Guia da Semana

"Não sou muito chegado em show"

Ed Motta conversa com o Guia da Semana sobre seu novo álbum, Chapter 9, no qual toca todos os instrumentos

Foto: Milton Montenegro


Há 20 anos, Ed Motta vem flertando com o funk e o soul, em um estilo que assimila influências que vão da música popular brasileira ao rock. Após três anos longe dos estúdios, o cantor, compositor e instrumentista volta ao mainstream com a nona etapa de sua discografia, o álbum Chapter 9, lançado pela gravadora Trama, com download gratuito pelo projeto Álbum Virtual.

Composto por dez faixas, todas em inglês, o disco transita entre o soul e o pop, com uma pegada roqueira, mostrando um lado mais sombrio do cantor, que toca os instrumentos de todas as faixas. Em entrevista ao Guia da Semana, Ed fala sobre seu novo trabalho, sua carreira, a paixão por jazz e vinhos e o que realmente acha sobre a música eletrônica.

Guia da Semana: Segundo a mídia, o Chapter 9 é o seu disco mais sombrio. Como você o classifica?
Ed Motta:
O Chapter 9 é um disco com músicas tradicionais feitas no piano. O natural dessas canções seria que elas tivessem uma formatação orquestral, com cordas, baixo acústico. Na verdade, eu queria que o disco tivesse um tratamento angustiado. Esse é o meu disco com mais influência de rock and roll. Eu queria que fosse uma coisa mais sombria, mais soturna.

Guia da Semana: Por isso você decidiu tocar todos os instrumentos?
Ed Motta:
Não, o lance dos instrumentos foi totalmente por acaso. Eu entrei no estúdio para fazer uma demo tape e depois vi que essa demo tinha uma cara interessante. O pessoal da Trama e João Marcelo (Bôscoli) acharam que a ela tinha uma expressão forte e que se fosse regravada, perderia essa essência.

Guia da Semana: Além de Steve Wonder, referência clara na faixa Runaways, quais foram suas principais influências para a concepção do Chapter ?
Ed Motta:
Esse disco é algo híbrido. A maioria das músicas surgiu no piano, sem pensar em nada rítmico. Eu nunca penso na música como se fosse ter uma bateria ali, ou outra coisa. Quando vou compor, eu sempre penso em algo meio orquestral, em trilhas de filmes, em musicais. Agora se você for pegar no geral, dos clássicos, o Henry Mancini é um cara que tá dentro de várias composições minhas, desde Fora da Lei, sempre tem algo com a cara dele, em termos de harmonia, melodia, essa coisa de músicas de cinema.

Guia da Semana: Por que você decidiu fazer um disco só com musicas em inglês? (Entre as parcerias, há canções escritas pelo inglês Rob Gallagher, conhecido como Earl Zinger, integrante do Two Banks Of Four.)
Ed Motta:
Então, o lance de cantar em inglês já aparece desde o meu primeiro disco, na música A Rua. O tempo todo eu faço uma firulinha em inglês. É uma coisa da minha geração. Eu fui criado imerso nessa cultura. Vendo desenhos da Hanna Barbera, ouvindo música norte-americana dos anos 70 e 80 no rádio.

Guia da Semana: A música The man from the oldest building está na trilha do musical Os Sete, feita por você e pelo Cláudio Botelho. Como foi essa experiência de compor para o teatro?
Ed Motta:
Na verdade, a peça foi feita em cima das minhas músicas. Eu já tinha todas as musicas prontas quando fui procurar o Cláudio Botelho e a partir disso, eles construíram toda a peça. Eu não tive a experiência de criar junto, mas eu já tinha idéia das vozes, das combinações dos timbres em cada música. Até por eu ter escutado muito disco de musical, por ter contato com a linguagem, com o cacoete da Broadway. Eu fiquei super orgulhoso e o mais bacana é que não é um musical com a cara do Ed Motta. É um musical Broadway.

Foto: Maurício Valadares


Guia da Semana: Com o lançamento do Chapter 9 você comemora seus 20 anos de carreira. Como resumiria o seu trabalho?
Ed Motta:
Meu, eu não penso muito nisso, não. Estou sempre com milhares de idéias na cabeça, sempre compondo e, de repente, chega o momento em que essas milhares de coisas resultam em um disco. Mas se for olhar para trás, por enquanto, eu acho que eu fiz tudo o que eu tive vontade de fazer. Em todos os meus discos eu sempre produzi e estive presente artisticamente. Sempre fui muito honesto. Meus discos nunca foram um trampolim para mim.

Guia da Semana: Como é a sua coleção de vinil?
Ed:
Eu tenho muita coisa, muito disco mesmo. Não compro CD há muitos anos. Nem conto mais, devo ter mais de 20 mil discos, tudo organizadinho, em ordem alfabética. Tenho raridades coisas nem tão boas assim. Eu faço um programa na Rádio Eldorado FM, o Empoeirado, que retrata um pouco da minha coleção de vinis. Pô, aí tem uma porrada de disco! Para você ter uma idéia eu devo comprar, mais ou menos, uns 10 discos por dia, só pela internet.São tantos, que por exemplo, eu não consigo ouvir duas vezes o mesmo disco.

Foto: Maurício Valadares


Guia da Semana: Já que você garimpa tanto, atualmente que artistas você recomenda?
Ed Motta:
No cenário nacional eu recomendo o som da Orkestra Rumpilezz, da Bahia, liderada pelo Leitieres Leite, um saxofonista e arranjador. Pô, esse cara é um gênio! Ele tá dando seqüência ao que o Moacir Santos fez ao misturar o ritmo afro-brasileiro com o jazz e a música instrumental.

Guia da Semana: A Amy Winehouse encabeça uma nova onda pop com influências de blues e funk, seguida pela também britânica Adele e pela galesa Duffy. O que você acha desta reciclagem da black music?
Ed:
Ah, é interesssante, né?! Mas não é o tipo de som que eu gosto. Eu prefiro os originais. Elas imitam o que já foi feito na Stax, na Motown. A Amy Winehouse é bem o estilo da Stax. Mas se for pra escolher, eu prefiro os discos da Stax, sabe?! Mas é interessante isso aí, sei lá, porque me irrita menos do que a música eletrônica...Risos.

Guia da Semana: Porque a música eletrônica te irrita tanto?
Ed
: Ah, eu não consigo ouvir nada de hoje! Tudo de hoje me irrita. Se eu tiver que ouvir... Meu Deus do céu! É um castigo! Uma tortura! Eu vou até meados de 80, 85, depois disso não teve nada que despertasse o meu interesse. Isso falando mundialmente, não só da música nacional. Fica tudo muito igual, tudo muito direcionado, pré-fabricado. Mesmo a vanguarda, é uma vanguarda fabricada.

Guia da Semana: Você é um conhecedor de vinhos, cervejas, quadrinhos e filmes. Como consegue tempo para se dedicar a tantos hobbies?
Ed:
Eu tenho poucos hobbies, só o lance da gastronomia, que regra a minha ligação com a arte. A arte é algo que eu amo, é vital pra mim. A minha necessidade é estar em contato com a arte, mas fora isso eu não tenho nenhum tipo de interesse, sabe? Eu não vou pra praia, não jogo pingue-pongue, nunca joguei nenhum jogo na minha vida. Não jogo nada! Nunca joguei uma carta, nada desse troço, sabe? Minha distração é a música, os filmes, os quadrinho.

Guia da Semana: Você não é muito fã dos críticos musicais. Como você vê a critica brasileira hoje em dia?
Ed:
Tem aquela famosa frase, punk total, né, cara?! Quem sabe faz, quem não sabe ensina e quem nem isso consegue vira crítico musical...(risos). Eu acredito no jornalismo musical, que informa, traz as novidades para as pessoas. Mas eu não acredito em crítica da arte, em nenhum lugar do mundo. Isso é uma coisa leviana. A crítica da arte, geralmente é covarde, pois a arte é muito subjetiva. Você tem que ver quais foram os parâmetros que o cara usou. Pode ser que a pessoa goste, ache interessante, mas pode ser que ela ache aquilo horrível. Mas isso é responsabilidade dela, não é sua, não é minha, é de cada um.

Guia da Semana: Ouvi dizer que você não gosta de fazer show?! Mas você parece tão à vontade...
Ed:
Pô, eu fico bem, mas não é a coisa que eu mais gosto de fazer. Não sou muito chegado em show, nem no meu, nem no dos outros. É um exercício de repetição, um apanhado de carreira e tal. O show não é a coisa intelectualmente mais profunda que existe. O grande lance pra mim é quando as pessoas escutam o disco, porque ele mostra o que foi feito no estúdio. Caramba, o estúdio é demais! Eu sou muito ligado nesse lance da gravação, dos recursos de estúdio.
Bate-bola
Data de nascimento: 17/8/71
Signo: leão.
Cor favorita: azul claro.
Uma música: Ilusão à Toa, do Johnny Alf.
Pecado gastronômico: um bom azeite toscano.
Um filme: El Topo, do Jodorowsky.
Ídolo: John Coltrane.
Hobby: Chá.
Uma Bebida: vinho.
Defeito: Hum, eu sou leonino, até pensar em um defeito vai demorar...Risos. Acho que um defeito meu é ser portador da doença da obesidade.
Qualidade: perfeccionismo.
Eu nunca faria por dinheiro... Matar alguém, né?!. Só isso também, de resto...Risos.
Se sua vida tivesse trilha sonora qual seria? Teria que ser composta pelo Ennio Morricone, especialmente pra mim.


Serviço:
Agenda de shows do Ed Motta

Belo Horizonte
Data: 22 de novembro (sábado).
Horário: 23h.
Local: Freegells Music
Ingressos: de R$ 40,00 a R$ 70,00.

Rio de Janeiro
Data: 4 de dezembro. (quinta-feira).
Horário: 21h30.
Local: Canecão Petrobras
Ingressos: de R$ 20,00 a R$ 120,00.

Atualizado em 6 Set 2011.

Compartilhe

Comentários

Outras notícias recomendadas

5 hotéis ao redor do mundo que são verdadeiras obras de arte

Confira locais com acomodações incríveis, mas que têm obras como protagonistas

Evolução dos emojis ganha instalação no Museu de Arte Moderna de NY

Os primeiros emoctions, criados em 1999, também entram para a coleção MoMA

6 motivos para visitar a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano em SP (e nem perceber que está na capital)

Local une arte, cultura, lazer, arquitetura e natureza, fazendo com que o visitante esqueça que está em SP

13 grafites em SP que todo mundo que ama arte deveria ver pessoalmente

Confira obras espalhadas pela cidade que merecem sua atenção

Na Semana da Criança, uma selfie vale um passaporte nos museus de SP; entenda

Para participar, é só postar foto com uma criança no Facebook com a hashtag #MuseusSP e apresentar na bilheteria da Pinacoteca, Casa das Rosas ou do Museu da Imigração

Unibes Cultural oferece programação especial e gratuita para o mês das crianças

Evento acontece até dia 31 de outubro e comemora o Mês das Crianças