Guia da Semana

Entre múltiplos e fragmentos

Exposição sobre obra de Fernando Pessoa evidencia as diversas vozes do poeta

fotos: Nathália Clark

De sobretudo, chapéu e usando pequenos óculos, Fernando Pessoa passava suas tardes pelos cafés da Baixa de Lisboa nas primeiras décadas do século XX. Essa imagem, quase uma casca, camufla uma multiplicidade de vozes a serem descobertas na exposição  Fernando Pessoa: Plural como o universo, no Museu da Língua Portuguesa.

A mostra, a primeira de um autor português no espaço, quer aproximar ainda mais o poeta de Tabacaria do público e mostrar a multiplicidade de sentidos em sua obra, reconhecida pela força expressiva de seus heterônimos.

"Se por um lado é um procedimento para muitos hermético e enigmático, por outro é tão simples de se entender, pois basta termos a consciência de que dentro de cada ser humano há variações e ninguém consegue ser o mesmo o tempo todo. Em Pessoa isso foi levado à potência máxima, às últimas conseqüências e com grande consistência intelectual", comenta Carlos Felipe Moisés, curador da exposição junto com o estudioso Richard Zenith.


Parede lateral do labirinto, trazendo a imagem que esconde as diversas vozes do poeta

A produção da exposição levou cerca de um ano. Os estudiosos contaram com a equipe do cenógrafo Helio Eichbauer para materializar a diversidade de vozes e as várias pontas de uma obra aberta. O projeto buscou também jogar luz sobre produções menos conhecidas, como o Livro do Desassossego, do semi-heterônimo Bernardo Soares, e textos em prosa.

Logo na entrada, o visitante é apresentado a essas faces de um mesmo rosto. Cabines para Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e Fernando Pessoa ele-mesmo exibem poesias que vão mudando quando o visitante se movimenta. Sons como a água do mar, máquina de escrever, passarinhos ajudam a materializar as personalidades para o público. A sexta cabine, intitulada Eu sou muitos, traz escritos de Barão de Teive e outros seis heterônimos menos conhecidos.

Linguagens e personalidades próprias que coexistem e se comunicam dentro do mesmo artista como num labirinto. O visitante é convidado a entrar nesse universo de poesias espalhadas, encaixotadas, sussurradas. "A ideia é sugerir a simultaneidade dessas vozes, pois elas se comunicam o tempo todo", reforça o curador. Caixas com manuscritos funcionam como vasos comunicantes de outros textos, espelhos refletem o visitante enquanto a poesia, emitida por cinco pequenas caixas de som, o rodeia. Livros com páginas abertas mostram a importância desse suporte enquanto a linguagem eletrônica monta a imagem do poeta com seu próprio texto.


Imagem do vídeo Pessoas, o documentarista Carlos Nader

Ser outros é estar na multidão. O vídeo Pessoas, produzido pelo documentarista Carlos Nader com roteiro do poeta Antônio Cícero, traz diferentes sentidos da obra pessoniana, como a saudade da infância, odes clássicas e versos futuristas ao mesmo tempo em que a multidão se forma e desforma nas ruas das grandes metrópoles. Como as ondas do mar do filme brasileiro Limite, exibidos ao lado do primeiro vídeo.

O mar é outra marca da obra do poeta e ganha destaque na montagem em homenagem ao livro Mensagem, o único livro publicado em vida pelo poeta. Dois tanques de areia recebem projeções de trechos da obra constantemente "desfeitos" pelas ondas do mar. Ao centro, nobreza lusitana representada nos painéis do pintor renascentista Nuno Gonçalves trazem um pêndulo, símbolo da navegação e também do tempo. Apesar de não destacar o peso maior para a obra, Carlos Moisés a vê como um livro-síntese. "Ela traz a concepção de condição humana em Pessoa, muito além do sebastianismo e dos descobrimentos", reforça Carlos Moisés. Quem quiser pode folhear a edição digitalizada da obra.

O público pode ainda ver originais de revistas literárias, como o Manifesto Futurista e Orpheu, e livros com a participação do poeta, seja como tradutor ou resenhista e é convidado a mergulhar em suas linhas, personas, mares e métricas.

Fernando Pessoa: Plural como o universo
Até 30 de janeiro de 2011
Local: Museu da Língua Portuguesa
Preço(s): R$ 6,00 (grátis aos sábados).
Data(s): 24 de agosto de 2010 a 30 de janeiro de 2011.
Horário(s): Terça a domingo e feriados, 10h às 18h.

Atualizado em 1 Dez 2011.

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