Guia da Semana

E se a realidade não existiu?

Leia a crítica do espetáculo A Noite Mais Fria do Ano, novo trabalho de Marcelo Rubens Paiva

Foto: Divulgação


Fui ao Espaço dos Parlapatões, em São Paulo, esperando realmente alguma coisa de especial na peça A Noite Mais Fria do Ano, de Marcelo Rubens Paiva. Fosse o cenário, os objetos, o figurino, um penteado, a trilha sonora, algum ator bacana e, sobretudo, o texto. Encontrei quase tudo. Pensei nos livros dele já lidos, fiz paralelos entre frases, expressões e assuntos. Há os que acreditam, que o que interessa mesmo é a qualidade das encenações, sem importar se o diretor, autor ou ator é conceituado. Depende mesmo é do grau de conceito dos mencionados. Na peça, Paiva, além de autor é também o diretor e o responsável pela sonoplastia. E escolheu a dedo os amigos que gostaria de ver no projeto, desde a cenografia, luz, produção executiva, programação visual e principalmente, o elenco: são quatro atores, segundo ele, "os melhores da cena teatral paulistana": Paula Cohen, Hugo Possolo, Alex Gruli e Mário Bortolotto.

A peça fala de amor e dos limites das relações humanas. Discute aspectos do convívio amoroso: competição, traição, machismo, solidão e violência física contra a mulher. A imagem feminina é situada numa perspectiva, a princípio, reducionista e até machista. Na primeira parte da peça, quando Mário Bortolotto (editor-chefe) e Alex Gruli (o fotógrafo subalterno) discutem a suposta traição da esposa do segundo, os clichês vêm à tona: "não se deve confiar em mulher", "elas são carentes e vulneráveis", "para a mulher, o dinheiro é mais importante", e os atores soltam as pérolas conhecidas sobre os atributos físicos femininos. Velhas imagens do repertório do literato Marcelo Rubens Paiva, mas que dessa vez soa mais como uma crítica aos clichês e à maneira como a mulher sempre é retratada nas obras e na vida.

Parece estabelecido o assunto da peça: a condição feminina. Na verdade, é um pouquinho mais complexo. A dramaturgia de Paiva, bem como sua literatura, é um jogo de espelhos, onde o reflexo é o dos conflitos vividos por ele, naquele momento. No caso, meados de 2006, quando a peça foi escrita. É notável a busca do autor para medir a intensidade e relevância dos próprios sentimentos.

A maior curiosidade da peça é o uso da metalinguagem. Uma peça dentro da peça. Os personagens se distanciam para entender o desabafo amoroso. Três personagens encenam seus dilemas para o autor da peça, no caso, o quarto personagem. Mescla-se ficção e realidade e o que parece confuso, pela ideia proposital do distanciamento, nos aproxima de verdade da vida daqueles quatro - na imaginação dos autores, Marcelo Paiva, o autor real, e o autor em cena, o Dan. É mais que o fazer teatral, é prazer que nos atinge a consciência. A obra não é meramente apreciativa. O artifício da metalinguagem nos faz questionar ali mesmo, de imediato, o que é vivido no palco. Não tem essa de apreciar a peça por quase duas horas e só depois, ao chegar em casa, saber se reverbera. A descontinuidade ajuda a pensar a peça o tempo todo. Com a passividade reduzida, o contato com a narrativa possibilita a compreensão larga e simbólica da peça, sem eliminar o caráter lúdico da apreciação.

Um bom ator molda-se de acordo com as questões do texto, não ultrapassa o que já está lá. Nem bom, nem ruim, específico. O texto do Paiva permite flexibilidade e os atores agem como performers, em linhas gerais são ótimos. Eles pensam o que estão fazendo, as marcações são libertadoras, apropriam-se do espaço, das reações da plateia, fazem graça com o celular que tocou na última poltrona, piada com a fama da Roosevelt de ser "mais balada que teatro" (ponto positivo que dá visibilidade à movimentação na cena teatral construída na Praça). Em dramaturgia, o ponto alto é a metalinguagem, que surgiu mais como uma necessidade e a vontade de querer montar duas peças já existiam em uma só, mas o que dá corpo ao projeto é a interpretação do elenco. É o inusitado encontro desses quatro criativos e o cultuado escritor, que faz o público pagar pra ver!
Quem é a colunista: Uma apreciadora apaixonada de arte.

O que faz: Produtora Cultural e Publicitária.

Pecado gastronômico: O prazer não deve vir acompanhado de culpa!

Melhor lugar do mundo: Um que tenha livros, museus, cafés e meus amigos.

O que está ouvindo no carro, iPod, mp3: Radiohead, PJ Harvey, Lykke Li e Strokes.

Fale com ela:  ke.ezaki@gmail.com ou siga seu Facebook.

Atualizado em 6 Set 2011.

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