Guia da Semana

Fadado ao desaparecimento

Um assunto indigesto, porém necessário: a egolatria dos artistas

Foto: Sxc.Hu

Tenho lido muita coisa do filósofo alemão Jügen Habermas e sua contribuição sobre teoria da Ação Comunicativa. Por ser ele sociólogo também, juntei, aos estudos e ensaios, muita reflexão filosófica associada a um alto teor de preocupação social. Segundo Habermas, a democracia nada mais é do que o fim e meio da emancipação individual e social, estando na nossa capacidade em nos examinarmos por conversas e diálogos os instrumentos para alcançarmos autonomia de julgamento sobre os fatos e assim chegarmos a liberdade.

O que tenho percebido no discurso comunicativo de jovens artistas e outros nem tão novos, é o despojamento do próprio ego. Explico: a necessidade de reconhecimento imediatista, disponibilizado pelas mídias mais superficiais, conduziu os artistas à construção de uma persona que satisfaça os interesses externos, em detrimento aos seus anseios reais. Não se trata de simplificar a questão pela venda ou submissão. Vamos mais longe sobre isso...

Optar ser artista é acreditar ter a capacidade de gerar discursos, cuja verdade inicial, portanto individual e própria, serve a todos como lhe serve, que seus argumentos e percepções são verdadeiramente necessários para levar o público (alienado ou ausente ou incapaz ou meramente desinteressado, tanto faz) a conhecer o que lhe escapa sobre a humanidade e a história, em si mesmo e os acontecimentos.

Valorizar, portanto, sua egolatria, significa dar profundidade e credibilidade a suas inquietações tornando-as diálogos sinceros e próprios ao coletivo democrático imaginado por Habermas. Em nenhuma outra profissão ou função social poderemos nos atribuir a capacidade em ser divergentes da verdade. Um advogado prostra-se aos fundamentos da Lei, um médico aos procedimentos, um engenheiro à precisão do cálculo. O artista a ninguém, contudo. Apenas a si mesmo e suas idiossincrasias para gerar pressupostos filosóficos e estéticos. Por isso é fundamental sua crença na onipotência de seu discurso

Infelizmente, como mencionei, a vaidade ególatra dos artistas atuais está mais na busca por sua aceitação e reconhecimento público do que necessariamente em sua capacidade em ser um indivíduo, em ser único. E aí reside a problemática em si. Sem sua individualização e separação do coletivo, os discursos oferecidos são replicações de falas comuns, portanto, incapazes de atribuir ao ouvinte as capacidades próprias do diálogo e da ação comunicativa.

Se, como demonstra Habermas, a comunicação e a palavra são os principais instrumentos para constituir a democracia, e se nossos artistas (parâmetros comportamentais e de idéias estabelecidos pelas mídias) estão cada vez mais distantes da verdade de suas inquietações, caminhamos, então, para a elaboração de uma sociedade vazia de diálogos e discursos. Dessa maneira, o artista, hoje, serve mais à destruição da comunicação do que ao seu avanço e leva a arte a ser, dentre tantas outras manifestações do homem, uma das mais ferozes inimigas da construção efetiva de democracia.

Se um artista abandona sua egolatria, tudo aquilo que lhe torna realmente artista, em nome da noção efêmera e errônea de pertencimento, traduzindo seu trabalho em explanações do superficialismo do bem-comum coletivo, por que eu deveria levá-lo a sério?

Artista é aquele que simplesmente caminha, sem olhar ao lado, sem preocupar-se com o abraço e aplauso, e incomodamente abusivo no olhar olhos desconhecidos.

Leia colunas anteriores de Ruy Filho:

? O som da chuva em nossos silêncios


? Um espetáculo não se resume ao palco


? Criamos Nossas Próprias Tempestades


Quem é o colunista: Ruy Filho.

O que faz: diretor e dramaturgo.

Pecado gastronômico: carpaccio de pato do Piselli.


Melhor lugar do Brasil: Salvador fora de temporada.


Fale com ele: ruyfilhosp@yahoo.com.br ou acesse o blog do autor

Atualizado em 6 Set 2011.

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