Guia da Semana

Nelson Às Pressas

Saiba mais sobre A Falecida Vapt Vupt, espetáculo dirigido por Antunes Filho

Foto: Divulgação

Ao término dos três sinais o público já se depara com o clima da montagem de A Falecida Vapt Vupt, dirigida por Antunes Filho, que está em cartaz no Espaço CPT: um turbilhão de imagens e sons invadem a cena, em uma reprodução do cotidiano caótico do espaço contemporâneo. De forma abrupta, o público é flagrado por diversas realidades que se sobrepõem e formam um quadro atordoante, repleto de estímulos, como um retrato da vida moderna. Assim, já é possível entender o "subtítulo" dado pelo diretor do Grupo Macunaíma de Teatro à tragédia carioca de Nelson Rodrigues.

O frenesi estabelecido remete aos tempos atuais, que são cada vez mais velozes e urgentes. Em uma espécie de bar carioca, vários personagens compartilham a passagem fugaz e volátil do tempo, por meio de diversos ângulos da realidade. Entre as figuras que compõem a cena, há uma imagem solitária e estática, como uma pintura de Edward Hopper, que se destaca por estar na contramão dos outros personagens, já que estes respeitam a lógica do caos contemporâneo. Existe ainda um ser que encarna um autor criando uma trama naquele momento. Ao redor, amigos jogam, conversam, dão gargalhadas e formam um quadro repleto de detalhes e significações.

É nesse cenário que o enredo rodriguiano se desenrola. Entre as mesas, Zulmira (Bruna Anauate), uma tuberculosa frustrada do subúrbio carioca, luta para conquistar um enterro de luxo. Dessa forma, ela deseja superar a precária condição humana em que vive e mostrar a todos, principalmente à prima Glorinha, que é uma morta digna de ser prestigiada e admirada. Para conquistar o funeral de seus sonhos, Zulmira procura Timbira (Marcos de Andrade), o agente funerário malandro e trapaceiro. Enquanto isso, Tuninho (Lee Thalor), o típico marido carioca, se preocupa com as conquistas e derrotas do amado Vasco.

De forma genial, o texto consegue captar a atenção dos espectadores, mesmo em meio ao burburinho incessante. As vozes graves e aveludadas, características do trabalho de Antunes Filho, sobressaem-se e dão corpo ao universo obsessivo rodriguiano. Sentimentos demasiadamente humanos, como a inveja e a competição feminina, mostram como é frágil a condição humana. A falecida autoproclamada pode ser despida e vista por todas as mulheres da região, pois, ao contrário da elegante e séria Glorinha, ela não teve um seio extirpado por um câncer. É a indiferença e o ar de superioridade da prima que impedem que Zulmira viva a sua feminilidade.

Ao valer-se de uma estética ousada e testar novas linguagens, Antunes confere à peça um ar experimental, que respeita o ritmo caótico e hiper-real no qual o homem atual está inserido. As realidades paralelas que se instauram na cena, inspiradas na videoarte, distorcem e alteram a concepção teatral clássica. O espectador mais desprevenido pode inquietar-se com tal panorama, mas é justamente esse cenário que insere Nelson Rodrigues na era do "vapt-vupt", despertando uma identificação rápida, triste e irritante.

Quem é a colunista: Camila Silveira.

O que faz: Atriz e repórter do Guia da Semana.

Pecado Gastronômico: Chocolate e pão de queijo.

Melhor lugar do mundo: Ainda não descobri onde fica...

Fale com ela: camy_silveira@yahoo.com.br

Atualizado em 6 Set 2011.

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