Guia da Semana

Desabafo eleitoral

"Pensei em escrever sobre alguns trabalhos da 29ª Bienal ou algum espetáculo em cartaz, mas nessa reta final das eleições, o assunto fervilha e fica impossível não se pegar com muitos pontos de interrogação"

Foto: Getty Images

1 - Por que nos debates, ao serem disponibilizadas oportunidades livres sobre os temas escolhidos para indagar as plataformas políticas dos concorrentes, nenhum candidato trouxe a cultura como matéria fundamental, como fizeram com educação, transporte, segurança etc?
2 - Por que os programas de governo apresentados pelos candidatos atuam sobre a cultura de maneira genérica e nada concreta?
3 - Por que cada vez mais se candidatam a cargos públicos figuras provenientes de setores culturais?
4 - Por que os meios de comunicação não trazem a cultura como tema de interesse nacional?
5 - Por que os artistas se mantêm reclusos durante toda a eleição?
6 - Por que a cultura não é compreendida como ação política?
7 - Por que o mercado cultural não apresentou propostas aos candidatos ou provocou o reconhecimento de sua importância?

Esse emaranhado caótico que se revela de forma tão precisa, perpassa algumas condições sobre a relação entre cultura e sociedade. Em primeiro lugar, é preciso notar que, se para a imprensa e candidatos a cultura não é material significativo, relevante, é devido ao fato de que a população/eleitor pouco se importa com sua existência.

Sem qualquer interesse do eleitorado, olhar a cultura é perder tempo e o discurso deve ser estrategicamente empregado a temas subornáveis aos nossos anseios. Quem não quer ouvir a promessa de aumento de salário, de mais empregos, de melhorias nas escolas, de mais unidades hospitalares, de mais segurança? A relevância desses itens determina ao desinteresse pela cultura seu anulamento. E se não interessa ao eleitor, não interessa aos candidatos. E se não interessas a eles, então por que a imprensa perderia tempo com isso? Não perde. Como qualquer empresa, dá-se valor àquilo que se revela bom produto de venda. E cultura no Brasil não vende.

Não vende interesse, sobretudo, porque não vende mais pensamento. A ilusão de ser o ambiente cultural, fundamental ao desenvolvimento crítico da subjetividade, chegou ao limite. As empresas não o têm mais como instrumento para a formação de novos costumes, a partir do que deveria ser mudanças de existir dentro da mecânica social. Ao mudar o sujeito, muda-se também seus hábitos, sua maneira de se relacionar com as coisas, com as pessoas e com as ideias. E sob o mesmo argumento anterior, por que deverá o empresariado investir numa cultura, cujo subproduto custa caro e nada propicia de fato?

O investimento cultural limitou-se, nas últimas décadas, principalmente aos discursos de marketing que, ao contrário da reformulação da subjetividade para criação de outros parâmetros de desejo e consumo, limitou-se a criar estratégias de convencimento de seu consumidor dentro daquilo que ele já consome por inércia. Vender mais do mesmo para o mesmo é diferente de gerar outras ofertas para se conquistar outros consumidores. E vender para o mesmo significa congelar a estratégia a partir da segurança do que é garantido, ainda que isso limite o próprio contexto capitalista de gerenciamento de qualquer negócio.

O que deveria ser uma atribuição do mercado cultural - processos de expansão de sua atuação -, afundou-se ao serviço desse marketing que propõe discursar por argumentos já vendidos. Nossos produtores e artistas se limitam a servir à máquina, ao invés de comandá-la, e isso se deve ao fato de que nossos artistas pouco significam na realidade, há não ser como produtos inferiores de entretenimento. Cabe ao artista mudar esses princípios, tanto por suas proposições artísticas, quanto na negação do servir despropositado, assim como no redesenhar a cultura como instrumento de consolidação política na formação do indivíduo.

Afinal, os artistas estão aí. As novelas possuem audiências gigantescas se comparadas aos telejornais. Um cantor popular reúne multidões abertas ao sentir e não ao contexto político de uma ideia partidária. E foi aí que a política, de maneira inteligente, encontrou seu novo rosto na face popularesca daqueles que mais se aproximam da intimidade do eleitor e de seus desejos: os artistas.

As eleições de 2010 ficarão marcadas por figuras bizarras, que se multiplicam no seio da cultura industrializada para a produção descartável, enquanto os artistas permanecem mudos na expectativa de não perderem os espaços conquistados no interior do mercado. A cultura hoje serve a política de maneira patética e imbecil. E a política redesenha na cultura um novo papel na nossa sociedade: a de bobo da corte.

As respostas das questões iniciais são simples:

1 - Porque não interessa desenvolver a cultura no país.
2 - Porque são absolutamente ignorantes sobre o que venha a ser cultura.
3 - Porque os partidos e esses artistas são oportunistas da pior espécie.
4 - Porque a mídia tornou-se alienada e é sustentada pelo apelativo e pelo vulgar.
5 - Porque ninguém quer perder a oportunidade de continuar fazendo parte dos que "se dão bem".
6 - Porque a ignorância é o maior fundamento da nossa educação.
7 - Porque esse tal mercado é uma invencionice manipuladora para condicionar o artista e impor à arte limites.

Em resumo, a cultura no Brasil não passa mesmo de um Tiririca.

Leias as colunas anteriores de Ruy Filho:

Isolado de si mesmo

A favor, seja como for
 
Apito final?

Quem é o colunista: Ruy Filho.

O que faz: Diretor e dramaturgo.

Pecado gastronômico: Carpaccio de pato do Piselli.


Melhor lugar do Brasil: Salvador fora de temporada.


Fale com ele: ruyfilhosp@yahoo.com.br ou acesse o blog do autor

Atualizado em 6 Set 2011.

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