Guia da Semana

Encontro com si mesmo

Colunista escreve a respeito da pela Mackinpó - estudo sobre o homem comum, encenado pelos aluno da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo

Foto: Getty Images

Mackinpó - estudo sobre o homem comum foi encenada no Teatro Laboratório da EAD/ECA/USP. É uma peça de Peter Weiss e seu título original é: Como se ensinou o senhor Mockingpott a Deixar de Sofrer.

É um drama tragicômico e musical que é rimado por completo. A história se passa com um homem tipicamente comum, de classe média, que um dia sai para comprar jornal e é preso sem nenhum motivo aparente.

Por ser a montagem de uma turma da Escola de Arte Dramática da USP (EAD), a peça tinha um caráter de experimento. A concepção cênica era o próprio exercício cênico, quer dizer, havia uma caracterísitica de ensaio no resultado final, diferente do improviso. Esse contexto da montagem afirmava a relevância fundamental do processo criativo.

O palco tinha fitas adesivas no chão que delimitavam espaços, os atores trabalhavam em linhas, avançavam em quadrantes e, com ajuda de objetos e o gestual, caracterizavam as situações do personagem. Não há como representar sem deixar um traço pessoal, mas a maneira da representação nesta peça era como se fosse de fora para dentro: gestos expansivos e caricaturados próximo do expressionismo.

Durante o espetáculo, eram trazidos elementos cotidianos como uma praça, uma obra, meliantes e o rádio que transmitia informação e que respondia ao conflito principal da peça: a trajetória do personagem Mackinpó buscando compreender  suas desventuras: sua prisão, seu casamento, seu emprego.

Tudo fugiu do domínio de Mackinpó. Seu estado existencial era contraditório, não conseguia encontrar em si a razão de suas perdas.

Ele recorre a  entidades representativas para compreender suas perdas e danos. Ao se submeter ao processo burocrático fica nítida sua insignificância.

Na busca do personagem, acumulou-se uma carga dramática. Ao liberar na fala, ao final, dizia: "Quem disse isso?". Ele era anônimo para si, entre a multidão e parecido com cada um da plateia. O decorrer de sua desventura trouxe o sentido surreal e absurdo da realidade ao dar existência a algo sem pertencimento. 

A cidade é o cenário, a dramaturgia e o existencial, mostrando claramente, como um muro branco, que respostas estão fora de nós. O sonho e a prosperidade estão contidos nos fluxos e atividades do cotidiano e Mackinpó quis remontar seu passado, mas foi, sim, passado para trás.

Foi trazido como linguagem nesta peça a cultura popular e urbana, pois as ruas e seus habitantes são forma e conteúdo e pontos de partida para narrar a trajetória. Quase inumano ou talvez anestesiado, diante de tantas perdas, a salvação de sua identidade flutuante está no mercado financeiro, nos fluxos de capital, na bolsa de valores. Quem sabe novos vínculos, uma nova história.

É considerável o respeito ao público ao deixá-lo compreender a história que se desenvolve a sua frente, sem a necessidade de um narrador contando o que acabou de acontecer em cena e sem a presença de personagens extremamente interiorizados que passam por situações difíceis e ainda nos explicam suas agruras.

Os atores atuaram bem individuados, não tinha uma característica de grupo que aperta as mãos, solta um grito e vai...  Havia a discriminação de particularidades como a afinação vocal de alguns que tinham a cena para si. Mas como havia inúmeros alunos para poucos personagens houve uma solução criativa da diretora Claudia Shapira: quatro atores representavam um personagem simultaneamente. As falas eram revezadas, todos os quatro presentes em cena numa partitura física.

Esta peça encerrou no último final de semana, mas outras turmas da EAD se apresentarão no Teatro Alfredo Mesquita, (Teatro Laboratório da EAD/ECA/USP).

A entrada é gratuita, o grupo aceita colaborações e a qualidade é superior.

Leia as colunas anteriores de Renata Bar:

Três Amigos e a Vida


Contato com o público

Qual a verdade?

Quem é a colunista: Renata Bar Kusano.

O que faz: Publicidade e Propaganda (FAAP), uma aprendizagem em edição em vídeo e suas correlações.

Pecado Gastronômico: carré de vitela ao molho de hortelã e camarão à provençal! 

O melhor lugar do mundo: debaixo d´água.

Fale com ela: rebarkusano@gmail.com ou acesse seu blog

Atualizado em 10 Abr 2012.

Compartilhe

Comentários

Outras notícias recomendadas

5 hotéis ao redor do mundo que são verdadeiras obras de arte

Confira locais com acomodações incríveis, mas que têm obras como protagonistas

Evolução dos emojis ganha instalação no Museu de Arte Moderna de NY

Os primeiros emoctions, criados em 1999, também entram para a coleção MoMA

6 motivos para visitar a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano em SP (e nem perceber que está na capital)

Local une arte, cultura, lazer, arquitetura e natureza, fazendo com que o visitante esqueça que está em SP

13 grafites em SP que todo mundo que ama arte deveria ver pessoalmente

Confira obras espalhadas pela cidade que merecem sua atenção

Na Semana da Criança, uma selfie vale um passaporte nos museus de SP; entenda

Para participar, é só postar foto com uma criança no Facebook com a hashtag #MuseusSP e apresentar na bilheteria da Pinacoteca, Casa das Rosas ou do Museu da Imigração

Unibes Cultural oferece programação especial e gratuita para o mês das crianças

Evento acontece até dia 31 de outubro e comemora o Mês das Crianças