Guia da Semana

Nas entrelinhas

Após uma breve aparição na televisão, Guilherme Leme retoma os palcos com O Estrangeiro, seu novo espetáculo

Foto: divulgação


Na marinha, quando se alivia o leme, o comandante traz a embarcação de volta à posição de costume, depois de uma guinada que mudou sua antiga direção. Assim como um barco que segue seu caminho ao sabor das ondas, após um relapso desvio de curso (no caso, a televisão), o ator, diretor e artista plástico Guilherme Leme volta ao teatro, local onde costuma assumir profundos desafios.

 

Com a mesma inquietação presente em Quartett, peça em que atuou ao lado de Beth Goulart, sua antiga parceira de palcos, Leme traz agora mais um texto intenso e questionador, interpretando Mersault, a personificação do homem absurdo que vive sem preocupações, retratado na obra O Estrangeiro, de Albert Camus.

 

Enquanto inicia temporada no Rio de Janeiro eprocura um espaço para estrear a peça em São Paulo, Guilherme conversou com o Guia da Semana sobre seu processo de criação e suas motivações, comentando sobre o momento delicado em que está a política cultural brasileira. Confira a entrevista abaixo.

 

Guia da Semana: Como é trazer ao palco dois textos tão densos, um em seguida do outro, com os espetáculos O Estrangeiro e Quartett?

Guilherme Leme: Eu gosto de trabalhar com textos mais intensos. Meu último espetáculo, Quartett, do Heiner Müller, era mais denso e pesado que O Estrangeiro. Particularmente, é uma coisa que eu gosto de fazer, de mexer nesse universo mais profundo, cheio de luz e treva. É uma coisa que me pega, me desafia, é um convite para mergulhar naquilo e descobrir as entrelinhas. A luz é fácil de você ler. Mas onde tem luz, tem trevas. Então, às vezes, você precisa mergulhar nas trevas também para saber o que tem lá dentro.

 

Guia da Semana: Como foi o processo de criação de Meursault, protagonista de O Estrangeiro?

Guilherme: Uma das coisas que eu e a Vera (Holtz) fizemos muita questão de ter neste espetáculo foi a priorização da palavra. O texto do Camus é de uma profundidade e uma beleza incrível. Eu sou só um instrumento e venho descobrindo o Mersault há quase dois anos. Para compor o personagem eu estudei a obra inteira do Camus, porque ela é toda interligada de uma certa maneira. Também fiz muitas leituras dramatizadas, muitos encontros com amigos, filósofos e críticos. Enfim, eu tentei ter uma bagagem intelectual bem afiada para chegar no palco e poder transparecer essa complexidade para o público de uma maneira mais fácil.


Foto: divulgação


 

Guia da Semana: Qual foi o seu maior desafios nos palcos?

Guilherme: Eu tive três personagens bem difíceis: o Jazão, na peca Medéia Material, que eu fiz com a Vera Holtz, do Heiner Müller. Tem o Valmont, do Quartett e o Mersault, de O Estrangeiro. Estes foram os três personagens mais desafiadores, mas ao mesmo tempo os mais prazerosos.

 

Guia da Semana: Você atua no teatro, cinema, TV e nas artes plásticas. Qual é a maior satisfação em trabalhar em cada uma dessas áreas?

Guilherme: O que me dá mais satisfação é conseguir lidar com a pluralidade, ou seja, tangenciar todas as artes e conseguir colocá-las no palco. O teatro é um ninho que abriga tudo: a literatura; a dramaturgia; a música; a dança; as artes plásticas.

 

Guia da Semana: Como foi o seu retorno à televisão, em Chamas da Vida, na Rede Record?

Guilherme: Eu não me senti bem. Não gostei do trabalho e me senti desrespeitado lá dentro, pelos profissionais. O modo de operação da TV deixa tudo enlatado. A televisão virou uma peça do IBOPE, a criação artística fica muito vinculada aos números, aos centésimos de porcentagem. É uma engenharia de produção que me desagrada, pois isso acaba interferindo até na relação interpessoal de quem participa disso. Claro que isso não é unanimidade, existem exceções e coisas muito bem feitas na TV. Mas são os artistas e a arte que devem nortear o mercado. Isso acontece em todas as áreas, menos na televisão.

 

Guia da Semana: Você parece ser bem reservado. Se sente incomodado com o assédio do público?

Guilherme: É, isso me incomoda um pouco. Na época em que eu fiz papeis de muito destaque em novela, não me sentia bem sendo observado na rua, sendo assediado. É algo da minha índole. Gosto muito da rua, de festa popular, de estar naturalmente nos lugares. Realmente me incomoda muito esse glamour da celebridade. Eu não lido bem com isso não, tenho que trabalhar um pouco mais esse lado.

 

Foto: divulgação



Guia da Semana: Como você lida com as funções de ator e de diretor? Consegue se dirigir?

 Guilherme: Não. Ou eu dirijo, ou eu atuo. Em O Estrangeiro, particularmente, a Vera estava muito ocupada com as gravações da novela e não tinha como se envolver com todos os aspectos da direção.  Então, a gente combinou que ela faria a direção de ator e eu faria a da encenação. No fim, tudo acabou se misturando e um ajudou o outro. É impossível você ter uma divisão tão díspar, mas o foco dela era na minha interpretação e o meu na direção de arte. Eu acho que não tenho essa capacidade de me dirigir e nem gosto. Preciso de um olhar externo.


Guia da Semana: É difícil ser artista no Brasil atualmente?

Guilherme: É difícil sim. Viver de arte é muito difícil! Durante várias vezes eu passei por maus momentos, fiquei sem dinheiro e tudo mais porque a profissão é instável, mas isso faz parte do jogo. A produção artística no Brasil está muito complicada. Estamos em um momento bem delicado. A oferta ficou muito grande, cada vez mais você concorre com tudo quanto é coisa. Tem muito produto e pouca demanda, especificamente no teatro. A gente concorre com uma avalanche enorme de mídias, como o cinema e a televisão. Também é delicado porque a política cultural do Brasil precisa ser revista. O Amir Haddad falou uma coisa linda no jornal, "a cultura de um país é tão importante quanto o seu exército". Um povo tem que estar alimentado, defendido, saudável e culto, senão não é um povo. E infelizmente a política do país não entende isso dessa maneira e a cultura fica renegada a um segundo plano. A batalha do artista é para que isso mude.


 Bate-bola

Data de nascimento: 29/09/1960

Cor preferida: branco

Música: Qualquer Coisa, do Caetano Veloso

Um ator: Luiz Mello.

Uma atriz: Fernanda Torres

Um livro: A Peste, do Albert Camus

Uma peça: O Lado Oculto da Lua, de Robert Lepage.

Um filme: Nossa, filmes são muitos...

Pecado gastronômico: petit gateau.

Teatro: meu trabalho

Nunca faria por dinheiro: muita coisa

Um sonho: sonhar em paz

Uma frase: estou aberto para a suave indiferença do mundo



Atualizado em 6 Set 2011.

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