Guia da Semana

Dois perdidos numa noite suja

As personalidades dos protagonistas, de tão diferentes, acabam por se complementar e ajudar um ao outro

Foto: Isaumir Nascimento


A peça, escrita por Plínio Marcos em 1966, retrata a relação de Antonio e Paco, que dividem um quarto infestado por pulgas. Vivem em condições psicológicas e materiais precárias, e a conotação concreta da peça é a corrupção.

Na convivência entre esses personagens miseráveis, há uma intolerância imediata: eles estão mergulhados em dificuldades e a origem da discordância entre eles é o desgosto do bem alheio - a começar por um par de sapatos de Paco.

Paco reproduz a lógica do submundo: é ignorante e impiedoso. Tonho crê na oportunidade de desenvolver suas potencialidades profissionais e sonha em se estabelecer no mundo de forma efetiva e afetiva. Para isso, precisa de uma aparência asseada para ir em direção de seu destino almejado, como calçar um par de sapatos que represente sua dignidade.

Sendo assim, ele precisa que Paco empreste seu calçado, mas isso não acontece devido à desigualdade entre os dois - a premissa é a perversão dos valores para um entendimento.

Tonho é submetido frequentemente às provocações de Paco, que o julga ser homossexual diante de seu comportamento passivo com os colegas de trabalho. Enquanto Paco instaura o medo em Tonho, este reage perguntando pela sua falta de humanidade, de instrução e de valores que preserva sua honra.   

Mas surge uma parceria entre eles: enquanto Paco está aprisionado num modo vida regido pelo mal, Tonho, que está desamparado, transfigura-se na expectativa de Paco. Os dois negociam e encontram o caminho do meio.

Tonho, que acredita na gratuidade da amizade, faz um acordo com Paco e aceita os favores de se ter amigos. O que poderia ser a dinâmica de uma dupla transforma-se em discórdia. Paco, que reproduz a lógica da dominação do ambiente hostil, resguarda sentimentos que não demonstra, para não trair a si mesmo.

Tonho também preserva suas convicções. Ele adere momentaneamente a este círculo vicioso ao reparar sua situação sem esperanças, e abre uma fenda para a um crime passional. Acima de tudo, Tonho parece manter seu ideal. Cabe citar Jean Jacques Rousseau "O homem é bom por natureza, mas é a sociedade que o corrompe".


Leia as colunas anteriores de Renata Bar:

Ponto de encontro

Comportamento desmedido

Realismo Mágico

Quem é a colunista: Renata Bar Kusano.

O que faz: Publicidade e Propaganda (FAAP), uma aprendizagem em edição em vídeo e suas correlações.

Pecado Gastronômico: carré de vitela ao molho de hortelã e camarão à provençal! 

O melhor lugar do mundo: debaixo d´água.

Fale com ela: rebarkusano@gmail.com ou acesse seu blog



 

Atualizado em 6 Set 2011.

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