Guia da Semana

Devoto de Jorge

Em seu 3º álbum Leo Maia revive influências da juventude e mostra que Tim Maia deixou não só um legado musical, como também bons frutos.

Foto: Divulgação


O estilo cadenciado e o "swing" na forma de falar, de cara remetem a um nome. Aparentemente nem tanto, mas ao soltar a voz, logo se vê traços de um dos músicos mais polêmicos do Brasil. Devoto fervoroso de São Jorge, Leo Maia lança seu 3º álbum e cumpre a promessa que fez ao padroeiro de homenageá-lo em seus trabalhos. Dessa forma, o músico encerra uma trilogia, e ao que parece, o santo ouviu suas preces. Leo emplacou o hit I go, I go na trilha da novela das oito, Viver a Vida, e tem outra canção intitulada Revanche figurando entre as paradas de sucesso nas rádios do país.

Filho de criação do síndico irreverente, Leo colhe agora os frutos de seu mais recente trabalho, Sopro do Dragão. Além de um espaço no horário nobre, o projeto conta com parcerias como Seu Jorge, uma regravação de seu ídolo Jorge Ben e duas homenagens à gafieira, da qual se diz apaixonado. Nessa mescla de samba soul, funk e baladas românticas, o músico acredita que está no caminho certo e pretende ganhar seu espaço com seu som próprio. Confira o bate papo que o Guia da Semana teve com o ele.   

Guia da Semana: Qual o grande diferencial desse novo CD comparado aos seus outros dois trabalhos?
Leo Maia: Em primeiro essa parceria que fiz com os metais. Nunca havia usado por não querer ficar com uma sonoridade parecida em todo os meus trabalhos. Fiz as pazes com a metaleira nesse disco e ficou bem legal. Além disso, tive a oportunidade de fazer uma homenagem linda a gafieira, em duas canções. Resgatei a onda do samba soul. É um disco voltado ao swing. Nesse álbum revivi muita coisa da minha infância. Dos shows que via do Jorge Ben, minhas idas na estudantina. Não sigo tendências. Não tenho essa pretensão de me espelhar no som de fulano ou sicrano. Faço meu som e toco para pessoas que curtem o que eu gosto.

Guia da Semana: Qual o truque para mesclar samba soul, gafieira e toques de black music em um álbum?
Leo: Eu não fujo da minha onda. Uso os elementos que estão aí, não é nada forçado. Por exemplo, uma linha de metal na gafieira, com o baixo de funk, isso é possível. Essa simbiose é legal quando se fala em música brasileira. Não sou inovador disso, muita gente boa já entrou nessa. Meu pai fazia isso em uma época que as pessoas seguiam estilos únicos e ele mesclava.

Guia da Semana: Você afirmou estar intuitivo nesse novo álbum. Como isso interfere no seu trabalho?
Leo: Às vezes raciocino, projeto tanto que acaba que as coisas não rolam. Dessa vez não, me deixei levar. É um disco com várias parcerias, tanta coisa legal. Foi feito tudo muito naturalmente. As canções foram nascendo quatro ou cinco meses antes de serem gravadas. Fiz mais de 60 músicas para escolher 14. Me deixo levar pelo que gosto. Tenho uma mensagem e estou passá-la. Quero me autorepresentar nas minhas canções e isso que me leva para frente. 

Guia da Semana: Porque escolheu regravar Homem do Espaço de Jorge Ben?
Leo: Essa música me chamou atenção na adolescência em bailes que eu ia do Jorge Ben. Sou fã e apaixonado por toda a discografia dele. Sempre quis homenageá-lo em algum disco meu e surgiu essa oportunidade. O álbum já tem a levada funk, soul, muito próximo do que ele faz e pensei: É a hora! Escolhi essa canção que eu não é muito conhecida do grande público, mas marcou para mim em diversos momentos da juventude, enquanto via tudo acontecer na música. 

Foto: Divulgação


Guia da Semana: Você disse que é um disco com lembranças da infância. Quais sua influências para compor seu som?
Leo: Às vezes me pego sentado, pensando e me lembro de ver meu pai ensaiando com a banda. Por volta dos anos 80. Aquela levada, aqueles sons ficam na cabeça e nisso brotam as ideias e lembranças. Uma emoção que eu sentia. Era tudo muito mágico. Vivi tudo isso e muitas pessoas não entendem que o meu som não é uma repetição, é meu sentimento. Eu aprendi tocar violão com ele, a primeira vez que entrei em um estúdio e vi uma música nascer, tocar na rádio e ganhar o país, foi com ele. É difícil às vezes imaginar um universo sem tudo isso que eu vivi.

Guia da Semana: Você fez nove das 14 faixas. Como é o processo de composição na sua mente?
Leo: Eu gosto do som. Pego um violão e vou me deixando levar por um ritmo. Tenho uma ligação grande com cinema e muitas vezes fico imaginando cenas. Aí começo a descrevê-las e faço as letras em cima das melodias que já criei. Por exemplo, eu estava vendo o Brazilian Day na TV e vi uma menina muito bonita cantando e dançando na galera e um homem com cara de bobo olhando pra ela. Na hora me veio a letra na cabeça, a de I go, I go, que está na novela,

Guia da Semana: E como surgiu esse convite para que I go, I go fizesse parte da trilha sonora de Viver a Vida?
Leo: Ouviram meu disco e a gravadora havia sugerido uma outra canção para entrar na novela. Curtiram I go, I go. E eu fiquei super feliz. A letra fala de uma menina que está lá, curtindo e o cara afim dela. Até que ela vai pra Nova York e ele vai atrás. E tem tudo a ver com a novela. Conversando com o Nasi ele me disse: 'Quantos compositores da pesada tentam e não conseguem colocar uma música na novela das oito e adorariam?' É um símbolo nacional e eu estando lá ganho um respeito e não deixa de ser uma conquista musical.
 
Guia da Semana: Você divide a composição de Amor à Moda Antiga com Seu Jorge. Como surgiu essa parceria?
Leo: Somos amigos desde os tempos das vacas magras. E sempre tivemos essa parceria musical, tocávamos juntos. Ele é um cara genial, muito generoso e a letra surgiu tem um tempo. Foi feita no meu disco anterior, mas eu achei que não tinha muita ligação com a proposta do álbum. Já nesse casou demais. Ela foi feita na casa dele. Estávamos no estúdio, de madrugada e falei 'Bixo, tem uma canção aqui que só fiz a primeira parte, o resto não veio'. Ele jogou o resto e saiu. Depois dei apenas uma finalizada e incluí nesse repertório que também tem tudo a ver. 

Guia da Semana: Qual a origem do nome do CD, Sopro do Dragão?
Leo: É uma simbologia de São Jorge. Sou devoto. E meus outros discos foram em homenagem a ele Cavalo de Jorge, Cidadão do Bem e agora o Sopro do Dragão.  Esse fecha uma trilogia. Foi uma promessa que eu fiz e foi cumprida.  

Foto: Divulgação


Guia da Semana: Você lançou os três álbuns ao longo de 5 anos. Acha que o mercado fonográfico hoje é favorável aos artistas?
Leo: A arte segue seu rumo. De alguma forma as pessoas querem se emocionar, ouvir canções e a industria vai de adequando a isso. Com essa parada de baixa venda de discos a valorização do humano está ganhando força. Favorece o cara que é bom de palco, bom de show. Poxa, várias carreiras vão se formando por conta disso. Tem gente aí com 20 shows no mês. A verdade é uma só, o povo não vai deixar de curtir, ir tomar sua cervejinha, ir dançar, se distrair, isso não para. E a arte, a poesia e a música estão presentes nisso tudo. Acho que deve haver uma fórmula para a organização disso tudo e vão achar.

Guia da Semana: Ao mesmo tempo que você grava músicas swingadas, não deixa de lado as baladas românticas. Seu pai fazia muito isso. É influência dele?
Leo: É sim, total. Sigo essa linha de raciocínio. Acho ela muito vitoriosa. A forma com que ele distribuía o repertório dava uma certa leveza e elegância. Se não, parece um CD feito para competir com DJ, porradão do começo ao fim. E na hora do love? É importante. Não sou muito atrelado a uma fórmula. Eu cresci ouvindo samba, numa casa de preto, ouvindo black music. Vi nascer o samba soul. Faço o que eu curto e misturo isso em um álbum.  

Guia da Semana: Com quem gostaria de dividir os palcos?
Leo: O sonho da minha vida é cantar com o Roberto Carlos. É ir uma noite naqueles especiais dele. Tenho vários sonhos com relação Roberto, sou muito fã. Queria que ele me emprestasse a Lady Laura pra gravar um DVD, ser convidado para cantar uma, ou qualquer parada. Canto nos meus shows Eu sou terrível e seria a emoção da minha vida.
  
Guia da Semana: O Brasil é mais aberto hoje ao chamado estilo Black Music Nacional?
Leo: A gente sente a onda e faz a nossa. A tradução aqui é muito mais interessante que a de fora, que absorvemos de lá. Por exemplo, a que meu pai fez, de por xaxado, baião, samba, com a parada de fora. Isso não existe lá. Por isso sou mais aficionado por essa relação que fazemos aqui. A música negra é mundial e não é nossa nem dos americanos. Ela vem lá da África. Estou ligado nas coisas que fazem por lá e vejo como ganha tendência no mundo todo. Misturo e faço o que aprendi com meu pai, com a galera que ia lá em casa. E aprendi nessa tradução. Eu já vi assim, pra mim é natural..     

Guia da Semana: Depois dessa trilogia, pretende lançar trabalhos diferentes?
Leo: Eu tenho vontade de fazer um DVD ao vivo e depois gravar u disco com uma pegada nova. Gosto de fazer álbum a cada dois anos. Preciso dar uma pensada, uma trabalhada, é bem corrido montar um. Mas agora seria mesmo o DVD. Já existe esse projeto, estamos conversando com as pessoas, convidando, definindo o tipo de sonoridade, vai rolar.

Confira o clipe da música Revanche!


Atualizado em 6 Set 2011.

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