Guia da Semana

Desafio gramatical

Estudantes de jornalismo seguem os rastros de Lygia

Da esquerda para a direita: Leonardo, Wilker, Lygia e Flávia

Recordo-me das aulas de análise sintática cujo tema central era a crase. "Ocorre crase ou não?". A sala, visivelmente dividida, perdia-se em meio a tantas exceções e "picuinhas" da gramática normativa. A professora lançava novos desafios: "Em:´Entregou o prêmio a Lygia Fagundes Telles´, ocorre crase?". "Ocorre sim. Lygia é um nome feminino, assim admite o artigo", responde um aluno. A professora esclarece: "Não ocorre. Com personalidades consagradas, não se usa o artigo, a não ser que haja certo grau de intimidade com a pessoa. Lê-se o livro de Camões e não do Camões".

Último ano de faculdade costuma ser um martírio. Confundem-se cansaço, ansiedade e pressa. Talvez o maior responsável seja o TCC, o famoso trabalho de conclusão de curso. Eu e mais três colegas de curso delimitamos o formato e tema: um documentário de vídeo sobre a escritora Lygia Fagundes Telles. Houve quem nos desacreditasse. Frases como "Ela não fala mais com ninguém" e "Mudem de tema" foram recorrentes. Após entrevistas com figuras que eu jamais imaginava conhecer, como o grande crítico Antônio Cândido e o escritor Ignácio de Loyola Brandão, faltava a grande entrevista: Lygia.

Muitas foram as tentativas: telefonemas e até uma carta enviada à autora. A conclusão do trabalho se aproximava e nada de resposta. Certo dia, recebi um telefonema do escritor baiano Suênio Campos de Lucena, amigo pessoal e organizador dos mais recentes livros da autora. "A pedido de Lygia, ligo para oferecer um vasto material para o trabalho de vocês". A princípio, não esbocei nenhuma reação ante tamanha surpresa.

Posteriormente, consultamos o acervo pessoal da autora. Mas ainda faltava a entrevista. Eis que em outubro, às vésperas da entrega do trabalho, a missão se cumpre. Em uma tarde de sábado, comparecemos ao apartamento de Lygia. A escritora nos recepcionou de forma calorosa. Vinho do porto, biscoitos e refrigerantes foram oferecidos. A entrevista foi curta, mas tempo suficiente para a autora emocionar-se ao falar do segundo marido Paulo Emílio Salles Gomes e do filho Goffredo. Ao final, saímos com o material gravado e a superação de um desafio.

Semanas depois, concluímos o vídeo e o enviamos a todos os entrevistados. Alguns comentaram, outros não. "Por favor, o Wilker?", atendo o celular. "Aqui é a dona Lygia Fagundes Telles. Querido, obrigado pelo trabalho. Vocês foram extremamente cuidadosos. Estou emocionada. Não tenho palavras para agradecer". Se a escritora não tinha palavras, eu tinha todo o direito de não dispor de nenhuma delas naquele instante. Segundos depois, agradeci, sem conter a euforia. Houve ainda mais telefonemas. Lygia comentava sobre o vídeo, desejava-me um ótimo final de ano e despedia-se com um caloroso "abraço, querido!".

Pudera eu novamente voltar àquela aula de análise sintática. Tomado, sim, por alto grau de presunção, bradaria: "Perdoe-me, professora, mas, para mim, o correto é "Entregou o prêmio à Lygia Fagundes Telles".

Quem é o colunista: Wilker Sousa

O que faz: jornalista

Pecado gastronômico: torta de limão


Melhor lugar do Brasil: o horizonte da Praia da Joaquina, em Floripa


Fale com ele: wilker.sousa@gmail.com

Atualizado em 6 Set 2011.

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