Guia da Semana

Entreter e consumir

Colunista assistiu ao espetáculo Alma Imoral, do autor brasileiro Nilton Bonder

Foto: Divulgação


A arte bem feita, além de entreter quem a consome, também tem o objetivo de causar reflexão, de forçar o olhar para dentro e trazer mudança sem julgamentos, só com a palavra, a tinta, o vídeo ou a interpretação.

No espetáculo A Alma Imoral, a atriz Clarice Niskier consegue alcançar esse ponto de entretenimento e reflexão, ao adaptar o livro de mesmo nome, do autor brasileiro e rabino Nilton Bonder, ao teatro.

Clarice conta como conheceu o livro, durante um programa de TV em que afirmou ser naquele momento uma judia budista. Durante o programa, uma telespectadora, Dona Léia, mandou um fax ao programa se dizendo indignada, que não existiam judeus budistas, e sim judeus OU budistas.

Ao fim do programa, Nilton Bonder presenteou Clarice com o livro, que resolveu traduzi-lo para o teatro depois de se sentir profundamente tocada pelas mensagens do livro.

A peça trata de vários assuntos, como casamento, o conceito do certo e errado, o bom e o correto e a natureza da alma. Porém, tudo segue a ideia de que a alma é imoral por querer sempre a mudança e rege a vontade do homem de "trair", ou ir contra a moral imposta pela sociedade. A imoralidade aqui não é vista como perversidade, e sim como a vontade de mudança e seguir suas vontades internas, sua própria versão da felicidade.

Essa premissa segue por toda a peça e é ilustrada por meio de histórias e acontecimentos pessoais de Clarice, incluindo uma resposta a altura a afirmação de Dona Léia de que não existem judeus budistas. Os conceitos introduzidos por Nilton Bonder no livro são bem absorvidos através das palavras e da simplicidade com que Clarice se faz entender, usando somente sua nudez e um pano preto como vestimentas.

Um dos conceitos mais fortes da peça é que na natureza não há nudez e a atriz representa isso atuando nua durante toda a peça. Sua única cobertura contra o julgamento moral do público é um pano preto, que se transforma em diversos vestidos, conforme a história que conta. Nesse pano preto há uma burca, uma toga e um vestido, todos feitos com precisão e rapidez.

Clarice também dialoga com o público sobre os temas e quer se certificar de que todos os conceitos foram bem esclarecidos, se oferecendo para repetir qualquer trecho da peça que qualquer pessoa do público queira ouvir novamente. O cenário e a iluminação são minimalistas, porém altamente eficientes, tendo como objetivo maior aumentar o impacto do conteúdo e da própria personagem durante a peça. A música complementa seus movimentos e consegue complementar todos os momentos, dos mais emocionais, até o momento em que ela senta e faz do público uma extensão do palco.

Veja o Making of da peça:



Quando estávamos na fila do estacionamento, após a peça, ouvimos pessoas de todas as idades discutindo visões profundas da vida e da alma. Só assim é que sabemos o impacto que essa peça teve, e é a verdadeira medida de seu sucesso. Com mais de 90 mil espectadores, tenho certeza de que A alma imoral conseguiu tocar cada uma destas pessoas.

Só tenho a agradecer à Dona Léia, pois se não fosse a senhora, não teríamos a oportunidade de passar por essa experiência que é A alma imoral.

Quem é o colunista: Formado em jornalismo, casado e trabalha em uma empresa de tecnologia.

O que faz: Gosto de assistir filmes, ficar em casa, ler, conhecer lugares novos e jogar videogame.

Pecado gastronômico: Sorvete de capuccino, feito em casa por mim e pela minha esposa.

Melhor lugar do mundo: Minha casa, em um sábado chuvoso, à tarde, com minha esposa, um computador e meus videogames..

Fale com ele: camposaraujo @hotmail.com  ou acesse seu twitter.

Atualizado em 6 Set 2011.

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