Guia da Semana

"Nasci um problema social"

Da infância pobre para o reconhecimento internacional: Seu Jorge fala de seu mais novo DVD, atuações no cinema e o projeto para internacionalizar a sua música. Confira!

O baile está formado e aguarda somente a inconfundível voz do seu astro principal. De chapéu Panamá, óculos Ray Ban e um estilo despojado, ele agita o público da classe média na zona sul paulistana com uma mistura de rock, samba, funk e reggae. Com muita descontração e suingue, não deixa de lado sua origem humilde e, em poucos minutos, toma conta do ambiente com suas canções que abordam a realidade dos menos favorecidos. Seu Jorge acaba de desembarcar no país e inicia sua primeira turnê em São Paulo (25/09) para divulgar o lançamento do show América Brasil: o DVD.

Versátil, viu no teatro uma chance de dar um outro rumo a sua vida - que não fosse às ruas - e com um violão na mão aprendeu os acordes necessários para estourar internacionalmente, antes de ser reconhecido no país. Firmou parcerias com diversos nomes da MPB, entre elas, Ana Carolina e Arlindo Cruz e já chegou ao topo das paradas com hits como a Mina do Condomínio, Burguesinha e São Gonça. Depois do show e de receber os fãs, o Guia da Semana conseguiu um espaço na agenda repleta de eventos para conversar com o artista em seu camarim. Veja a entrevista de um dos músicos brasileiros mais requisitados fora do país.

Guia da Semana: Além de iniciar a turnê do DVD ao vivo, você acaba de chegar de viagem de Los Angeles, onde estava gravando um novo álbum nos Estados Unidos. Como está esse trabalho?
Seu Jorge:
Voltei ao país em 22 (setembro) e tive dois dias para ensaiar. Estreei ontem, fiz hoje e ainda tem amanhã em São Paulo. Não sei qual é a agenda da semana que vem, mas cheguei pra trabalhar muito forte. Sobre as gravações nos EUA, é um disco que não tem pressão. Eu queria chegar em um estúdio e fazer as músicas na hora. Como tinha três shows com a Orquestra do Hollywood Bowl, aproveitei e fiz uma agenda pra gravar esse disco. Volto em novembro pra fazer a segunda parte, o arranjo com a orquestra. Esse álbum tem uma parte do repertório que é banda, outra que é orquestra e tem uma terceira que é o núcleo da banda condicionado a orquestra. É a primeira vez que trabalho dessa forma.

Guia da Semana: Tem alguma previsão de lançamento?
Seu Jorge:
Não, porque não tem gravadora. A princípio é um disco pra mim, se achar que tem qualidade para as pessoas, vejo pra onde vai. Penso que na música você pode trabalhar de duas maneiras: com inspiração ou com transpiração. Esse é um trabalho de transpiração, onde a técnica, o conhecimento e a experiência estão a serviço da música. Fui experimentar a técnica de como é fazer música por necessidade e não simplesmente por vontade de fazer. Estou em uma fase com necessidade de fazer músicas novas.

Guia da Semana: Esse repertório foge um pouco dos trabalhos anteriores?
Seu Jorge:
Completamente. A princípio não tenho nenhuma preocupação com panfletarismo e nada disso. Não tenho nenhum assunto em específico para levantar, defender e bandeirar. A única preocupação que a gente tem é fazer desse artista brasileiro mais universal e menos territorial. Quero fazer uma coisa menos simbólica e dependente da camisa da seleção, da mulata com o "cavadão" na bunda, ou do pandeiro que roda e toca o pão e circo. Quero criar uma coisa que seja boa até na China também, que o cara de lá fale: Fuck good sound. Fron Brazil? Ohh nice! Eu quero isso e essa é a minha busca.

Guia da Semana: Você está com essa turnê e o lançamento do DVD ao vivo. O que esse novo projeto apresenta de diferente?
Seu Jorge:
Tem essa canção inédita ( Pessoal Particular) e as músicas do Tim Maia ( Amigo Verdadeiro) e do Carlinhos Brown ( A namorada). Essa última sempre quis tocar, porque é uma "tiração" de onda muito grande e o pessoal adora dançar. Não deu outra!

Foto: Marcus Oliveira


Guia da Semana: O palco reflete a animação dos músicos e um clima bem solto. A que você credita isso?
Seu Jorge:
Essa alegria, a coisa da intimidade aparece porque tudo aqui é família. Trabalhamos sem a idéia de um patrão. O músico e o artista são os únicos trabalhadores que podem viver um estilo diferente da maioria, então eles não podem ficar achatando e achatado no mesmo modus operandi dessa maioria. A gente tenta ser romântico de alguma forma, restaurando a diversão no palco, a liberdade de expressão sem protocolo. Por isso, os metais andam pra frente e para trás, não tem que ficar parado fazendo cara de bonitão, de músico sinfônico. Nosso show é popular.

Guia da Semana: No meio do seu show, você declara o amor pelas suas raízes humildes e suas composições sempre apresentam uma temática social. Trabalhar esse lado na música é importante?
Seu Jorge:
No nosso caso (brasileiro) é muito importante. Consegui coisas maravilhosas na vida e não tenho do que me queixar, mas quero que meu povo também tenha acesso a isso. Meu trabalho é estimular essa confiança no outro, da mesma forma que fizeram isso em mim. Eu nasci um problema social - não dando problema - mas sendo filho da disparidade, da inanição, do abandono da administração pública. Isso é uma crônica que já vem dos meus avôs. Saí dentro desse círculo e aprendi a me articular. Abandonei a linguagem do gueto, a articulação do gueto, o jeito do gueto de andar. Eu precisava de eloqüência para desenvolver os meus pensamentos, precisava destruir um complexo de inferioridade que foi imputado em mim.

Guia da Semana: Como você conseguiu isso?
Seu Jorge:
Tive encontros na vida maravilhosos no qual sempre capitalizei o humano. Tive uma sorte de entrar no teatro e o teatro é uma matéria que estuda a ciência interior humana. Com ele pude compreender não só através da cultura literária, mas da experiência do palco, com as pessoas dentro e fora desse espaço. Pessoas que tinham tido acesso a muitas informações e socializaram comigo. Isso me deu confiança, estrutura para valorizar a minha pessoa e que eu pudesse transmitir algo para alguém. Sempre quis ser alguém que fosse enxergado como uma pessoa inofensiva, quando consegui isso foi maravilhoso. Até então era muito difícil de olharem pra mim - vindo da origem que tenho e entender que era de bem. Um exemplo disso naquela época era quando eu entrava no ônibus e todo mundo achava que iria assaltar.

Guia da Semana: Você tem medo que essa mudança na vida te afaste da sua origem, da sua raiz?
Seu Jorge:
Já me afastou completamente. Meu irmão de sangue e eu temos um hiato de diferença muito grande. Só porque tive contato com essa vida de artista já aprendi quatro línguas. Tem muita gente que se formou em faculdade e não fala nem uma direito! Isso não é nenhuma ostentação, não é marra nem nada, é uma conquista muito grande para um cara que só tem a sétima série e que era pra estar preso, morto ou trabalhando de peão para os outros. De repente tenho a oportunidade de estar aqui, cantando no palco, com um monte de menina bonita pra caramba, filhas da sociedade da cidade mais eloqüente e poderosa desse país, e eu não posso dizer para o cara que ele não pode perder a oportunidade que está tendo em casa? Que o pai dele está ralando para ele estudar, ser alguém? Enquanto isso ele vê escorrer essa "porra" porque tem um carro bacana uma grana legal e um monte de amigo otário dizendo "Vamo ali, vamo ali!".

Guia da Semana: As experiências da sua infância influenciaram nessa postura?
Seu Jorge:
Eu tomava banho de caneca, cheguei a dormir em chão vermelhão, não comia quando era criança, ia pra escola com aquela dor de cabeça e não conseguia prestar atenção na aula. Meu pai e minha mãe não tinham dinheiro, mas tinham amor e carinho. Eles falavam pra mim: "Anda com Pedro, come com Pedro, dança com Pedro, mas de olho do Pedro!". Agora, você vai andar com três ou quatros idiotas a fazer idiotice ou pra pensar igual a um? Quem anda com porco, farelo come! É legal dá um papo nos moleques e falar, "Bicho, olha pra o teu lado, vê as companhias legais. Se tiver um bom parceiro, anda com ele". Honra seu pai, sua mãe, olhe na cara deles e diga que ama e valoriza, pois eles ficarão felizes.

Foto: Leonardo Filomeno


Guia da Semana: Você pensa em um tipo de público específico quando escreve uma música?
Seu Jorge:
Não penso, mas depois de pronto a gente consegue identificar para onde vai. Só em um caso consegui pensar na música para um público. Um dia eu falei "Porra, estamos precisando de uma música para este disco, vamos falar sobre as burguesas?" Aí o Pretinho da Serrinha virou e começou. "Vai no cabeleireiro, esteticista...", aí a coisa foi ficando. Dalí a pouco pensamos: ou as burguesinhas vão gostar dessa porra ou vão odiar! Adorei a polêmica e sabia que ia para algum lugar dentro desse universo. Tinha medo que as pessoas entendessem isso como uma crítica, e não como uma crônica do cotidiano urbano brasileiro. E assim foi feita e se desdobrou-se em muitas outras coisas, virou gíria, referência de pessoa. Mudou o termo patricinha para burguesinha, mas quem fez foi o povo, não fui eu.

Guia da Semana: Como você recebeu o prêmio de melhor cantor do Multishow?
Seu Jorge:
Já ganhei quatro prêmios esse ano. Se não tivesse ganhado nenhum, tava tudo certo. Maneiríssimo você chegar lá, votar e tal, mas tem cantores melhores do que eu nesse país, com certeza. Fico feliz pelo galanteio, pelo valor, mas nunca idealizei um milhão de cópias como melhor cantor. Quero fazer o meu trabalho, cantar, pagar minhas continhas e fazer uns amigos, só isso. Não tenho afetação com essa coisa. A vida continua, as coisas estão aí, o país precisa crescer, a gente precisa melhorar uma porrada de coisas. O que me preocupa é isso. Minha vida já definiu, já foi resolvida. Às vezes escuto Arnaldo Jabor falar, com certa razão que, com esses escândalos todos acontecendo, os cara pintada, os intelectuais e a classe artística não aparecem. Eu tô aqui, porra! Sou um artista que pensa no país, mas estou sozinho, ou isolado, como outros caras faziam por aí também, desejando uma notícia nova. A classe artística é unida, mas precisa de uma liderança, que possa apontar como subverter e melhorar um pouco a sistemática. Criar alguma coisa que contagie os outros sistemas no Brasil. No dia que isso acontecer, teremos muitas chances.

Guia da Semana: Você tem projetos para a sua carreira de ator?
Seu Jorge:
Fiz um filme esse ano, que é o Reis e Ratos, não perderia essa oportunidade por nada, com Rodrigo Santoro, Selton Mello e Otávio Miller. Tem filme o ano que vem, junto com a possibilidade de um filme francês, um brasileiro no Japão e outro em Los Angeles. Não para de chegar roteiro para o cinema, o problema é que se faço filmes, a música tem que parar, então esses últimos anos (2008, 2009 e até 2010) serão dedicados a música. Mesmo assim, ainda dá pra dar uma escapadinha pra fazer alguns longas.

Guia da Semana: Você pretende fazer novas parcerias, como a da Ana Carolina?
Seu Jorge:
Isso foi uma coisa que aconteceu sem querer. Gostaria de fazer um disco com o meu primo, o Dudu Nobre. Ele é um grande compositor e um músico muito bom e sou muito fã dele. Apesar da turbulência que é a carreira, a questão do samba no geral, sou doido pra fazer um disco com ele. É claro que diferente do que ele já fez.

Atualizado em 6 Set 2011.

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