Guia da Semana

Espelho Quebrado

Colunista relaciona mais um pecado capital à produção teatral

Foto: Sxc.hu


Já no final da minha saga de relacionar os sete pecados capitais a fatos corriqueiros da vida de um artista, dessa vez escolhi a soberba.

Ao contrário do invejoso, que remói o sentimento pra si, o soberbo expõe-se com a intenção de ser invejado, acreditando que tem qualidades de sobra para despertar tal sentimento.

Tenho um amigo jornalista que sempre conta a piada que um ator para se matar, basta jogar-se de si mesmo.

Sempre dou aquela risadinha amarela e fico calado - e não tenho outra escolha senão ficar ouvindo histórias das entrevistas com atores que popularmente falando "tem o rei na barriga" e usam do seu status quo para querer exercer algum tipo de superioridade sobre os reles mortais.

A soberba está extremante relacionada à arrogância e ao egocentrismo. Não serei o primeiro nem o último a falar do ego de um artista. "Se Narciso acha feio o que não é espelho", imagina um ator sem espelho no camarim.

Brincadeiras à parte, é muito raso insistir apenas na estética pra falar de ego. A cada dia que passa, entendo mais os atores que se isolam na solidão de um monólogo. Trabalhar com muitos no elenco é carimbar o passaporte para o céu. Nunca fiz novela, mas imagino o que deve ser aturar um protagonista que foi "engolido" por um coadjuvante. E coitado desse coadjuvante.

Claro que, indo para o campo da discussão sobre o papel de um artista, muitas direções podem ser tomadas. Ele pode ser visto como um agente social, como um expoente da arte ou como a pior de todas: como uma mercadoria. Certa vez, um amigo foi fazer um teste pra TV e foi obrigado a ouvir de um diretor: Não me interessa se você é bom, quero ver se você tem um rosto para garantir o acordo com a marca de sabão em pó no intervalo da minha novela.

Cito esse episódio ridículo, pois penso na condição de um artista sempre como alguém tirado diretamente de um comercial de margarina. Tudo é lindo e perfeito. Ele não tem a permissão de acordar num dia ruim ou simplesmente ir a padaria com o cabelo despenteado. Quem nunca ouviu de alguém: "Fulano, aquele da novela das oito é antipááááático, não sorriu na foto que tirei dele saindo de um velório".

A descrição acima obviamente está relacionada aos que atingem uma certa condição na fama. Uma celebridade ou até uma pseudocelebridade. E está aí um outro ponto para discorrer sobre a soberba. Lembro que num dos meus milhões de empregos antes de entrar na vida do voluntariado de vez (digo, ator), fui agente de aeroporto e via dezenas de famosinhos por dia. Era tão engraçado ver artistas do quilate de uma Fernanda Montenegro dar bom dia pra todos e o primeiro eliminado do Big Brother exigindo primeira classe aos berros no balcão. Ai, ai...

Entrar na questão de qual valor artístico um indivíduo desses tem para a arte fica para a próxima. Decididamente, não vale a pena.

Penso muito em dirigir um dia, mas o convívio com atores, salvo raras exceções, é muito difícil. Respeitar a hierarquia aqui é bem complicado. Um diretor amigo meu, quando questionado porque não trabalhava com uma atriz - talentosíssima, por sinal - sempre responde: "Porque eu ia querer jogar uma cadeira nela!"

À medida que ficamos mais velhos, os conselhos que nossas mães nos davam cada dia mais vem a calhar. Parece trecho de música sertaneja, mas um que minha mãe me fala o tempo inteiro é "Seja humilde, ninguém é melhor do que ninguém". Ela tem razão. Mas seria bom que as outras mães também lembrassem seus filhos disso.

Leia as colunas anteriores de Guilherme Gonzalez:

Não é pra qualquer um

Pecado é não pecar!

"O preguiçoso é um relógio sem corda"
Quem é o colunista: Guilherme Gonzalez.

O que faz: Paraense, radicado em São Paulo, Guilherme Gonzalez é uma mistura de ator e produtor cultural. É um dos fundadores da Cia. Teatro de Janela.

Pecado gastronômico: Sorvete de tapioca.

Melhor lugar do Brasil: Praia do Amor em Pipa (RN) bem acompanhado.

Fale com ele: gonzalezguilherme@hotmail.com

Atualizado em 6 Set 2011.

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