Guia da Semana

Mentes Perigosas

"Olhando de perto, ninguém é normal"

Foto: Divulgação

Primeira montagem brasileira da obra de Mike Leigh, dirigida por Mauro Baptista Vedia, A Festa de Abigaiu mostra o porquê do merecido prêmio de melhor peça no 11º Cultura Inglesa Festival e volta com tudo.

Mike Leigh, em seus textos, mostra reflexão e crítica aos hábitos e costumes, muitas vezes estranhos, da sociedade contemporânea. A peça tem estilo pós-dramático, mostrando uma circunstância que não busca uma progressão lógica de fatos, mas apenas alguns retratos dela.

O espaço em que o espetáculo se passa, o tamanho do teatro e o cenário, tudo ajuda a "estar" naquela sala, observando a loucura de cada pesonagem nos seus mínimos detalhes como se fôssemos mosquinhas que por ali passavam e decidiram assistir, de camarote, a que ponto o ser humano chega com sua loucura não aparente.

Os tempos de fala, o ritmo geral e, principalmente, as pausas formam o conjunto perfeito para transfomar uma situação usual num caos completo. Há um tempo de pausas, um ritmo lento, ralentado, que mostra a situação desconfortável dos personagens, sendo transmitida para a plateia. E é genial a maneira como os atores seguram - de forma perfeita - os longos tempos de pausa sem deixar a cena "cair".

Os personagens de Leigh são pessoas comuns e tem personalidades bem distintas, podendo dizer até opostas, e os atores encarregados deles deram conta de cada um com maestria. São papéis bem definidos, com peso e densidade, com a personalidade moldada durante a vida levada por eles até o ponto onde estão e se mostram pequenos monstros criados por uma sociedade no auge do consumismo.

Os atores - Edu Guimarães, Ester Laccava, Fabiana Carlucci, Fernanda Couto e William Amaral - domaram esses monstrinhos e criaram caricaturas leves e extremamente críveis de cada um deles e que, por mais absurdo que possam parecer, existem no nosso conívio e são facilmente identificáveis entre as pessoas que conhecemos. Quem não conhece um casal em crise matrimonial que tenta manter a aparência? Ou alguém amargo, triste por causa de seu divórcio? Ou uma mulher que diz o que não deve e é casada com um homem que nunca presta atenção nela a não ser para mandar calar a boca?

A peça acontece na Londres dos anos 70 e começa com um usual encontro entre conhecidos. Um casal de vizinhos novos visita a casa de um outro casal de moradores mais antigos do bairro e há a vizinha divorciada, que é expulsa de sua casa pela filha, Abigaiu, enquanto ela dá uma festa a seus amigos adolescentes. A festa de Abigaiu acontece na casa ao lado, mas os adultos da festa que nós assistimos tem muito mais conflitos que os adolescentes que, normalmente, seriam os causadores de problemas.

 Beverly (Ester Laccava) e Lawrence (Edu Guimarães) formam um casal de classe média ascendente. Beverly é, no geral, sem cultura nenhuma e adepta ao estilo americano de vida e Lawrence, pelo contrário, é a favor da cultura e luta para subir na vida. Ângela (Fabiana Carlucci) e Tony (William Amaral) são os novos vizinhos, um casal típico de representantes da classe trabalhadora. Ela, com ar infantil, trabalha como enfermeira e sonha em ter tudo aquilo que Beverly tem e ele, um ex-jogador de futebol, hoje operador de informática, grosso e machão. E por fim, Susan (Fernanda Couto), a mãe de Abigaiu, é uma mulher sensível, sofisticada e culta, mas incoformada com seu divórcio, muito depressiva e melancólica.

São esses personagens que trasformam uma simples reunião de vizinhos, com drinques e petiscos, em uma circunstância que se desenvolve até chegar a um clímax inacreditável. É difícil classificar a peça em um gênero exato, pois ela engloba tantos confiltos (individuais e entre o grupo) tão diferentes, te faz rir, chorar e até ficar de boca aberta. E se, numa peça ou filme, o ponto alto é a catarse, o espetáculo possui muitos pontos que causam essa sensação em quem assiste.

Não esperem piadas prontas, riso óbvio, pois o humor é totalmente negro e ácido. É preciso ter bons olhos e saber apreciar todas as pausas, os detalhes e a inteligência ali colocada pelo autor, pelos diretor e atores.

Se eu fosse definir a peça em uma sentença, provavelmente seria uma daquelas que seria censurada, pois as melhores coisas não conseguem ser definidas com palavras, digamos assim, polidas. Uma sentença equivalente, em escala menor: Bom demais!

Leia a resenha de A Festa de Abigaiu

Quem é a colunista: Patricia Luize Silveira.

O que faz: Atriz, Assitente de Direção, estudante eterna de teatro.

Pecado Gastronômico: minha gula por doces.

Melhor lugar do mundo: meu quarto no silêncio da madrugada.

O que está ouvindo no iPod, carro, mp3, rádio: muita coisa junta e misturada.

Fale com ela: pati.luize@gmail.com ou a siga no twiter (@PatiLuize)

Atualizado em 6 Set 2011.

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