Guia da Semana

"Eu me esforço para ser invejado, não para invejar"

Como o pecado capital mais lembrado pelos brasileiros acontece até no teatro

Foto: Getty Images

Na total falta de assunto pra escrever sobre minha vida, graças a Deus, bastante atribulada, saí perguntando a amigos, irmãos e a qualquer um que me sugerisse, sobre algum tema interessante pra discorrer nesta semana. Nada me agradava, nem ao menos me instigava o suficiente.

Revendo meus livros - na época que ainda os emprestava - encontrei alguns exemplares de uma coleção que me restou: Sete Pecados. Cada autor, bem renomado, deveria escrever sobre um deles. Ainda estava na dúvida se escreveria sobre isso. Achei a princípio, um pouco clichê.

No entanto, alguns acontecimentos me levaram a criar uma associação e escolher por hora um deles para focar: a inveja.

Não quis reler o livro que falava dela. Não achei necessário. Afinal, já falei zilhões de vezes que meus textos definitivamente não possuem duas coisas: caráter jornalístico/investigativo e muito menos usar palavras e termos que pareçam bulas de remédio e se distanciem das pessoas, que querem ler coisas próximas delas.

Mas, pra citar alguns trechos, lembro de dois marcantes. O primeiro era uma definição do Raduan Nassar, autor escolhido, para esse pecado: "Inveja é não querer o que o outro tem, é querer que ele não tenha". O outro falava de uma pesquisa feita entre pessoas para saber qual dos setes pecados elas conheciam. Não lembro o percentual exato, mas acredito que em torno de 95%, a inveja foi a mais lembrada, embora 80% não admitiam senti-la.

Eu não recrimino quem não admite passar por esse sentimento. Mas acho o máximo quem admite. Pesquisando rapidamente no Wikipédia (adoro achar o significado verbal das coisas) olha o que encontrei: "A origem latina da palavra inveja é invidere que significa não ver. É o desejo por atributos, posses, status, habilidades de outra pessoa gerando um sentimento tão grande de egocentrismo que renegue as virtudes alheias, somente acentuando os defeitos".

De cara, a inveja já trás toda uma carga negativa, que em muitos aspectos, realmente faz com que as pessoas queiram distância dela. Acho interessantíssimo quem se despe de orgulho e admite nutrir esse sentimento. Às vezes, para amenizar, sempre vem aquele papinho de inveja branca, sem maldade... Ahã, sei! Branca é um eufemismo muito canalha pra invejar.

É tema de documentário, simpósio, monografias, estudos comportamentais, psicológicos... Vixe! Tanta coisa... No teatro tem o exemplo clássico de Otelo, de Shakespeare, perseguido pela inveja de Iago.

Há alguns dias, fui assistir a uma peça de uns amigos que estão em cartaz na praça Roosevelt. Ficando por ali pra tomar uma cervejinha com eles após a apresentação, toca no aparelho de som uma música do ator Gero Camilo. Uma moça, que até então não conhecia, começa a cantar enlouquecidamente e no final solta um "Odeio ele!". Não entendendo, perguntei o motivo. Ela retrucou. "Na verdade, tenho inveja dele".

De cara lembrei da primeira vez que o vi no teatro, na peça Aldeotas. Extasiado ao final do espetáculo, fui mudo pra casa e pude constatar que, assim como aquela moça, havia sentido uma inveja absurda dele na época.

Tinha um amigo (tinha não porque ele morreu ou a amizade acabou, apenas perdemos o contato) que ao cumprimentar alguém, em uma festa ou qualquer ocasião, dizia: "Nossa que camisa bonita!". E, bem baixinho, dizia: "Tomara que manche ou rasgue". Detalhe: não era baixinho o suficiente para a pessoa não ouvir. Assim, todos morriam de rir da piada. Aliás, não era para ser piada, era a pura verdade, mas tão verdade, tão verdade, que todos pensavam que era mentira. Menos ele.

Horrível admitir, mas não tenho vergonha em falar não. Tento me distanciar o máximo disso, mas você, eu, todo nós temos momentos (sei lá se é de fraqueza), em que sentimos ou sentiremos inveja de alguém.

Lembrem daquele conceito no começo do texto do Raduan? A pergunta é: "Por quê com ele e não comigo?".

Inveja não pode ser confundida com admiração excessiva. A gente sente inveja de quem, na nossa vã concepção, não merecia determinada coisa. Alguém que ganha um papel, no nosso caso, que estava concorrendo com a gente, do cara mais bonito, mais alto, mais rico, mais popular que a gente... Bom, em algum momento, caro leitor, você já sentiu isso, para não falar de outros, já que meu espaço não permite ou porque estou com preguiça mesmo. Mas daí já é outro pecado e assunto para um próximo bate-papo.

Leia colunas anteriores de Guilherme Gonzalez:

? Todos querem ser a Amy


? "O amor é um crime que não se pode realizar sem cúmplice"


? "A música é o barulho que pensa"


Quem é o colunista: Guilherme Gonzalez.

O que faz: ator e produtor, um dos fundadores da Cia Teatro de Janela.

Pecado gastronômico: Mousse de Cupuaçu.

Melhor lugar do Brasil: Av. Paulista de madrugada.

O está ouvindo: White Shadows do Coldplay

Fale com ele: gonzalezguilherme@hotmail.com

Atualizado em 6 Set 2011.

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