Guia da Semana

Dentro d´água

Espetáculo encenado dentro de um poço busca refletir sobre sentimentos e lembranças

Golik e Candiotto: gripes, otites e sentimentos
Foto: Divulgação

Angústia. Essa talvez seja a primeira sensação do espectador que for ao CCBB para assistir ao espetáculo O Poço, interpretado pela dupla Alexandra Golik e Carla Candiotto.

Um dos motivos é o espaço em que a peça está sendo encenada, o cofre original da primeira agência do Banco do Brasil em São Paulo. As apresentações acontecem em um local escuro, de 8,80m de largura por 4,20m de comprimento, com capacidade para apenas 20 espectadores.

A sensação, porém, deve ser substituída rapidamente pela curiosidade sobre o cenário da montagem, um poço com mais de 300 litros de água. Durante quase uma hora, cinco vezes por semana, as atrizes se apresentam com o figurino completamente encharcado. "Gripe, otite, começo de pneumonia... a gente passa por isso freqüentemente" , comenta Candiotto, com bom humor.

Foto: Divulgação
A água utilizada na montagem normalmente é aquecida por meio de um processo que leva cerca de uma hora. O procedimento, porém, não as livra de certos imprevistos. No dia em que a reportagem assistiu ao espetáculo - uma fria e chuvosa tarde de maio - não havia sido possível aquecer a tempo, o que fez com que as atrizes representassem na água gelada.

Primeira incursão fora da comédia da companhia da dupla, a Le Plat du Jour, o espetáculo, poético e introspectivo, conta a história das duas últimas pessoas que restaram no planeta e que estão dentro de um poço, sua única fonte de sobrevivência.

A água do poço, porém, só brota por meio de seus sentimentos, reavivados por lembranças. Toda a ação existente no espetáculo é baseada nas sensações das duas personagens, que passam o tempo todo tentando lembrar de suas vidas para evitar que o poço seque.

A idéia de representar dentro de um poço surgiu antes mesmo do texto. "Sabia que gostaria de falar sobre a falta de água, mas não queria aquele discurso superficial e panfletário. Foi aí que surgiu a idéia de fazer uma metáfora entre água e amor" , conta Golik, que também é autora do espetáculo.

O resultado é um espetáculo denso e carregado de subjetividade, evidenciado pelo competente trabalho de expressão corporal desenvolvido pelas atrizes sob a direção do bailarino e coreógrafo Sandro Borelli, e que causa uma inquietação no espectador que definitivamente não é fruto só do claustrofóbico espaço.

O poço: 300 litros de água para falar sobre o amor
Foto: Divulgação

"O objetivo era fazer com que o espectador se lembrasse de suas próprias experiências e sentimentos, com as personagens tentam o tempo todo fazer" , lembra Candiotto.

Com tanta carga emocional, o fato de representarem molhadas acaba se tornando um elemento secundário - para elas e para o público. "O mais complicado é resgatar a emoção, que tem que estar presente de maneira contida, para não virar uma novela mexicana. É o fio mais tênue: fisicamente a gente domina, o texto a gente sabe, e a água a gente dribla" , afirma.

A idéia inicial da companhia, porém, de reflexão sobre o esgotamento da água, é abordada de maneira distante, quase imperceptível, em um espetáculo que evoca muito mais os sentimentos e as lembranças - ou a falta delas.

Atualizado em 6 Set 2011.

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