do Brasil. Qual a proposta dele?
Thiago:
Pesquisando e estudando sobre o assunto, descobri que o Norte e Nordeste não têm nenhum museu nessa linha. Aliado a isso, a situação da região é muito preocupante e você tem vontade de mudar as coisas. Eu imaginei montar um espaço para ajudar a botar um espelho dentro dessa sociedade, já que a arte contemporânea tem um poder transformador muito grande. A ideia é unir o meu trabalho de artista plástico e ambientalista com uma causa que acredito muito, que é a democratização da arte e inclusão social.

Guia da Semana: Como ele pretende se estabelecer?
Thiago:
O museu nasce sem nenhuma ajuda governamental e vai se instalar em um shopping do Rio Grande do Norte para receber pessoas de A a Z. O intuito é trazer a arte para o cotidiano das pessoas. Com isso, ele ganha alguns privilégios, como um espaço amplo, com ar condicionado e segurança. É importante dizer que embora a estrutura do Museu não seja definitiva, ela se propõe a ser sustentável, até mesmo dentro do shopping. O piso vai ser feito de restos de demolição, que é uma técnica nova de revestimentos Eliane. Também será abastecido por energia solar e as madeiras serão provenientes de áreas reflorestadas, ou seja,  até a sua estrutura física do espaço responde com sustentabilidade.


Deusa da Floresta Tecendo a Imortalidade - Laura Wie e Dalton Wigh

Guia da Semana: Que obras ele pretende abrigar? Tem alguma diferença entre os outros acervos de museus?
Thiago:
Qualquer obra de arte doada ao museu primeiro tem que provar que ela foi desenvolvida com respeito ao meio ambiente, ou seja, o artista não pode usar tinta óleo, que polui os mananciais de água (tem que ser a base de água ou acrílica); as telas dos quadros e estruturas não podem usar madeira crua, tem que ser certificada; enfim, nenhum material poderá ser extraído de origem vegetal ou animal de maneira predatória. Isso tudo vai ser verificado por 10 pessoas, que serão uma espécie de curadores do museu. O espaço vem para tentar plantar o homem no seu lugar no planeta, como um organismo vivo assim como os outros, só que com uma responsabilidade muito maior.

Guia da Semana: Por que o Museu não foi lançado diretamente no Rio Grande do Norte?
Thiago:
Montamos antes em São Paulo para que ele ganhar força na mídia e possa receber obras de arte de artistas locais antes de chegar ao seu objetivo, para constituir o acervo do museus. Depois ela vai para o Shopping Mueller (24/9), segue para Brasília, Belo Horizonte e Salvador. Em novembro vai para a Europa, passando por Florença, depois Noruega, Finlândia, Suíça e Alemanha. A mostra retrata nua e cruamente a filosofia que o museu vai ter. São ícones da história que todo mundo já viu ganhando uma releitura com incremento de brasilidade muito próximo das pessoas.

Guia da Semana: Quais são seus próximos projetos?
Thiago:
Eu tenho dois projetos de amplitude internacional. Um envolve a rainha Silvia da Suécia, que é ativista ao extremo, tanto pelos direitos humanos quanto pelo direito dos animais. O outro envolve o planejamento do Shopping Center 3, que vai desenvolver várias ações que mostrem as pessoas como viver de maneira ecológica. Devido ao sucesso, penso em fazer o Mitos e Ícones 2 no próximo ano, mas ainda não tem nada confirmado.

Atualizado em 10 Abr 2012.

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