Guia da Semana

Doutores da arte

Importantes guardiões da ação do tempo sobre as obras de arte, os restauradores ainda carecem de espaço e reconhecimento no Brasil



Imagine se a Monalisa não tivesse recebido o tratamento adequado com o passar dos séculos? Provavelmente, mais famoso sorriso do mundo só existiria na lembrança da humanidade. Assim como a Vênus de Milo, que não passaria de ruínas, caso não fosse o trabalho atencioso dos restauradores, profissionais que com muito cuidado, paciência e habilidade, se dedicam a recuperar patrimônios históricos.

Anos atrás, zelar pela alma de obras era considerado um trabalho de artistas e arquitetos frustrados. Mas felizmente, a profissão ganhou espaço mundo afora, entre conservadores e restauradores de telas, esculturas, arquitetura, fotografias, documentos, livros, metais e muitos outros. Mas será que eles já conquistaram seu devido respeito em terras brasileiras?

Servidores públicos?
A iniciativa privada ainda não abriu totalmente os olhos para o setor. Desse modo, a maior parte dos restauradores costuma trabalhar para o poder público (em estátuas e edifícios de governos). Mas aos poucos, começam a aparecer oportunidades em ateliês e galerias particulares. Não importa a área, existem alguns pré-requisitos básicos para a profissão: criatividade e estudo intensivo sobre a história da arte. "A função requer profundo conhecimento da tecnologia de fabricação dos objetos, formação específica e habilidade manual, além de saber quais técnicas são permitidas no código de ética do restauradores", alerta Solange Zúñiga, presidente da ABRACOR (Associação Brasileira de Conservadores- Restauradores de Bens Culturais).

Patrimônio nacional

Mais popular na Europa, a profissão ainda engatinha por aqui - chegou no Brasil há menos de um século. O primeiro restaurador de quem se tem registro foi o pintor mineiro Edson Motta, que morreu em 1981, aos 71 anos. A sua obra chegou a ser homenageada por Carlos Drummond, que afirmou publicamente: "Edson Motta consumia o seu tempo na ressurreição da arte dos outros. Manter-se criador, sem egoísmo, antes dedicando-se aos outros, do passado como do presente, quantos serão capazes de realizar esse destino da maior simplicidade e pureza?".

Segundo dados do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), apesar da grande demanda, o mercado nacional encontra-se carente de restauradores. Cerca de 50% dos imóveis históricos tombados, encontram-se degradados. Outros 25% precisam de reformas visíveis. E um dos maiores motivos é a escassez de pessoas qualificadas para tocar projetos, devido ao fato da profissão ainda não ser reconhecida. "Existe um projeto no Congresso Nacional para regulamentar a profissão, mas ainda sem previsão de ser aprovado", explica Solange.

Sem cursos de nível médio ou de graduação disponíveis, um restaurador em potencial ainda tem poucas chances de carreira por aqui. Uma luz no fim do túnel são algumas instituições acadêmicas, que passaram a oferecer especialização na área. Entre elas, está a Universidade Federal de Minas Gerais, que oferece o único curso de graduação em restauração do país, recém-inaugurado. Até então, os interessados nesta forma de arte precisavam recorrer a cursos no exterior. Apesar de, neste caso, prática e da tradição precederem o conteúdo acadêmico, talvez seja um bom começo para a preservação do patrimônio artístico nacional.

 Nem sempre vale a pena

Os restauradores já começam a aparecer por aqui. Mas antes de procurar um especialista para reformar aquele velho quadro da família, Solage avisa que em alguns casos, a recuperação total nem sempre é possível, ou deve ser realizada. "Nem toda obra pode ser restaurada, existem restrições. As estratégias de preservação não se restringem mais à restauração e buscam ações que tenham impacto na coleção e no ambiente em que está inserida".

Atualizado em 6 Set 2011.

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