Guia da Semana

Hamilton e Yamandu

Instrumentistas encantam público e colunista no Auditório do Ibirapuera

Foto: Divulgação


A noite tinha tudo para acabar no sofá, ao som da vinheta do Globo Repórter. Mas não acabou. O convite do meu tio mudou o rumo sonoro daquela sexta-feira. E lá fui eu em direção ao Auditório do Ibirapuera degustar música boa: Yamandu Costa e Hamilton de Holanda.

No céu, a lua fazia uma participação especial. Foi a primeira a entrar no palco, pegando a plateia de surpresa numa cidade com espetáculos naturais tão prejudicados pela poluição.

A lua cantava a capela.

Do lado de fora do teatro, uma multidão de espectadores andava a passos ansiosos, aguardando os primeiros acordes. Alguns exibiam seus celulares de última geração. Outros faziam carinhos automáticos nas namoradas. Tinha muita gente, o que me assustou um pouco, no sentido otimista da palavra, porque música instrumental não costuma tirar as pessoas de casa. Sempre me deparei com fileiras vazias nos shows do Egberto Gismonti ou do Wagner Tiso, por exemplo. Algo estava mudando ali. Não haveria fileiras vazias. Finalmente, um espetáculo instrumental onde os ouvidos deveriam ficar atentos às campainhas para garantir uma cadeira na plateia.

Aquela sexta-feira instrumental ia me deixando sem palavras.

A última campainha anunciava escandalosamente o início do show. No palco, Yamandu com seu violão sete cordas e Hamilton de Holanda com seu bandolim. E como parece conversar com a gente o dedilhado daqueles dois. É um diálogo de instrumentos, onde notas são letras e fraseados melódicos são textos com sentido, coesão e neologismos.

A música instrumental fala com a gente. Vai dizendo o que você quer ouvir. Na primeira canção, o bandolim do Hamilton me contava sobre as cores. Comentou da alegria do amarelo, do efeito mágico do roxo, falou sobre como colorir as pessoas tristes. Já o violão do Yamandu gritava comigo. Discutia sobre a qualidade da nossa música, reclamava da falta de critério do ser humano.

Ao meu lado, um inglês de cabelos experientes acompanhava de boca aberta o espectáculo. Antes do show, ele havia me contado sobre as viagens dele pela Europa, sobre as praias da Itália, sobre como existe lugar bonito no mundo, do lado de cima do globo terrestre.

Hamilton de Holanda anunciou uma canção que ele compôs quando morava sozinho na França. O músico começou a acariciar o bandolim. E o inglês da plateia me olhou com um ar de surpresa e euforia, balançou a cabeça num sinal positivo e me disse em silêncio: como é bom estar no Brasil.

O show ia chegando ao fim. Hamilton e Yamandu voltaram duas vezes para atender aos pedidos de bis e depois sumiram na cortina misteriosa do teatro. Foi um show e tanto. Um show e tantos na plateia.

Não vou esquecer tão cedo aquela noite que venceu os filmes do Telecine, superou os bares da cidade, os shows de cantores consagrados, os lançamentos em 3D nas salas de cinemas, os barris de chope, os sofás confortáveis, as reuniões na casa dos amigos.

Yamandu e Hamilton lotaram o Auditório do Ibirapuera. Vitória da música instrumental.

Quem é o colunista: Pedro Cavalcanti.

O que faz: Publicitário.

Pecado gastronômico: Qualquer prato preparado pela minha avó.

Melhor lugar do Mundo: Aqui e agora, como diria o Gil.

O que está ouvindo no carro, iPod, mp3: Ulisses Rocha, Pat Metheny, Chico Saraiva
 
Fale com ele: phmarcos@terra.com.br

Atualizado em 6 Set 2011.

Compartilhe

Comentários

Outras notícias recomendadas

Obras do MASP agora podem ser vistas em plataforma on-line gratuita

Museu integra a partir de hoje o acervo do Google Arts & Culture

Museu do Café, em Santos, inaugura exposição gratuita sobre propaganda da bebida

A partir de 28 de dezembro, os visitantes poderão conhecer as estratégias das marcas de café de 1900 a 1959

Especial férias: MASP abre ao público em todas as segundas-feiras de Janeiro

Programação de férias disponibiliza cinco dias a mais para visitar o Museu

5 motivos para assistir ao documentário "O começo da vida" na Netflix

O filme mostra a importância dos primeiros anos de vida sob a ótica dos quatro cantos do mundo

5 hotéis ao redor do mundo que são verdadeiras obras de arte

Confira locais com acomodações incríveis, mas que têm obras como protagonistas

Evolução dos emojis ganha instalação no Museu de Arte Moderna de NY

Os primeiros emoctions, criados em 1999, também entram para a coleção MoMA