Guia da Semana

Diversão e/ou arte

Quais as diferenças de palavras que para muitos tem o mesmo significado.

Foto: Photocase.de


Eu sou produtor cultural. Eu trabalho com cultura e busco formas novas para promover isso. Eu busco dinheiro em diversas fontes diferentes para financiar arte e cultura. E eu mesmo, às vezes, me pergunto o que são esses dois conceitos tão abstratos.

Não quero entrar na bizantina discussão do que é exatamente a arte, como ela é definida ou como ela se define por si só. Mas eu gostaria sim de entrar num mérito bastante peculiar de toda essa questão, que é a distância entre a arte e o entretenimento. Todas as manifestações do ser humano podem balançar entre um e outro. O teatro, a dança, a música, fotografia, artes plásticas, cinema, vídeo, animações, colagens, mixagens, enfim, tudo isso e mais um pouco pode pender entre a cultura e o entretenimento.

A distância é visível e, por bom senso, podemos entender facilmente essa diferença que normalmente, é baseada no nosso preconceito. Bukowski e Almodovar são arte. Já Paulo Coelho e Spielberg são entretenimento. Por enquanto está fácil, não é? E se formos pensar em Romero Britto? Aí dificulta. Romero Britto é um artista plástico do movimento pop, e lida com ícones do nosso dia-a-dia, em cores fortes e formas simples, porém longe de serem óbvias. Eu acho lindo, mas li críticas colocando-o numa situação mais ligada ao entretenimento do que à arte. Mas essa mesma crítica foi feita à Salvador Dalí e também ao Andy Warhol, por motivos parecidos.

E se formos pensar em Oliver Stone, que faz cinema holywoodiano, mas em mais de uma ocasião, ele destruiu a linguagem cinematográfica e construiu-a novamente, como em Assassinos por Natureza. Arte ou diversão? A fronteira é vaga e a definição de um e de outro, como eu disse, é subjetiva, mas não deixa de ser importante.

Tão importante quanto a diferenciação entre "artista" e "celebridade". Este último termo é típico da indústria do entretenimento. A separação entre esses dois arquétipos é importante por uma série de razões, a maior delas talvez sendo o fato de que a celebridade depende única e exclusivamente da fama. O artista não depende de nada. O curioso é que o termo foi tão bem empregado que hoje existem, no Brasil inclusive, celebridades que são, unicamente celebridades, pelo fato de que... Bem, de que são celebridades! É o caso de ex-participantes do Big Brother. Não são modelos, atrizes, atores, não cantam, dançam, ou tocam algum instrumento. Em geral, mal sabem se expressar e, mesmo assim, movimentam pessoas ao seu redor, ganham muito dinheiro e acabam mudando a vida de muitos.

Justo ou não, correto ou não, separar a celebridade do artista e separar o entretenimento da arte teve uma importância grande. No caso da arte x entretenimento, a separação ainda é difícil. É muito comum a arte se dispor unicamente ao entretenimento, a divertir. O entretenimento, afinal, é criado única e exclusivamente com ferramentas artísticas.

Hoje, como mercado de entretenimento crescendo a passos largos e produzindo grandes volumes de bobagens (e claro, algumas coisas incrivelmente boas), a arte pôde ter um lugar para expressão de si só. A arte se basta e acontece sendo sucesso de vendas ou não.

A separação do necessário sustendo do mercado gerou então duas grandes vantagens para a arte. A primeira delas foi a liberdade criativa. Alguns artistas puderam se dar ao luxo de pisar em muitos calos, serem controversos e criar coisas magníficas a partir conceitos bastante impopulares. Foi essa liberdade que criou artistas polêmicos. E que criou estéticas no mínimo, bizarras. Talvez seja isso que tenha aberto as portas para o Tim Burton, Marilyn Manson ou o Trent Reznor serem o que são.

A outra grande vantagem para a arte foi a ampliação de uma função até então menor: a pesquisa. Assim como em qualquer outra atividade do ser humano, como a ciência, o esporte e até a religião, a pesquisa cria resgate histórico, progresso, ampliação do entendimento e desenvolvimento de novas técnicas. Existe sim a arte que se presta a pesquisar a arte, a entender novos conceitos, a comparar e mesclar autores, criar novas técnicas e também a progredir em uma técnica específica. E assim como o conhecimento científico, a pesquisa requer grandes volumes de recursos para se desenvolver, às vezes sem nenhum retorno palpável. Nem tudo que é produzido no campo científico vira patente milionária.

Não é raro encontrarmos nos palcos, nas galerias e nos livros obras de arte que são frutos de uma intensa pesquisa que o artista se propôs. Neste momento podemos testemunhar a arte sendo desenvolvida longe do método do entretenimento e muito mais próxima do método científico. E não deixa de ser boa arte por causa disso. Só é mais difícil de entender.

Leia as colunas anteriores de Felipe Tazzo:

? Cultura e mercado. Cultura é um mercado?


? Emoções embaladas para viagem


? Razões pelas quais o CD não vai desaparecer


? Brigando por uma fatia do bolo


? Carteirinha pra cá, carteirinha pra lá...


Quem é o colunista: Um tal de Felipe Tazzo.

O que faz:Publicitário, produtor cultural e da meia noite às seis, escritor. Autor de O Livro Das Coisas Que Acontecem Por Aí

Pecado gastronômico: Tudo o que for picante.


Melhor lugar do Brasil: Os butequinhos sujos do interiorrrrrrrr.

Fale com ele: acesse o blog do autor

Atualizado em 6 Set 2011.

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