Guia da Semana

Noventa minutos para o fim

O que está acontecendo com a realidade? Será que estamos cansados e não conseguimos parar para pensar?

Foto: photocase

Era uma quarta-feira, mas podia ser um sábado. Estávamos assistindo à apresentação de Naftalinas na Garganta, no Teatro da Inquisição. Na metade da peça, ela perguntou se faltava muito para acabar. Ela estava gostando do que via, mas ainda restavam 90 minutos para o fim. Puxou-me pelo braço e acabamos deixando o teatro.

Liguei a moto e fomos para casa, mas no caminho ela pediu que parássemos em um bar. Sentamos e ficamos bebendo até amanhecer. Entra uísque e sai uísque, resolvi perguntar por que, se ela não estava cansada e ficamos tanto tempo nos embriagando, ela quis sair do teatro no meio do espetáculo. A resposta poderia ser outra, mas foi algo como "Aquilo estava me fazendo pensar demais, e estou muito cansada para pensar. Mas não para beber".

Eu entendi, afinal há momentos em que o ser humano quer descansar de existir. O trabalho nos aguarda dia após dia, e depois há a casa para arrumar, os amigos para ver, os corpos para transar.

Essa situação fez com que eu olhasse um pouco para como enxergamos as coisas atualmente. Ao sair para ir a uma festa sabemos que não ficaremos no espaço menos do que quatro horas, ao marcar um almoço em família a coisa pode se arrastar por uma meia dúzia de horas, ao namorar perdemos a noção do tempo e podemos ficar uma semana trancados em um quarto sem sentir fome ou sono.

O que esses eventos têm em comum? Uma resposta imediata seria que todos eles proporcionam prazer. Mas que tipo de prazer é esse? Um prazer em que se esquece de si. Nas festas soltamos as energias ao dançar, ao beber, ao conversar com amigos entre sorrisos e descontração. A mesma coisa em jantares e no sexo.

De certa maneira, o conceito de diversão costumeiramente não envolve o lado intelectual. Isso é reflexo da maneira com que somos educados, afinal desde cedo crescemos com a obrigatoriedade da escola, o que leva a um raciocínio de que pensar é ruim porque somos condenados à imposição da educação.

Quando crescemos, continuamos com essa noção. Basta ver que são poucos os exemplos de pessoas que continuam estudando depois de chegar à vida adulta. Essa idéia de estudo se arrasta, quando mais velhos, para a própria leitura em si e para a reflexão sobre a vida. A idéia de indagar o mundo está associada desde muito cedo à sensação de desprazer.

Ao indagar o mundo há a certeza de que a maré não vai bem e muita coisa precisa ser transformada. Ao indagar o mundo percebemos que colaboramos para que essa situação de miséria permaneça. Ou seja, olhamos mais de perto para a injustiça em que vivemos e para a injustiça que cometemos, seja por inércia ou desfaçatez.

Mas, se a arte vive exatamente da indagação, como torná-la palatável em uma sociedade voltada a uma idéia de prazer que significa anulação do questionamento? Como aceitar três horas de um espetáculo se o nosso tempo para a reflexão é muito mais do que cronometrado?

Certamente a arte não deve ser uma afronta, mas ela não deve evitar o conflito com a moral pública. Basta saber que, enquanto estamos em nossa casa assistindo às televisões e dormindo, um mundo está sendo construído lá fora e pessoas estão tomando decisões sobre os rumos da realidade.

Sim, há uma realidade e ela é construída pelo ser humano. E não me refiro apenas aos políticos: refiro-me os cientistas, aos religiosos, aos intelectuais, aos jornalistas, aos publicitários... A aqueles que têm a infeliz capacidade de transformar a realidade em um mero produto a ser exposto nas vitrines, como o que estão fazendo com a tragédia da TAM.

É triste ver que a sociedade está sendo diariamente direcionada a realidades como essa. Para participarmos da construção de um dia-a-dia menos degradante, devemos primeiramente buscar um combustível que alimente nossa visão de mundo, que faça com que entendamos as entrelinhas. A arte continua sendo um espaço em que são desenvolvidos o raciocínio e a sensibilidade. Resta saber, em meio a tantas produções, exclusivamente voltadas ao mercado do entretenimento, até quando tudo isso permanecerá.

Leia as colunas anteriores de Cesar Ribeiro:

? Os progressistas não ouvem bossa nova

? Um axé bem cuidado ainda é um axé

? Alguém viu as orelhas de Van Gogh?

? Como vender um peixe amanhecido

? Uma fábrica de Alemães

Quem é o colunista: Cesar Ribeiro.

O que faz: diretor da Cia. de Orquestração Cênica.

Pecado gastronômico: comidas gordurosas & óleos adjacentes.

Melhor lugar do Brasil: metrópoles com multidão, sirenes & fumaças.

Fale com ele: acesse o blog do autor

Atualizado em 6 Set 2011.

Compartilhe

Comentários

Outras notícias recomendadas

5 hotéis ao redor do mundo que são verdadeiras obras de arte

Confira locais com acomodações incríveis, mas que têm obras como protagonistas

Evolução dos emojis ganha instalação no Museu de Arte Moderna de NY

Os primeiros emoctions, criados em 1999, também entram para a coleção MoMA

6 motivos para visitar a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano em SP (e nem perceber que está na capital)

Local une arte, cultura, lazer, arquitetura e natureza, fazendo com que o visitante esqueça que está em SP

13 grafites em SP que todo mundo que ama arte deveria ver pessoalmente

Confira obras espalhadas pela cidade que merecem sua atenção

Na Semana da Criança, uma selfie vale um passaporte nos museus de SP; entenda

Para participar, é só postar foto com uma criança no Facebook com a hashtag #MuseusSP e apresentar na bilheteria da Pinacoteca, Casa das Rosas ou do Museu da Imigração

Unibes Cultural oferece programação especial e gratuita para o mês das crianças

Evento acontece até dia 31 de outubro e comemora o Mês das Crianças