Guia da Semana

Desconstrução teatral

Diretor Enrique Diaz fala sobre o sucesso absoluto de público e de crítica da montagem de In On It, que desnuda a criação artística por meio de uma narrativa fragmentada

Foto: Divulgação


Depois de dirigir os premiados espetáculos Ensaio.Hamlet e Gaivota - Tema Para Um Conto Curto, o ator e diretor Enrique Diaz volta à cena teatral com mais um sucesso de público e de crítica: In On It. Com texto de Daniel MacIvor, a peça estreou no Rio de Janeiro em 2009, e está em cartaz em São Paulo desde 15 de janeiro. A montagem leva ao palco dez personagens, todos vividos por Emílio de Mello e Fernando Eiras. Em cena, três momentos diferentes se entrelaçam: um homem escreve uma peça sobre alguém que sofre um acidente, dois amantes veem seu amor terminar e, no último, dois homens contam esta história.

O pano de fundo das cenas é formado por paredes descobertas, duas cadeiras e uma iluminação que caracteriza cada diferente realidade. Durante a trama, o espectador presencia momentos de humor e drama, além de vivenciar o processo de criação teatral. A cada cena, os atores expõem a construção e a desconstrução ficcional, o que confere à encenação uma estrutura metalinguistica característica dos trabalhos de Diaz. Confira a entrevista exclusiva que o diretor concedeu ao Guia da Semana.

Guia da Semana: O que mais te motivou a montar In on It?
Enrique Diaz: O texto. Eu vi uma montagem em Nova Iorque e fiquei muito impressionado com a qualidade do texto, com a estrutura e de como ele convidava o espectador a embarcar naquele mundo que é meio incompleto. Além disso, é uma peça que trabalha com as emoções, tem uma estrutura sofisticada, mas dá muito espaço para você se envolver. E como eu trabalho muito com metalinguagem, e essa peça permite esse uso, eu fiquei com essa possibilidade de projeto na cabeça.

Guia da Semana: Você chegou a falar a alguns veículos que sua montagem supera a de Nova Iorque. Em quais aspectos você considera sua encenação superior?
Diaz: Na verdade eu falei isso informalmente, porque não faz muito sentido falar isso por aí. Mas o texto pede uma não-cenografia, um espaço vazio no teatro mesmo.E quando eu vi o espetáculo, o próprio autor dirigia e atuava.  Era uma peça só de ator. A nossa também é basicamente montada no ator. Mas, primeiro, eu acho que os dois atores da nossa montagem estão incrivelmente prontos para esse trabalho. E o acabamento de lá não tinha o mesmo capricho. A nossa é uma peça minimalista, mas tem uma luz super elaborada. O palco em São Paulo também nos ajuda muito. Além disso, a montagem que eu vi era mais apoiada na comédia. A daqui tem mais alternâncias, mais equilíbrio entre comédia e drama. Em vários sentidos ela parece que vai até o fundo da proposta.

Guia da Semana: E qual foi o critério de escolha dos atores?
Diaz: É uma peça muito sensível. Primeiro tem que ser atores maduros, pois eles fazem diversos tipos de personagens. E tem que ter uma inteligência muito grande em relação ao que é o todo da peça. Não adianta fazer só comédia ou drama. E, curiosamente, Emilio de Mello e Fernando Eiras nunca trabalharam juntos. Mas são dois atores muito sensíveis, capazes de uma delicadeza muito grande. E eu acho que isso aparece muito na peça. Além disso, eles são meus amigos e eu só trabalho com gente que eu gosto. Por isso, achei que eles eram as pessoas para fazer.

Guia da Semana: No palco, você mostra o processo de criação e de desconstrução dos personagens por meio de uma trama de cenas. Qual é a sua intenção ao levar ao público esse processo? O que você busca despertar com isso?
Diaz: Eu tenho uma tendência metalinguística. A explicação que eu tendo a priorizar sobre isso é que acho interessante que as pessoas percebam que qualquer realidade é uma construção. Mesmo pensando psicanaliticamente, qualquer imagem que você tem de si próprio ou do outro é uma construção. É uma forma de entender as coisas como mutáveis. Qualquer coisa, uma vez compreendida, pode ser transformada. Eu acho que no teatro é a mesma coisa. A gente fala de uma realidade e mostra que ela pode ser construída por meio do processo de criação, e as pessoas acreditam nessa realidade, mesmo sabendo que ela é construída. Esse é um processo muito interessante.

Guia da Semana: Quais foram as principais dificuldades que você encontrou durante o processo de direção do espetáculo?
Diaz: Esse texto é muito inteligente. Embora seja todo embasado, não é fácil entendê-lo. Há muitas camadas de humanidade, essa relação do humor com o drama, a ironia. E a dificuldade foi minha própria tendência de criar o espetáculo. E neste caso eu não tinha tempo para isso. Então, o nosso trabalho foi reduzir a gama de possibilidades de encenação e ir direto ao que o autor estava pedindo. Tivemos muito mais trabalho de mesa e de compreensão, do que trabalho físico. Esse processo de escolha foi difícil para mim, mas foi o grande lance da peça.

Guia da Semana: E quanto tempo durou o processo?
Diaz: Seis semanas. Muito menos do que eu trabalho geralmente. Foi um trabalho super concentrado.

Guia da Semana: A crítica está muito favorável ao seu trabalho. Como você enxerga esse sucesso?
Diaz: A gente tem tido uma sensação de fenômeno com essa peça. É muito bonito. Primeiro, porque a gente trabalhou nesse núcleo afetivo. Além disso, nós começamos em um teatro super pequeno no Rio, no Oi Futuro. Então, fomos super despretensiosos. A peça foi pegando muito bem. A duas temporadas do Rio lotaram todos os dias. Participamos de vários festivais brasileiros. Temos tido uma repercussão super acima da média. Nós temos uma recepção de entusiasmo das pessoas que é muito legal.

Guia da Semana: Você não acha que a sua linguagem pode tornar-se um tanto quanto hermética para o grande público e ficar restrita à classe teatral ou a um público mais elitista?
Diaz: Sempre vai ter um público que prefere essa linguagem e outro que não gosta disso, independente de entender ou não. Essa peça não é um bom exemplo, porque a questão da incompreensão está pressuposta no texto. Existem muitas maneiras de entender algo. Não acredito no hermetismo total. É claro que existem coisas que são obscuras, mas a vida é assim. Não vejo um grande problema nisso. Agora, se a gente seguir o raciocínio de que só o que é hiper claro é bom, só vamos fazer Zorra Total (programa de humor da Rede Globo).

Guia da Semana: Depois da temporada em São Paulo, a peça vai para onde?
Diaz: Como São Paulo é uma cidade que vive a cultura de uma maneira muito intensa e tem uma população que vai muito ao teatro, a tendência é a gente querer ficar mais tempo em cartaz. O que a gente quer é fazer uma temporada longa em São Paulo. De qualquer maneira, a gente já tem o convite para ir para Curitiba, Porto Alegre e outras cidades. E eu como produtor, além desses convites, faria mais uma temporada no Rio, que é onde a gente mora e eu acho que muita gente ainda quer ver a peça.

Guia da Semana: Para você, o que significa In On It afinal?
Diaz: Tem uma leitura linguística de que estar in on quer dizer que você está sabendo de algo, como se fosse uma coisa ilícita, um plano, uma co-participação. E, para mim, quando eu li, como eu não conhecia essa expressão idiomática, gostei muito da ideia que você pode estar dentro, in it, e ao mesmo tempo on it, falando sobre alguma coisa. É a ideia de que você é a matéria do drama e ao mesmo tempo você o comenta. E esse é um procedimento usado da peça.

Atualizado em 6 Set 2011.

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