Guia da Semana

Entrevista: Elza Soares, a diva do samba

A inconfundível voz rouca e rasgada pára de cantar para responder ao Guia da Semana sobre a vida e a carreira



Uma mulata baixinha, cheia de energia e simpatia. Prestes a completar 71 anos, Elza Soares nasceu na favela de Água Santa, no subúrbio de Engenho de Dentro, e já foi intitulada embaixatriz do samba e melhor cantora do universo pela BBC de Londres. Mas não foi sempre assim. Criticada pela forma de se vestir por Ary Barroso em um programa de calouros nos anos 50, ela soltou a voz e mostrou o talento.

O último trabalho, o CD e DVD Beba-me lhe rendeu uma turnê nacional e, a partir de julho, a cantora segue para a Europa, onde fará uma série de shows. Olhos atentos, sorriso no rosto e um ar de lembrança, Elza pede para não falar de pobreza e nem do Mané Garrincha. Senta-se e diz: "vamos lá meu amor".

Guia da Semana: O que te lembra favela de Água Santa?
Elza Soares: Favela de Água Santa me lembra tudo. Lata d´água na cabeça, nascimento dos filhos, menina soltando pipa, pulando corda, aquela infância de criança pobre que brinca muito mais do que criança rica. Por incrível que pareça a gente inventa e pensamos que a felicidade está no filé mignon, mas não é só isso.

Aos 12 anos você já era mãe e aos 18, viúva. Como foram essas experiências?
As duas foram uma surpresa. Casar aos 12 anos forçada pelo meu pai que pensava que eu não era mais virgem, porque eu brincava no mato e o cara entrou lá para brigar comigo por causa de um louva-Deus. Difícil. Ficar viúva aos 18 anos foi muito gozado cara, porque eu não sabia o que era aquilo. Tive muito medo e fiquei muito assustada. Mas acho que Deus te tira uma coisa e te dá outra, Ele tirou o marido e me deu a carreira.

O que te lembra a frase: de que planeta você veio?
Eu começo ver a cara do Ary Barroso, parece que me transporto para lá e na mesma hora eu lembro da cena.

Independente de apresentar aquele show de calouros, quem foi Ary Barroso para Elza Soares?
No dia foi uma pessoa muito antipática, porque brincar com uma criança pobre, com uma menina necessitada, que tem que salvar um filho não dá. Eu fiquei zangada com ele. Hoje eu o acho o máximo, porque me ensinou como respeitar o público, como me arrumar. Ele me ensinou muita coisa, mas a principal é que, às vezes, ser sincero não é tão bom.

Qual a música que marcou sua vida?
Acho que todas as músicas marcam muito. Meu Guri me marca muito, porque eu me canto e canto meu filhos. Se Acaso Você Chegasse, que foi a primeira que eu gravei, foi a mais marcante. Por ela consegui chegar a todos os lugares que eu quis.



Fazendo referência a uma de suas músicas, você se acha uma Mulata Assanhada?
Totalmente. Porque sou feliz cara e toda pessoa feliz é assanhada, você sabia? (risos) Não tenho tempo para coisa ruim.

Melhor Cantora do Milênio. Como você vê esse título?
Foi tudo! Eu não esperada esse prêmio e, quando veio, eu levei uma queda no Metropolitan, fraturei três vertebras, fiquei em uma cadeira de rodas e ninguém sabe.

E as composições de Elza Soares?
No DVD e CD ao vivo tem música minha e quando eu posso coloco, mas sem pretenção, não sou um Djavan, um Caetano ou um Chico Buarque, mas canto os meus momentos.

Como é a Elza compondo?
Cara, é tão gozado. Ela compõe ela mesmo. Eu sou um exagero de tudo e a música deste DVD traduz isso.

Você já cantou bolero, tango, samba, bossa nova, jazz, funk e até música eletrônica. Qual seu ritmo?
Não tenho, são todos do funk ao hip hop, do samba ao tango.

O que você acha sobre a música brasileira produzida hoje?
Eu gosto mais da eletrônica. Esse país é um país totalmente rock n´roll e gosto muito disso. Temos uma diversidade muito grande, acho isso ótimo. Sou adepta de tudo.



Você se orgulha da sua história?
Me orgulho porque eu acho que posso passar uma lição para muita gente.

Qual é a lição?
Que morremos da mesma maneira, nascemos da mesma maneira e somos do mesmo jeito. Não existe derrota que derrote quem nasceu para vencer.

Você se considera uma mulher feliz?
Totalmente feliz. Por tudo isso que passei e que passo. Tem que ser feliz e se eu não fosse iria ser uma mulher horrorosa.

Elza alcançou o sonho. Qual é o sonho de Elza agora?
Não sei. Eu sempre digo que "my name is now!" e como só tenho 24 horas de idade, o sonho, eu deixo acontecer.

Fotos: divulgação

Atualizado em 3 Nov 2011.

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