Guia da Semana

"O amor é um crime que não se pode realizar sem cúmplice"

(Charles Baudelaire)

Getty Image
"Com as leves asas do amor transpus estes muros, porque os limites da pedra não servem de empecilho para o amor. E o que o amor pode fazer, o amor ousa tentar". Esse é um trecho de Romeu e Julieta. Resolvi reler a peça depois de anos. Acabara de assistir o filme numa madrugada de insônia e precisava ver se ela me atingiria ainda como na primeira vez que li. Engraçado como há histórias que sobrevivem tanto tempo. E não diferente de outros clássicos como Tristão e Isolda e Otelo o amor nas suas infinitas variantes é o ponto em comum e é um grande condutor para se criar histórias.

Réu confesso, tenho um fascínio quase mórbido por histórias sem final feliz. Há pessoas que vão ao teatro ou ao cinema para fugir da realidade, adoram fantasiar príncipes encantados e amores impossíveis.

Uma amiga sempre me fala que Romeu e Julieta é lindo porque eles morreram antes de terem a primeira discussão sobre o relacionamento, que certamente se fosse adiante esse namoro, no primeiro porre Romeu já tinha traído a "Juju" com uma loira siliconada. E claro, colocaria a culpa na bebida!

A descrença nos finais felizes transpôs palcos e telas. Virou moda a solidão. E não sei e nem quero apontar culpados, mas já encheu o papo de "mundo globalizado", "pessoas individualistas". Virou oba-oba esse papo.

Certamente reler Shakespeare deve ter me deixado um pouco baratinado. Mas tem como não ficar depois de ler coisas como essa?

"Silêncio! Que luz brilha através daquela janela! É o Oriente e Julieta é o Sol! Surge, claro sol, e mata a invejosa lua, já doente e pálida de desgosto, vendo que tu, sua serva, és mais linda do que ela!"Manda isso escrito pra alguém. Vai virar motivo de chacota por três anos.

As histórias de amor viraram tão banais. O amor virou paisagem. Não quero ficar me aprofundando em nada, tenho pouco espaço, mas a cada dia se torna mais difícil encontrar motivos pra se apaixonar.

Tudo bem que essa leitura me deixou meio pessimista. E olha que o dia dos namorados já passou e normalmente as pessoas que estão sozinhas ficam assim nessa época. Não ligam a TV pra não ver nem comercial do show do Roupa Nova no dia 12.

Sinto falta em acompanhar histórias que deixam aquele sorriso bobo involuntário depois do primeiro beijo entre o casal. Nem aquelas cenas clássicas como da menina que derruba os cadernos depois de uma trombada tem mais graça. Se eu vir um casal correndo de um canto de cada lado numa praia vou morrer de rir porque vou lembrar da TV Pirata.

Até o programa Namoro na TV, do Sílvio Santos, eu sinto falta, acreditem. Era ótimo ver aquele povo com binóculo saindo em disparada quando ele permitia que eles dançassem. Ficava imaginando o cara que por uma fração de segundos ou um tropeço perdeu a chance de dançar com o que seria o amor da sua vida porque um mais rápido pegou a mocinha antes dele. Devaneios de um último romântico, como diria Lulu Santos.

Ligar pra quem você estava apaixonado e ficar mudo no telefone não dá mais. Agora tem bina, vão saber que foi você. Hoje o máximo que você pode fazer é fuçar o orkut dela e mesmo assim torcer pra que não tenha bloqueado as mensagens. A tecnologia é anti-romântica. Quem você vê escrevendo o nome na areia dentro de um coração esperando a onda apagar ou gravar músicas em fitas cassetes e colocar na etiqueta "Músicas Lentas" pra ficar que nem bobo pensando em quem se ama?

Os tempos são outros, as loucuras de amor são outras, os amores são outros. E a gente, será que ainda é o mesmo? Ou simplesmente fomos absorvidos pelo rolo compressor de um mundo de relações fast-foods, onde ser romântico (ou pelo menos tentar ser) é sinônimo de brega? Taí uma sugestão para reflexão. De preferência, a dois.

Enfim, acho que a melhor opção de leitura atualmente é Nelson Rodrigues. Pelo menos ele encara o amor com humor, e bem diferente de Shakespeare, ele solta pérolas como essa: "Sem paixão não dá nem pra chupar um picolé". Emendando, vamos convir: amor tem tudo a ver com humor. A gente ri sozinho quando está apaixonado. Ou chora sozinho, se preferirem, quando o mundo não se torna colorido por causa de um amor. Nem que seja o amor-próprio.

Quem é o colunista: Guilherme Gonzalez.

O que faz: Paraense, radicado em São Paulo, Guilherme Gonzalez é uma mistura de ator e produtor cultural. É um dos fundadores da Cia. Teatro de Janela.

Pecado gastronômico: Sorvete de tapioca.

Melhor lugar do Brasil: Praia do Amor em Pipa (RN) bem acompanhado.

Fale com ele: gonzalezguilherme@hotmail.com

Atualizado em 1 Dez 2011.

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